A devida…na VISÃO – X

País a pontapé

A mentalidade submissa. Os dias engarrafados, anestesiados.

O presente em zapping, sem comando, visto do sofá.

O futuro daqui a nada, mas pré-pago, panorâmico e digital.

A liberdade de sermos apenas o que quiserem fazer de nós.

Financiaram-nos o que não queríamos nem precisávamos, a juros bonificados.

Depois, em suaves prestações ou pagando mais tarde. No fim de contas, levam-nos a pele, os ossos, os sonhos, como sinal. E uma vida inteira para amortizar.

Foi lá atrás que deixamos de ser cidadãos para passarmos a clientes.

Fazemos downloads das nossas ansiedades e vamos para a cama com o messenger.

Taxaram-nos a esperança, o horizonte, o hoje para financiar o amanhã.

Disseram-nos que, em última instância, o Estado regularia, velaria por nós. Só não nos disseram que o Estado já era também cliente, jogava na bolsa e no «off-shore», tinha vícios caros e amantes no privado. Esconderam-nos que o Estado já nem sequer regula bem. E, às vezes, não regula de todo.

Não sei quando começaram a falar-nos de livre iniciativa, economia de mercado, liberalização disto e privatização daquilo. Tudo em nosso nome, iríamos perceber a sensação. A concorrência em benefício do consumidor, mais opções, melhor qualidade. Não nos disseram o que queriam em troca. Não nos disseram quanto custava. Não perguntamos. E agora descobrimos que o seguro não cobre todos os riscos.

Aqui, despede-se e «reestrutura-se» em almoços de camarão da costa, moet & chandon e jaguar à porta. Congelam-se ordenados entre baldes de gelo e um «15 anos.» Fumam-se quatro salários mínimos em charutos, por mês, a discorrer sobre a crise e as dificuldades das empresas.

Original ou réplica, somos o que vestimos.

Somos igualmente o que viajamos, o que compramos, o que almoçamos, o que vemos. Não sei quando deixamos de ser simplesmente…humanos.

Votamos pouco e mal, mas elegemos convictamente marcas e anúncios, estamos decididos a ser a geração Nike ou Adidas e a referendar a Gant ou a Armani.

Aceitamos ficar sem tecto e almoço, mas nunca sem rede.

Vamos a Cancun, Natal e Varadero para ser vistos e mostrar que lá estivemos.

Por vezes, jantamos comida de design porque é «moda» e estamos na moda porque é «in».

Pagamos e bebemos água como se fosse Barca Velha.

Buscamos o caminho mais curto para a existência e o equilíbrio emocional no spa, no pilates, na auto-ajuda e no quem nos acuda. Ao farmacêutico, ao psiquiatra e ao personal trainer só falta serem amigos lá de casa.

Endividamo-nos de ilusões, maquilhamos as feridas e angústias, retocamos a ideia que temos de nós e envelhecemos alegremente: tristes e infelizes, mas mais novos, saudáveis e atléticos graças à cirurgia estética e ao ginásio, IVA incluído.

Somos o zero à esquerda das decisões, a estatística gorda da fome, da pobreza, da desigualdade, a escanzelada percentagem de decência e dignidade. Somos, como numa cantiga, «intelectuais de bronzeado» e «elite de supermercado». Somos tema de conferências e colóquios, objecto de sondagens e estudos. Estamos nos resultados, mas nunca entramos na equação. Subtraem-nos nos lucros e fazem-nos cúmplices de prejuízos.

Mas, felizmente, nem tudo está perdido.

Por estes dias, vamos pôr uma bandeirinha na varanda, o disco do Roberto e do Tony, o cachecol no pescoço e comprar «sem juros, pague depois» aquele plasma muito em conta para ver o Ronaldo em grande e os filmes dos pequenos. Gritaremos até às entranhas pela pátria, pela finta, pelo cruzamento, pelo remate. Faltaremos ao trabalho, à família, aos amantes, à «manif» e aos compromissos. Em Junho seremos todos portugueses, todos iguais, todos diferentes: ninguém cobrará dívidas, até porque ninguém as pagaria. Estaremos todos por Portugal em harmonia fiscal. Chamaremos Scolari de nosso, abriremos conta «no banco de sempre» e correremos atrás do autocarro da Galp e da selecção como no anúncio da televisão porque, entretanto, até boicotamos a gasolina.

