Woody Allen nunca deveria sair de Nova Iorque. Nunca. Não o deixem, barrem-lhe a saída, retirem-lhe o passaporte, o que quiserem. Por muito que Match Point e outras aventuras além-mar não lhe tenham saído mal, a verdade é o que o génio só anda à solta, em todo o seu esplendor, na cidade que o conhece por dentro. Whatever Works é, a esse respeito, a cereja no bolo.
Boris Yellnikoff (a fabulosa personagem interpretada por Larry David) é um velho rezingão, prémio Nobel da Física Quântica adiado, que imbirra com tudo, excepto com ele próprio. Está naquela fase da vida que alguns não desdenhariam: diz o que lhe apetece, não põe verniz nem seda nos ditos e proclamações, faz do insulto muleta e anda por aí a vergastar um mundo de “cretinos” e “imbecis” que o cansam e o aborrecem, entre um vinho e uns petiscos com os amigos.
Isto, até ao dia em que lhe aparece à porta uma “vadia” chamada Melodie Celestine, a doce pacóvia do Mississipi (uma intrepretação que ficará para a História da fantástica Evan Rachel Wood) que não conhece a 5ª de Beethoven nem os arredores de um cérebro minimamente elástico. E mesmo assim…funciona.
Não vale a pena ir mais longe e estragar a surpresa dos diálogos e confrontos urbano-alegro-depressivos que provocam barrigadas de riso e uma saudável arte encararar a vida que nos calha em sorte. Whatever Works é isso: uma lição sobre a arte de aprendermos a ser felizes não porque pleaneamos ou sabemos o que é melhor para nós, mas porque estamos sempre disponíveis para abraçar as improbabilidades. Para a vida. Felicidade é “tudo o que funciona”. Ponto. E nesse mundo imperfeito, mas respirável, até a física quântica pode apaixonar-se pelo além…Soberbo, acreditem.
Ah! – I O filme é altamente recomendável às alminhas que consideram que as leis e as tradições devem formatar as nossas vidas, mesmo entre lencóis. E para lá deles
Ah! – II E fiquem sabendo que Deus não criou o mundo. Ele era apenas um decorador.





