Crónica de Burgos – IV

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Nem tudo foi mau. De vários países da América-Latina veio ao congresso gente capaz de pensar pela sua própria cabeça e – melhor ainda – dizê-lo olhando nos olhos. Batalharam em diversos painéis destes dias pela sua dignidade jornalística, recusando catalogações e carimbos à medida dos colonialismos modernos, de colarinho branco e botão de punho, e dos colonialismos ideológicos, velhas receitas que consistem em baralhar os povos para voltar a dar. Aos mesmos, bem entendido. O M., jornalista de Economia no Brasil, colocou o dedo na ferida: «Trazem-nos aqui porque pensam que somos todos imbecis e podem lavar a nossa cabeça». Em alguns casos, não é efectivamente preciso: a moleirinha já vem devidamente enxuta de liberdades poéticas, utópicas e redentoras da alma humana. Os cubanos de Miami trazem t-shirts contra Chávez e Fidel e dizem, ao mesmo tempo, que vestem a camisola do jornalismo. Do Equador veio a V., jornalista num órgão digital, que com doçura e uma paciência infinita, lá ia explicando a ouvidos duros as razões pelas quais o presidente Rafael Correa, apesar de amigo de Chávez, não é como ele. E já quando a conversa ia adiantada, aproveitava para explicar o porquê de estarem na agenda temas nunca antes discutidos e sufragados naquele lado do mundo. A Europa fala de cátedra de uma América-Latina que verdadeiramente não respeita e sobre a qual esconde ainda muitos preconceitos. Os quais, muitas vezes, surgem atrelados ao mecânico proclamar de direitos e liberdades formais. Já o amigo e companheiro A., de um jornal digital da Argentina, resumiu, de forma mordaz, discursos catastrofistas a propósito de socialismos e diferentes visões de esquerda na América Latina: «Sabes qual é a solução? É seres de direita. Se fores de direita dizem-te que vai tudo correr bem». Discutem ideias, têm o mais absoluto desdém pelos traidores internos e externos das suas democracias. Conversar com alguns destes camaradas de profissão não foi apenas um mero encontro de profissionais de ofício separados por muito mar e terra. Foi um exercício de partilha, despreconceituoso. Partilha e discussão de ideias, hipóteses, desejos, sonhos, realizações. Coisas de seres humanos que entendem o exercício do seu ofício com memória, responsabilidade social, sem cinismos, e que se olha digno, ao espelho, na hora de enfrentar os que pretendem assumir-se como cães de guarda das consciências. Deu para respirar, de janela aberta. Mesmo o mais eficaz ar condicionado pode sempre desligar-se.

Crónica de Burgos – II

Receita para um congresso de jornalistas sobre a América Latina: primeiro convida-se uma larga maioria de gente que dirá aquilo que a gente espera que diga. Depois atrelam-se uns aliens para enfeitar. Mistura-se tudo e conclui-se o que nos dá jeito e favorece o nosso ponto de vista e, já agora, os negócios. A “coisa” obviamente nunca resiste a uma prova de bom senso, razoabilidade, equilibrio e contraste. Sabe mal. Mas vende bem. Muito bem.

Crónica de Burgos – I

Chamam-lhe Congresso de Análise sobre a América-Latina. Os espanhóis sabem fazê-las. Chamam a Burgos uma catrefada de jornalistas do lado de lá do Atlântico, convenientemente adeptos do livre mercado e liberais q.b., e depois aproveitam para promover a língua, os negócios (a coisa tem o patrocínio da Telefónica) e um certo “jornalismo” empresarial, cada vez mais produtor de conteúdos e menos jornalismo. Mas nem tudo é mau: a maioria acha positivo que os EUA liguem cada vez menos ao resto do Continente e há quem ainda represente – e bem – a dignidade deste ofício de escrever. Como um antigo editor do Internacional do El País que, chamado a prinunciar-se, disse: “O jornalismo nunca se deve assumir como Ministério das Obras Pias”. Voltarei ao tema.

D. Juan Carlos

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Um livro publicado em Espanha revela que uma decoradora de Maiorca foi amante do Rei Juan Carlos durante 18 anos. Não se percebe a admiração. E também não se pode dizer que o monarca não seja a favor de relações duradouras, em casa ou fora dela. Neste caso, indefeso ficou o engenheiro casado com a decoradora. Mesmo que lhe apetecesse desancar o amante da mulher, era capaz de arranjar, no mínimo, um conflito institucional. Mal por mal, ele deve ter pensado que, decoradora por decoradora, mais vale ter a testa enfeitada pela realeza.

Assim não brinco mais…

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Laura Rodrigues, eterna líder da Associação Comercial do Porto, critica a maioria PSD/CDS da Câmara do Porto por causa do projecto de requalificação do Bolhão. Os comerciantes do Bolhão, que têm uma associação própria, aplaudem o futuro mercado. Na rua, manifestam-se umas quantas individualidades em defesa dos comerciantes, coitadinhos, porque não há quem os defenda. Entretanto, Luís Filipe Menezes (estão a ver quem é, não estão?) visita o bairro do Aleixo e elogia a obra social de Rui Rio. Das duas, uma: ou me explicam tudo direitinho ou não brinco mais. 

Passem a palavra

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Este livro devia andar de mão em mão. Miguel Real, filósofo e mestre em Estudos Portugueses, faz um retrato irónico e avassalador do estado a que chegamos depois de séculos de mitomanias e pantomineiros de serviço. É um pequenino ensaio de pouco mais de 100 páginas que revela um País em todo o seu esplendor. A meio caminho entre António Barreto e Vasco Pulido Valente, com pitadas ao estilo de Luiz Pacheco e Ricardo Araújo Pereira. «Portugal transformar-se-á em mais uma das inúmeras regiões singulares da Europa, culturalmente tão importante e exótico como a Alsácia ou a Andaluzia». Só de ler, já dói. Voltarei ao tema. O livro vai a meio, mas já anotado por todos os cantos. Arrisco, porém: se há obras que deviam circular como manifestos, esta é uma delas.