De festinha em festança, talvez a sorte nos sorria a pontapé ou à cabeçada.
Quando regressarmos ao que efectivamente somos, estaremos, de novo, orgulhosamente sós. Sempre entre futebol e Fátima, entre um golo e uma oração. E de regresso ao velho fado. 

Essas coisas simples…

Há um ano regressava de três dias em Moscovo. Intensos. Descobri que as memórias de infância, dos Jogos Olímpicos e dos mundiais de futebol, um imaginário, certas partilhas e momentos, podem resumir-se a uma música que gravámos no nosso disco duro. Sons que por vezes nos assaltam, de forma inesperada, a pedir cumplicidade.

A nossa vida pode ser resumida numa banda sonora. Diria muito do que somos, do que nos formatou, das escolhas que fizemos ou fizeram por nós, para o bem e para o mal. Por muitas voltas que a História dê, só a nossa biografia nos interessa. E essa não muda ao ritmo dos países, dos sobressaltos do tempo e dos povos. Não há como fugir: a vida escolhe-nos muito antes de podermos escolher. Ou fazer nossas as escolhas dos outros. Não se lamenta. Assume-se e segue-se. O que fica é essa sensação de eternidade, feita quase sempre de coisas simples, poucas. Palavras ouvidas às cavalitas, um dar de mãos, talvez um hino

Jornalismo e fotojornalismo

Boa tempestade de ideias na Fundação da Juventude. A Semana de Fotografia da Escola Superior Artística do Porto (ESAP) (boa, Ângela!) foi pretexto para uma conversa sobre o fotojornalismo em Portugal. Juntaram-se amigos e conhecidos: os fotojornalistas Paulo Duarte (freelancer, colaborador da AFP), Paulo Pimenta (do Público), Fernando Veludo (da agência de jornalismo NFactos) e eu, o «alien» da coisa. A audiência, em parte constituída por estudantes da ESAP, não deixou que pusessemos pé em ramo verde: questionou anseios, práticas, e quis respostas concretas. Gostei especialmente da intervenção do Veludo, fotojornalista de referência. E da minha preferência. Algumas regras básicas para o exercício da profissão, segundo ele: disponibilidade total, não interferir na realidade, procurar outros pontos de vista, evitar o sensacionalismo, tentar estar próximo das pessoas e dos assuntos que lhes dizem respeito. Não considerar a ética dispensável em caso algum. Ah! E nunca esquecer a câmara. Levei a minha intervenção escrita (quem não sabe mais, organiza-se antes). Juntei reflexões e questionamentos, testei a minha opinião junto de amigos próximos e distantes (obrigado Zaclis!). Deixo aqui o que disse. Não porque considere especialmente brilhante ou certeiro. Faço-o por honestidade e lealdade ao que penso. E para não me esquecer nunca do que defendo.

Fotojornalismo em Portugal – Porto, 28 de Maio de 2008 – ESAP

 

 

Em Julho e Agosto de 1936, o jornalista James Agee e o repórter-fotográfico Walker Evans conviveram com três famílias de camponeses dos campos de algodão do Sul dos Estados Unidos.

 

 

A ideia era relatar as condições de vida – absolutamente miseráveis – desses trabalhadores do campo no tempo da Grande Depressão. O texto e as fotografias foram depois recusados pela revista que pediu a reportagem, a Fortune. Não houve artigo, mas nasceu um livro: «Elogiemos agora os homens famosos».

 

 

A reportagem foi considerada um dos trabalhos mais importantes e influentes do século XX, frequentemente citado como um dos expoentes do jornalismo, praticado em nome de uma consciência social.

 

 

O livro honra, logo nas primeiras páginas, o fotojornalismo. Antes de qualquer prólogo, é de fotografias que se ocupam as mais de trinta páginas iniciais do livro. Sem legendas porque a verdade está lá toda.

 

 

James Agee chama a esta reportagem, a esta obra, «documento fotográfico e verbal».

 

 

Segundo ele, os instrumentos imediatos do documento são dois: «a câmara fixa e a palavra impressa». O instrumento predominante é a consciência humana individual e anti-autoritária. E esclarece: «As fotografias não são ilustrativas. Elas e o texto são iguais entre si, mutuamente independentes e totalmente colaborantes». Em nome da história e do futuro da fotografia, atesta Agee, assumir esse risco era uma atitude ética e necessária. Até porque esta reportagem, escreveu, é um «esforço de actualidade humana em que o leitor não está menos implicado que os autores e aqueles sobre quem eles falam».

 

 

Maio de 2008. O futuro é já hoje. Mas que futuro?

