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Carta de amor a uma cidade mulher

Tenho dito, muitas vezes, que não gosto de cidades acessíveis, belas e vistosas como uma mulher dada, oferecida, fácil.

Há cidades que nunca me conquistaram precisamente porque se deram à conquista passeando virtudes e carácter que não têm. Engraçam com tudo. E até com os homens e mulheres que as ferem e magoam. Irremediavelmente tornam-se fúteis, banais, permeáveis até não poder mais. O seu rosto continua a ser belo, por vezes esplendoroso. Mas essas cidades são feridas abertas nas gentes que têm de viver nela. Com ela.

Não gosto de cidades falsas, traiçoeiras, como não se gosta de pessoas com idênticas características.
Uma cidade quer-se terra firme na entrega, golpe de asa no imaginário, abrigo de tempestades e sonho de algodão doce.

Esta cidade que amo não é, pois, mulher fácil.

O Porto, a cidade mulher que me veste por dentro, botou cara feia desde o primeiro momento em que a vi com olhos de ver. De feitio difícil, por vezes de mão na anca, desafiadora, fez de mim gato-sapato, não foi em palpitações de momento.

Apaixonado, quis levá-la para a cama, seduzi-la, enrolá-la em arrebatamentos de ocasião. Mas esta cidade mulher não foi na cantilena e sempre pediu certezas de coração.

Vaidosa e orgulhosa, senhora do seu nariz, amiga de Tóinos e Rosinhas, burgueses e plebeus, engenheiros e doutores, sabem aqueles que lhe mereceram a confiança que ser desta cidade mulher é ser dela até morrer. E ela nossa.

Esta cidade mulher não é dada, oferecida, a quem por ela passa ou se enamora.
Esta cidade mulher pede enlevo, dedicação, um fazer das tripas coração. Não vai em modas, em palavra fácil e reinação.

Esta cidade mulher quer ser amada, desejada, na carne e no osso, com poesia de granito e quotidianos vividos por inteiro. Cidade de intimidades, de vida vivida ao relento, sem subterfúgios nem desditas, esta cidade que amo, onde vivo e que me tem, possui-me quando quer e como quer, aqui e agora ou mais além.

Quero dizer-te cidade que és para mim vício, enigma e intimidade, penhor de todos os meus actos. Conheço a tua história de existências duras, vidas aziagas, o teu carácter amante de liberdade e a tua personalidade feita de cara posta aos ventos do avesso.

Quiseram-te domada e dócil. Fiel. Mas tu, mulher cidade adiada, agredida e violentada, foste ao lado selvagem, sadio, brutal, tosco e sincero dos teus dias buscar, como o poeta, a trave-mestra do teu coração. Leal e digna.

Por isso te amo, cidade, no que és de generosa e de pouco ou nada razoável e em todos os exageros que te fazem perfeita.
Por isso te amo no antes quebrar que torcer, no teu ar embevecido de cascata.
Por isso espero que habites o meu pensamento em cada canto do mundo, nem que seja com memórias das gaitas e buzinas em folias de azul e branco ou mares carregados de gente rapioqueira.

Minha cidade, meu amor, meu equilíbrio quando tudo falta.

Minha presumida e orgulhosa, bairrista, minha cidade reduto de virtudes.

Amo-te na morrinha e nas sardinheiras à varanda. No mapa do tesouro de arcos, ruas e vielas. Amo-te da Ribeira até à Foz, marginal, biografia de nós. Amo-te no tasco com portas de filmes de cowboys, nas utopias tacteadas, nos bês e nos vês dos afectos, nos sorrisos rasgados de bandeiras. Amo-te nas tuas veias de bairros e vivendas, sem distinções. Amo-te como quem fala para dentro de ti, como quem conversa com os seus botões.

Enterneço-me com o teu jeito de amar a curva sensual do rio, com esse teu lado vadio, de pregão, carregado de ternuras e desesperos. Tenho ciúmes desses homens que são moradas de ti, Germanos e Pachecos, Pinas e Eugénios, esses que te escreveram e escrevem como ninguém, que conhecem as tuas entranhas porque, no fundo, são também as deles.

O Torga, Miguel, poeta maior, disse: «Os grandes sentimentos são como as grandes alturas: chamam demais por nós. Obrigam-nos a uma tensão contínua, ilimitada, que só se mantém à custa de maceração e luta».

Amo-te minha cidade de madrugadas bebidas em encantamentos, cidade de vidas traficadas nas vandomas e carolice à tripa-forra.

Amo-te mesmo quando te vestem de progressos, desenvolvimentos e modernices de encomenda. Amo-te sobretudo quando as gentes e os hábitos que constroem o teu quotidiano resistem a ser moldadas por burocratas e pantomineiros, cheios de certezas sobre a cidade que não amam, não desejam e que não conhecem na sua geografia sentimental.

Moro dentro de ti, cidade, mulher.

Nas caminhadas pela ponte mais velha, nas prateleiras das lojas e mercearias, no amendoim mordido na esplanada do rio, no tremoço tasquinhado, no eléctrico da marginal, na vista de uma janela para o rio.

Moro na tua graça tripeira, nos teus comeres, nos teus beberes, na tua pantagruélica maneira de servir a vida, de consumi-la fazendo caretas a consumições.

Visto as tuas dores, que são minhas, e canto pelos cantos as tuas alegrias e amores. Gosto de ti sensual, sôfrega, traquina, por vezes brejeira, de peito aberto a quem amas e sarrafo no coiro de quem te desmente.

Cidade, mulher da minha vida, sabes uma coisa? O Torga dizia que para estas clarificações, para explicar este território e tradições postos assim ao léu, genuínos, são os sábios e os ilustres os menos indicados.

O teu nome, cidade, mulher, quer-se pronunciado sem veludos de linguagem, sem tiques aperaltados. O teu nome quer-se sabido de cor e salteado por gente simples catando a luz do sol e por todos os cúmplices, ricos e pobres, de nostalgias, crepúsculos, memórias, valores firmes como pedra dura e amanhãs apregoados em dizeres comuns.

A ti, cidade, mulher, não te troco, não te renego e te prometo: de ti não deserto. Pago o preço de ser teu, de seres minha, de querer morar no teu corpo e onde o rio faz a curvinha. Cidade, mulher, queria fazer-te um filho. E deixar que cresças nele como um dia te fiz minha. Cidade, amor, amante, amiga: deixa-me envelhecer contigo até já não ser dia!

Porto, um dia de Junho de 2006

M.C.

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