Arquivo de Fevereiro, 2008

A devida…na Visão – V

Posted in devida comédia with tags on 28/02/2008 by Miguel

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De Vénus

Portugal está a assistir a dois grandes momentos de luta e reivindicação das populações pelos seus direitos. O fecho das urgências? A revolta dos professores contra a «Ministra da Avaliação», perdão…Ministra da Educação? Qual quê?! Refiro-me ao abaixo-assinado que um conjunto de cidadãos está a promover para legalizar o tuning e à petição que circula na Internet defendendo a exibição da telenovela Vila Faia em horário nobre. Isso sim, coisas que valem uma boa «manif»!

Como é possível que um governo esteja a ser questionado por questões tão triviais – e recorrentes – como o fecho de serviços de saúde e a dignidade dos docentes, quando há uma vasta camada da população que não consegue enfeitar os seus carros dentro da lei? Exige o movimento – e bem – uma «célere publicação de regulamentação para este sector». Sim, porque o tuning já é um sector. E melhor fará o Governo em escutá-lo, se não quiser ver as estatísticas dos atropelamentos aumentar.

Outro acto de relevante acção cívica é a petição para acabar com a exibição do remake da telenovela Vila Faia aos fins-de-semana. Os signatários defendem a transmissão dos episódios de segunda à sexta em horário nobre. Um dos propósitos é fazer frente às novelas e séries mexicanas, mas, nesse caso, a tarefa afigura-se mais complicada. Seria preciso mexer nos conteúdos dos telejornais e dispensar protagonistas. O que, como se sabe, não é tarefa fácil num País onde os folhetins sobre corrupção, desmandos privados e de Estado, além de sacanices várias, têm audiências consideráveis e actores à altura.

Como se já não bastassem as contestações sociais da Vila Faia e do tuning, outra luta se adivinha no horizonte. Parece que em 2007, o Estado distribuiu milhares de preservativos furados. Ora, espero sinceramente que alguém force o Ministério da Saúde a explicar se foi esta a estratégia encapotada para promover a natalidade ou se o desleixo é apenas uma metáfora do desgoverno.

Todos sabemos como isto funciona.

Na campanha eleitoral, os socialistas prometeram-nos prazeres e momentos únicos com sabor a menta, pêssego e chocolate, devidamente protegidos contra as intempéries internas e externas. Afirmaram-se seguros para o mandato que aí vinha, esperando, da nossa parte, excitação a condizer. Mais: seriam impermeáveis nos princípios e nos valores.

Que temos nós, hoje? O PS que garantiu momentos cor-de-rosa resultou, afinal, num Governo pouco fiável e de confiança duvidosa. E a braços, já agora, com uma gestação de conflitos indesejável. No fundo, o pior de tudo nem sequer é facto das coisas terem saído furadas. É termos gente em camisa-de-forças nas mãos de uma oposição de Marte e de um Governo de Vénus.

 

Tordo

Posted in devida comédia on 27/02/2008 by Miguel

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Amo as canções dele. E o compromisso subjacente a muitas delas. Uma vez, em Braga, era eu criança, passei uma noite inteira a servir malgas de vinho verde ao Ary e ainda fiz uma perninha com o Tordo e a Helena Isabel em palco. Outras histórias. Sabia – acho que ainda sei – a letra do «Viva Brel», uma das mais bonitas cantigas que ouvi na vida. A par desta, do grupo Os Amigos no Festival da Canção de 1977, quando Abril (vejam os cravos ao peito e nas mãos) já murchava, mas ainda se cantava. Há dias, descobri o primeiro livro de poesia do Tordo. Amei. Ainda e sempre, Tordo atravessa-se na minha existência. E isto eu agradeço para a vida inteira.