 

 

Texto escrito e imagem têm toda uma história de vida em comum, com altos e baixos é certo, mas em comum. Também em Portugal, a união de facto, com respeito pela independência de cada área criativa, foi funcionando.

 

 

Pode dizer-se que o «casal» presenciou, com profundidade e visão panorâmica, ao longo de décadas, várias das feridas e alegrias do mundo, tendo sobre elas um olhar e uma expressão própria, única. A relação entre narrativa e discurso visual teve dias épicos, respeitando um jornalismo íntegro, digno, que honra quem o fez e não desmerece quem o partilhou.

 

 

Mas houve também amuos, desconcertos, muitas faltas de cumplicidade nesta relação.

 

 

Em diversos momentos da história do jornalismo, sobretudo mais recentes, parece que texto e imagem caminharam alegre e inconscientemente para uma separação, numa atitude umbiguista das partes, pressionada e incentivada por várias causas internas e externas às redacções. E contra mim falo, porque todos, uma vez ou outra, fomos e somos cúmplices das opções do caminho.

 

 

Na verdade, o colete-de -forças do tempo, do espaço, do mercado e desse eufemismo que dá pelo nome de «sinergias de grupo», condicionaram sem piedade a expressão da palavra e de um olhar, atirando-o demasiadas vezes para os braços da ligeireza, da moda, da pose, da produção, da superficialidade e desse fenómeno típico da actualidade sempre apressada e ligeira: o «giro».

 

 

Hoje, tudo se pretende ser giro.

 

 

Mesmo a mais ignóbil das situações humanas, tem de ser retratada a partir de um ângulo «giro». Instalou-se a confusão entre emoção e informação. A concentração dos «media» e as preocupações imediatistas atropelam valores profissionais e impedem, muitas vezes, que o olhar dos jornalistas, escritor e fotógrafo, contraste situações, reflicta pontos de vista únicos, pessoais, íntegros, capazes de produzir uma narrativa original e fazer frente ao McJornalismo e aos «media» de conteúdos requentados.

 

 

Hoje, pede-se que saibamos tudo sobre digitalização de imagens e sons, câmaras fotográficas e vídeo, podcast e coisas que tais. Só assim, dizem alguns, teremos os jornalistas tecnicamente preparados para enfrentar os novos tempos.

 

 

Ninguém de bom senso ousará questionar as vantagens dessa evolução tecnológica. É necessária e, ainda que não fosse, é inevitável. Mas não será certamente por ingenuidade ou inocência que alguns pretendem, cada vez com mais insistência, redefinir as características e responsabilidades da nossa profissão, dando-lhe um nome adequado aos novos tempos, cada vez mais preocupados com a rapidez informativa – e de lucro, já agora. Começam a chamar-nos então «produtores de conteúdos».

 

 

Neste cenário, convém não lavar as mãos nem atirar a carga apenas para os jovens, muitas vezes vivendo situações precárias e de grande violência psicológica. Se assim sucede é também porque alguns de nós serviram de exemplo. Mau exemplo. E porque fomos os primeiros a usar o cargo e as funções em benefício, apenas, da nossa estabilidade e segurança. Esquecendo, pois, um ensinamento básico: quanto maior o cargo, maior a responsabilidade. Perante os outros, bem entendido.

 

 

Vivemos um tempo em que é promovido o imediatismo, em todas as suas vertentes. E esse imediatismo, como facilmente se percebe, é contrário à reflexão, assimilação e profundidade. Não confundir com a necessidade de captar o instante que, por vezes, define uma história.

 

 

Muitos disseram e escreveram que a luta das ideologias chegou ao fim. Anda aí, triunfante, a ideologia que promove o escândalo, o folhetim, a lamechice, a opinião indignada, bem pensante, politicamente correcta e sentimentalona. E que incita o cidadão a tornar-se, ele próprio, jornalista, só porque munido de telemóvel, câmara e carradas de protagonismo e insensatez.

 

 

O trabalho está orientado para a exibição. Tal como a religião e a política, nas palavras de Jose Luis Cebrian, fundador do jornal El Pais. A informação é puramente consumo. Ora, consumo de informação não é o mesmo que entender a informação como alimento básico da nossa formação cívica. Podemos consumir hambúrgueres e pizzas todos os dias sem que isso signifique exactamente estarmos bem alimentados. Escrever e fotografar sempre o mesmo, ainda que com muitas páginas ao dispor, não produz melhor conhecimento.

