Alta mente

9789896711580

Francisco Bosco, teórico da literatura, brasileiro, é um autor fascinante. E este é um livro que se lê rapidinho. Tão rapidinho como a forma como desengravata e despenteia convenções. Para quem não esperava um livro «modo de usar a vida» este enche as medidas e ainda sobra. Estão lá o amor, a amizade, a literatura, a morte, a arte, Proust, Deleuze, Nelson Rodrigues, tudo onde mexe um cabelo e onde corre um pingo de sangue. A vida tal como ela é. E não como alguns manuais e alguns manuéis gostariam que fosse. Para nosso bem, dizem. Pois então, se fazem favor, é meter tudo no espremedor do Francisco. E depois mexer bem. Sobrará a inteligência dele. Um estímulo para a nossa (ah, já agora, a obra vai ser apresentada na Feira do Livro de Lisboa por Ricardo Araújo Pereira).

EXCERTOS:

PENSAMENTO POSITIVO? «A autoajuda em nada ajuda nas situações que talvez sejam as mais críticas e decisivas da vida do sujeito. Nessas, só o que pode ajudar é a via angustiosa de um pensamento negativo. (…) o pensamento positivo não é apenas ineficaz, mas nocivo: ele impedirá, com seus mantras de otimismo escapista, que o sujeito possa ativar os mecanismos dialéticos da existência, capazes de fazer com que, aprofundando-se, uma coisa se reverta em seu oposto»

PENSAMENTO POSITIVO? – II «Pode ser que em determinadas situações da vida o pensamento positivo seja recomedado (diante, por exemplo, de doenças graves). Mas, naquelas situações em que rodamos em círculos dentro de labririntos psíquicos, pensar que eles não existem não ajuda. O pensamento negativo é a melhor, se não a única saída, é preciso concentrar as forças para quebrar o muro».

CONTEMPORÂNEO «Para o artista e para o filósofo, a condição de ser contemporâneo de seu tempo, isto é, de estar à altura de capturá-lo numa forma ou num sentido, é dar um passo atrás, ou ao lado, é não coincidir plenamente com seu tempo. Com efeito, vejo muitos artistas completamente aderidos a seu tempo, mas que, por esse mesmo movimento, perdem a capacidade de o revelar – são antes revelados por ele».

REALIDADE «O estreitamento da realidade tem como consequência necessária o estreitamento da arte».

SEXUALIDADE «Um sujeito bissexual não é mais livre, em princípio, do que um heterossexual. A sexualidade de um homossexual, mesmo numa sociedade opressora, não é mais autêntica, por ser transgressora, do que a de um heterossexual. Mas, se o homossexual puder realizar seu desejo, viver de acordo com ele, sua conduta será autêntica. Não há autenticidade na origem da sexualidade, apenas no seu destino (…) Nenhum sonho é autêntico. Realizá-lo é que é».

VIDA «Artistas e pensadores são os médicos do mundo: cuidam da grande saúde, que é estar à altura da vida».

SABER «Schopenhauer não via com bons olhos a figura do erudito, que é, segundo ele, alguém que “leu até ficar estúpido” (…) Tenho pouco saber de reserva. Interesso-me mais por questões do que por autores. Estudo apenas o suficiente para me propiciar uma compreensão do que estou buscando. Não tenho nem sequer um territóriio discursivo (…) Só sei o que sei de cor, o que entrou na minha vida de modo a me orientar cotidianamente nas minhas escolhas morais, intelectuais e existenciais. Essencialmente, um inculto».

Por um punhado de euros

ESQUIRE

Estou cada vez mais viciado na edição espanhola da revista Esquire (4,90€). O número deste mês, então, já me pôs a salivar (tenho-o mesmo aqui ao ladinho para começar a…nham, nham…) Então é assim: há uma pré-publicação de Futbolistas de Izquierdasum livro com perfis dos intratáveis da bola que, na vida, nunca jogavam pela faixa direita; há um artigo com memórias do inesquecível O Leopardo, de Visconti; há duas páginas de chorar por mais sobre queijos das Astúrias; o tema de capa é uma longa investigação sobre «o lado obscuro» de Frank Sinatra; há uma reportagem «para carnívoros de meio mundo», em busca do restaurante El Capricho, escondido numa pequena localidade de Léon (só o título é de babar: «Em busca da carne perdida»); há uma entrevista com Mick Jagger e Keith Richards sobre…«o futuro dos Rolling Stones» (!) a pretexto dos 50 anos da banda; e há ainda um perfil sobre o lado errante de Chet Baker e o que isso lhe fez ao talento; Chega?

Um dos meus heróis…

Etiquetas

Gay Talese

«Creo que es legítimo escribir reportajes con las armas propias del contador de historias. Yo aspiro a ser un buen contador de historias,con un matiz importante, y es que no me aparto de los hechos y solo utilizo nombres reales. Hay grandes novelistas que han sido magníficos reporteros, como Graham Greene, John O’Hara o Hemingway. Yo escribo reportajes, y un reportaje no es ficción. Hay que poner mucho cuidado en no imaginar absolutamente nada. Que imagine el novelista. El escritor de no ficción tiene que trabajar el interior del personaje, su entorno, la atmósfera en que existe. Todo eso le da a la crónica un aire de ficción, pero hay diferencias y matices. En un buen reportaje, los hechos se han de subordinar al personaje, no al revés.»

GAY TALESE, El Pais

Um dia no JPN

Etiquetas

JPN

O Jornalismo Porto Net, para quem não sabe, é o jornal digital da licenciatura em Ciências da Comunicação da Universidade do Porto. É uma «casa» que visito há muito, por motivos profissionais, em busca de ângulos ou abordagens diferentes da atualidade. Há uns anos, descobri no site, por exemplo, a história de uma estudante cabo-verdiana com um trabalho fabuloso sobre o Tarrafal, que me deu matéria de sobra para um artigo. Já conhecia o espírito da equipa à distância. Mas agora fui convidado a editar o JPN durante um dia.

Por defeito profissional, propus que se discutissem trabalhos a longo prazo, apesar do JPN andar em cima da atualidade, sobretudo local, cultural e universitária. Devo dizer, com toda a justiça, que foi uma das experiências mais ricas dos últimos tempos. Ideias boas, um estímulo criativo raro, um interesse genuíno pelos melhores ângulos de abordagem, questionamentos que dão que pensar e que não têm, por vezes, resposta fácil. Tomara a muitas redações ter reuniões assim, desafiantes – estas sim, «empreendedoras» – capazes de sobressaltos e desassossegos típicos das paixões mais assolapadas.

Rodeados, tantas vezes, de confortáveis cinismos, de preguiçosos desencantos e inércias que se multiplicam, faria bem, a muitos de nós, passarem um dia no JPN ou deixarem que a malta do JPN entrasse à séria por uma redação dentro, para despentear tudo. Eu vou voltar. E juro que não é para provar de novo o bolo de bolacha fantástico do Rui que tornou o dia ainda mais doce. Sim, uma vez por semana há lanche no JPN. E para a semana mete salpicões. Encher chouriços, porém, não é aqui. Bem pelo contrário.

JPN aqui: http://jpn.c2com.up.pt/

Ciganos na sopa

ciganos

Mais uma crónica brilhante da Marta Vaz. A mim, trouxe-me à memória preconceitos semelhantes que nos eram induzidos, sem intenção nem maldade, no quotidiano de criança. A infância, até nisto, pode ser muito cruel. A ler, obrigatoriamente.

http://visao.sapo.pt/se-a-menina-nao-come-chamo-os-ciganos=f730419

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 133 outros seguidores