Isto é que me dana.
A vida em vão
o vão da vida

uma escada

uma espécie de entrada por saída

(Do livro do Tordo)

George Clooney ao domícilio

Posted in devida comédia on 25/02/2008 by Miguel

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Com uma capa assim, a TIME desta semana deve esgotar em Portugal (desculpem, mas já prometi o meu exemplar de assinante a uma colega de redacção). Mas não desesperem, meninas: há outras soluções. O repórter da TIME, Joel Stein, decidiu que era chegada a hora de abandonar as entrevistas em hóteis ou lugares do género. Vai daí, convidou Clooney para jantar…em casa dele. E não é o que o gajo foi?! O resultado está neste vídeo. Por isso, minhas senhoras, é favor seguir a carreira jornalística. Quem sabe se mais lá para frente não têm de fazer uma entrevista e «encomendá-la» pelo telefone. Ah! Se alguém tiver o telefone da Keira Knigthley, agradeço. Conheço uma receita de bacalhau que dava logo outro recheio àqueles ossinhos…Tudo a bem da entrevista, claro.

And the Oscar goes to…

Posted in devida comédia on 25/02/2008 by Miguel

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Pequenas reflexões sobre a noite do Óscares:

Jon Stewart: um apresentador assim não tem preço. Cínico, irónico, sarcástico quanto baste. Nunca faz humor fácil. O seu Daily Show (todos os dias na SIC Radical) já mete num bolso todos os programas de entretenimento e debate deste planeta e arredores, prova de que a delicadeza e elegância do entrevistador não têm de significar servilismo nem complacência com o entrevistado. Bem pelo contrário.  A noite dos Óscares não é definitivamente o seu melhor palco, mas é melhor vê-lo clonado por vários registos do que ter um mestre de cerimónias que pede licença ao cérebro.

Javier Bardem: quem não tem português…caça com espanhol. Ainda não vi o filme baseado no argumento do grande Cormac McCarthy (leiam A Estrada antes que se transforme em filme também).  Mas Javier já me tinha convencido há largos anos quando vestiu a pele de Reinaldo Arenas, o escritor dissidente e homossexual cubano de Antes que Anoiteça. Comoventes, as suas palavras em castelhano. Sobretudo pela homenagem a quem, como ele, honra e dignifica o ofício num país aqui ao lado. 

Marion Cotillard: enquanto não vejo La Vie en Rose, a senhora chega-me. Um pedaço de mau caminho, a francesa (na foto). Se naqueles 32 anos também há talento e inteligência, é caso para dizer que Deus Nosso Senhor tem vistinhas largas, lá isso tem…

Tilda Swinton: já vi Michael Clayton. Houve quem saísse ao fim da primeira hora e outros que, ao intervalo, ainda não tinham percebido patavina do enredo. O último de George Clooney é George Clooney a fazer de Clooney – mas sem Nespresso – numa história relativamente bem conseguida sobre o sinistro poder das grandes corporações. Se fosse por Clooney, não haveria Óscar e seria merecido. Mas Tilda Swinton vale bem a estatueta. Só uma das cenas finais do filme já era motivo suficiente para a Academia pensar no assunto.

Ratatui: que pena não ter mesmo o próprio rato a receber o Óscar! Ele bem merecia agradecer o justo reconhecimento de Hollywood pelo filme mais anti-ASAE dos últimos anos.

Só faltava o tunning…

Posted in devida comédia on 25/02/2008 by Miguel

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Ele há cada uma…No dia 12 de Abril, um novo movimento reivindicativo vai sair à rua. «Tunning legal já!», é o mote. Apesar das aparências, a «manif» será mesmo a pé. Dizem os apoiantes desta onda que não querem ser confundidos com os tugas do street racing. De resto, também não gostam de ser associados a fenómenos de marginalidade só porque lhes dá na moleirinha gostarem de transformar automóveis. Resumindo: os «tunnings» querem exigir à tutela «uma célere publicação de regulamentação para este sector». Já agora: e se isso não acontecer, o «sector» atropela alguém? 

Como fazer um homem feliz – IV

Posted in devida comédia with tags on 24/02/2008 by Miguel

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Saber que o bolo de bolacha pode não ser o caminho mais directo para o coração, mas é certamente o início de uma bela amizade.

A malta saiu à rua…

Posted in devida comédia on 24/02/2008 by Miguel

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Sábado à noite, esta cidade que me tem como quer, não esqueceu Zeca Afonso. Eram os anos dele. O Clube Literário do Porto lembrou «o canto de intervenção», com palavras e música que, de forma arrepiante, até parecem feitas para os dias de hoje. Findo o espectáculo, ainda fui a tempo de descobrir um café a dois passos de casa, onde a Ana Deus e mais uns compinchas também deram voz às palavras do Zeca. Chama-se Pedra Nova, o café. Obviamente, podia puxar-se do cigarro. Eu não puxo, mas gosto de saber que ainda há sítios onde os actos não obedecem a retóricas higienizantes. De resto, nem as palavras seriam as mesmas sem essas nuvens de fumo.