 

 

Não é sequer a Internet, a evolução tecnológica, a manipulação cobarde das imagens que representa uma ameaça ao jornalismo e aos jornalistas.

 

 

Quero crer que nenhuma técnica, nenhum acelerar da tecnologia, substitui as condições essenciais para se ser bom jornalista: vocação, talento, capacidade de relacionamento com o outro, responsabilidade social, criatividade, memória, bons livros, bons arquivos, cheiro da rua, carácter e humanidade. Coisas que não se ensinam nas escolas nem se aprendem nas faculdades hoje ditas de Ciências da Comunicação. E que sobrevivem à evolução tecnológica. Ou melhor, são o melhor trunfo para andar de mão dada com ela.

 

 

Discutir o presente e o futuro do fotojornalismo em Portugal é discutir o futuro do jornalismo, mas não quero proclamar aqui sentenças ou conclusões apressadas. Permitam-me, porém, que deixe alguns questionamentos, em jeito de provocação:

 

 

Está ou não o fotojornalismo a ceder ao primado da técnica em detrimento do domínio da linguagem fotográfica e jornalística?

 

 

O facto da geração do digital não ter mantido uma relação de cumplicidade com o laboratório e o papel prejudica a elaboração de um discurso ou de uma narrativa visual?

 

 

Quantos profissionais portugueses são hoje testemunhas de acontecimentos históricos ou enviados a conflitos internacionais? Perderam-se as narrativas do mundo com um olhar português?

 

 

Estamos a fazer a cobertura do mundo ou da nossa rua ou a informar sobre os «nossos» interesses políticos e empresariais no mundo?

 

 

O fotojornalismo – o jornalismo, no fundo – é hoje sinónimo de acomodação e medo de sair às ruas?

 

 

O jornalismo é um meio ou um fim? Estamos aqui para relatar e retratar as costuras da vida ou tratar da vidinha?

 

Com a junção dos jornais e revistas em grupos, com uma visão cada vez mais estreita dos acontecimentos e menos investimento nas narrativas de grande fôlego, que espaço resta para as histórias cruciais?

 

 

Como contrariar a linguagem burocrática dos jornais, de muitas notícias e temas, mas muito poucos pontos de vista?

 

 

Que futuro terão os fotojornalistas, intelectuais no sentido clássico, de saberes diferenciados, capazes de, como dizia Kundera, travar a cada dia e em cada página a luta da memória contra o esquecimento?

 

 

Há dias, um repórter-fotográfico habituado a zonas de conflito dizia: «As histórias que cobrimos são maiores do que nós, do que as nossas revistas e editores. É importante tratá-las com respeito e integridade pelo tema. O futuro do jornalismo está nas vossas mãos. Sigam os vossos corações, mesmo que estes se partam. Não desistam».

 

 

Nem tudo está perdido. A cada dia, surgem novos talentos, gente da geração digital aferrada a valores que não têm época porque são de sempre. Gente que não se transfigura, que não se prostitui e está disposta, mesmo na mais absoluta precariedade, a motivar os mais acomodados através de fartas transfusões de sonho, criatividade, empenho e dedicação. Gente que faz do jornalismo e do fotojornalismo causa.

 

 

Vicki Goldberg, repórter-fotográfica, disse: «Tudo o que o fotojornalismo capta faz parte das nossas vidas e não tem necessariamente de ser arte. Basta que seja verdade».

 

 

Edward Murrow, o histórico jornalista da CBS que enfrentou o McCarthismo e foi retratado no filme de George Clooney, Good Night and Good Luck, dizia que «para progredir, é preciso olhar para atrás».

 

Volto, por isso, ao sul dos Estados Unidos, ao ano de 1936, e às palavras de James Agee: «A câmara parece-me, depois da consciência sem ajuda e sem armas, o instrumento central do nosso tempo; por isso sinto tanta cólera ante o seu mau uso, que estendeu uma corrupção da vista tão universal que só conheço umas 12 pessoas vivas em cujos olhos possa confiar tanto como os das crianças».

 

Da recuperação da confiança num olhar assim não depende apenas o futuro do jornalismo e do fotojornalismo. Disso depende também a sobrevivência da integridade que devemos aos nossos leitores como seres humanos. Se não cuidarmos do que lemos e vemos, também como leitores exigentes, estaremos a contribuir para que se cumpra, sem recurso, uma velha sentença do escritor Mário de Carvalho: «O jornalismo cão há-de merecer um mundo-cão».

(a foto é de Francisco Garrett)

A devida…na VISÃO – IX

A Seita

Eles rezam virados para o cacifo.

Benzem-se junto a um altar com uma réplica da Senhora de Caravaggio ou de Fátima, não sei bem.

Os minutos que antecedem os jogos incluem um «Avé Maria» ou um «Pai Nosso» no balneário. E frases tão estimulantes como «sabemos o que fazer em campo» e «vamos levar de vencida».

Onde antes havia alho, galinhas pretas e assombrações várias, Scolari introduziu o «treinamento», a estratégia e a motivação da «equipa de todos nós» à base de uma encenação típica de seita religiosa. A «Geração Scolari» só não paga dízimo. Pelo contrário, recebe.

A julgar pelas reportagens da SIC e pelo que vamos sabendo sobre os estágios da selecção, o treinador brasileiro de Portugal utiliza o mesmo tipo de discursos e estratagemas que seriam compreensíveis até por uma turma da 4ª classe. Os melhores são assim: tanto se fazem entender nas capelinhas como nos cenáculos. As intervenções de Scolari aos seus «filhos» – palavras dele – estão tricotadas a «coragem», lutas «até à última bola» e muito «sacrifício» no caminho da «consagração». As cenas de «corrente positiva» em que todos se abraçam e dão as mãos antecedem cada partida. As orações estão todas lá. Bem como o respeito pelo adversário e «pelos companheiros».

Não dispensemos, igualmente, as virtudes do óbvio. Quando Scolari diz «eles não têm mais pernas do que nós» é natural que se possa ouvir, quase de seguida, «vamos morrer por Portugal!». O óbvio, como é óbvio, pode ser extremamente motivador. E num quadro destes até Figo pôde dar ares de filósofo: «A constância traz o êxito», disse, uma vez, no intervalo de um treino.

De Scolari, «sargentão» no Brasil, ficou a fama de disciplinador. Por cá, pelos vistos, basta que ele seja o nosso pastor. Ainda não ganhámos nada, mas quem nega que já estivemos mais longe do céu?

(a caricatura é do artista Baptistão)

Caracas – III

Em Caracas, sítio de passagem obrigatória é a Universidade Central. O meu conceito de ensino, erguido entre pedra, vegetação selvagem e arte no espaço urbano mora ali. Raul Villanueva, talvez o maior arquitecto venezuelano, desenhou-a pensando no que ela é hoje: um espaço onde a arte qualifica a arquitectura e a panorâmica incita à criação. Um conceito plástico a pedir mente aberta. Apesar das rugas e da passagem do tempo, a universidade mantém-se respeitosa quanto baste para merecer o estatuto de Património da Humanidade que a Unesco lhe conferiu. Não tem preço poder atravessar os corredores com as salas de aula abertas literalmente para os jardins. Percorrer as bancas de livros, esticar a orelha para discussões panfletárias, comer uma arepa, pôr a conversa em dia com a Maria Alejandra, do Centro Para a Paz e nem dar pelo andar das horas. Sempre tive boas conversas na universidade, com vistas largas. Gente que discute o passado e o presente do País como se o futuro estivesse já ali, ao virar da esquina. Um dia na Universidade Central pode não sarar todas as dores de alma e pode até mostrar-nos as feridas abertas da Venezuela. Mas é um dos poucos lugares do mundo onde sinto que as palavras e as ideias têm um valor facial. O valor de quem dá a cara pelas suas convicções.

Caracas – II

Se um dia houver uma petição para que Aleixo Vieira seja o embaixador português em Caracas, eu assino por baixo. Natural da Madeira, ele já conta décadas de Venezuela. Director do Correio da Venezuela, o jornal da comunidade portuguesa, ele é o mais aproximado que existe de um ser humano excepcional. Incansável na defesa e promoção dos portugueses emigrados e luso-descendentes (até de quem não merecia tanto esforço), Aleixo é ainda um companheiro de todas as horas, alguém para quem palavras como solidariedade e amizade continuam cotadas na moeda antiga. Se as portas do Encontro de Gerações, organizado todos os anos no milionário e ostensivo Centro Português de Caracas, ainda se abrem a alguns portugueses menos afortunados e mais habituados a lidar com as agruras da existência, talvez o Aleixo tenha algo a ver com isso. Se um dia houver apenas uma réstia de humanidade no mundo, eu sei que o Aleixo guardará o bocado maior. Não para si, mas para os outros.