Venha o filme…

Posted in devida comédia on 22/02/2008 by Miguel

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Pedro Almodóvar vai fazer um filme sobre o poeta espanhol Marcos Ana (na foto). Ao ler as suas memórias («Diz-me como é uma árvore»), o realizador espanhol apaixonou-se pela vida do antifascista e militante comunista, que esteve preso 23 anos pela ditadura franquista e cujos versos foram um sopro de resistência para outros presos.

Quando saiu da cadeia, Marcos Ana tinha 42 anos. E era ainda uma criança. Ou quase. Os sentidos demoraram a habituar-se aos espaços, aos movimentos, à vida que entretanto correu sem dar por ele – e ele por ela - cá fora. O primeiro amor do poeta acabaria por ser uma prostituta que não lhe cobrou dinheiro. «Porque certas noites, como aquela, não têm preço». Felizmente, ainda há frases que valem uma vida. 

A devida…na Visão – IV

Posted in devida comédia with tags on 22/02/2008 by Miguel

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O preço

Parece que a mudança da imagem do símbolo do PSD foi paga por uma empresa muito habituada a ganhar concursos de empreitadas públicas. A «falta de valores» chocou o País político, facto, esse sim, espantoso, pois já ninguém esperava que quem anda na política e escreve sobre ela se espantasse com o que quer que fosse.

Ora, esta dos símbolos terem um preço e haver quem os pague é apenas uma das consequências da mercantilização da política portuguesa. E nem sequer a mais preocupante, convenhamos. Se diversas empresas e lóbis pagam para ter vitórias eleitorais do partido amigo, se financiam a ascensão de líderes partidários e deputados, se condicionam listas, administrações públicas, autarcas, ministros, leis e opções governamentais, quem lhes pode negar também o direito de pagar o novo look da marca partidária, o refresh da setinha ou o nome da rosa? Não sejamos ingénuos: o mais recente lastro deixado pelos negócios à volta de sobreiros, submarinos, casinos e terrenos para aeroportos confirma, só por si, que os partidos habituados a frequentar a órbita do poder levaram à prática, com inegável sucesso e bolsos cheios, a velha máxima marxista, tendência Groucho: «Estes são os meus princípios. Se não gosta deles, tenho outros».

Para quem tem o dinheiro e possibilidade de o gastar, os partidos habituados ao poder nem sequer dão muita despesa. Trata-se de investimento. E com grande retorno. E nisso já se incluem os gastos com os «retornados» que, após a dança de cadeiras, é preciso acolher nas administrações ou consultorias em honra dos bons serviços prestados. Qualquer empresa ou lóbi deste País sabe que um dos melhores investimentos na área política é no campo das ideias, dos princípios e das convicções. Quanto menos disso houver, melhor. Nem que seja preciso pagar. Parece óbvio que muito dinheiro foi gasto, nestes anos, em operações plásticas e liftings ideológicos nos partidos. De resto, qualquer conceito ideológico pode atrapalhar um bom negócio. E se a isso juntarmos um conjunto de pessoas sem preço, o mercado ressente-se. E alguém dirá que a democracia não funciona.

Essa, porém, é a excepção. A regra é andar sempre de braço dado com o pragmatismo e a ânsia de modernidade. É por isso que a esquerda sem maturidade ideológica e convicções profundas se intitula «esquerda moderna». Gosta de estar na moda, ao sabor do vento e do tempo. Não nota, porém, que se transformou numa esquerda de saldos…a preços de direita.

Era doce, era

Posted in devida comédia on 19/02/2008 by Miguel

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No dia em que os norte-americanos me deixarem votar na casa deles, eu não protestarei tanto com o que eles fazem nos nossos quintais. Além disso, adorava voltar à infância e furar aqueles boletins de voto, como eles lá fazem e nós também faziamos, mas na feira. Podia ser que me saisse chocolate preto…na casa branca.