Arquivo de Junho, 2008

Portugal, 40 anos – I

Posted in devida comédia with tags on 30/06/2008 by Miguel

O português «é uma raça bem definida e constituída por vários grupos étnicos em que um, por superior, dirige, orienta e impulsiona».

Editorial de O SÉCULO – 10 de Junho de 1968

Este já encomendei…

Posted in devida comédia on 30/06/2008 by Miguel

…por razões que só o Daily Show conhece. E que Ambrose Bierce, jornalista e escritor satírico do século XIX, antecipou com uma frase lapidar: «A guerra foi a forma que Deus encontrou de ensinar geografia aos americanos». 

Do lado de lá…

Posted in devida comédia on 30/06/2008 by Miguel

Foi a Júlia, jornalista brasileira, quem primeiro me falou dele. Uma adoração contagiante que eu confirmei nos pequenos excertos pesquisados na Internet. Partilhei a devoção de ouvido com a minha querida amiga Zaclis, do outro lado do Atlântico. Ela registou. E hoje, pela mão amiga e afectuosa dela, chegou um bonito embrulho, a fazer lembrar papel de velha mercearia. Lá dentro, «Fama e Anonimato», de Gay Talese. E pitadas de carinho em cada página deste livro de um dos grandes escritores de não-ficção norte-americanos, a quem chamaram o «Picasso» do jornalismo. Aqui vai o início de um dos capítulos do livro, na da edição brasileira. E depois digam lá o que é que um tipo anda cá a fazer depois de ler quem escreve assim…

«Em Nova York há um passeador de cães profissional nas imediações das East Seventies Streets, um psicólogo de gatos no número 141 da Lexington Avenue e uma senhora baixinha que devide seu apartamento na Forty-Sixth Street com dois pombos que têm pernas de pau. Em Sutton Place, um homem pesca enguias de sua janela no décimo oitavo andar, e no número 880 da Fifth Avenue há uma mulher contratada pela Sociedade Norte-Americana de Pesquisa Psíquica para investigar fantasmas e outros fenómenos paranormais. Em várias partes da cidade existem clubes de gente que não bate bem da bola e de gente que está pela bola sete, e todo o ano as prostitutas enchem a bola dos proxenetas e promovem um Baile dos Cafetões num hotel do centro da cidade. Acontecem coisas em Nova York que provavelmente não acontecem em nenhum lugar…»

Afurada, Gaia, São Pedro

Posted in devida comédia on 29/06/2008 by Miguel

Festa para mim é isto: o povo nas ruas, a sardinha assada na soleira da porta, rojões no pão – com cominhos! - em doses generosas, as iscas de bacalhau acabadas de fritar, as papas de sarrabulho a borbulhar, a cerveja fresquinha, o verde trepador. O tu para cá e para lá. A pronúncia cerrada, o calão puxado pelo gargomilo. Velhotas em volta dos tachos, contas de cabeça. Outras de luto, em cadeirinhas de praia vendo quem passa. As casas de portas escancaradas a deixar ver altares, fotos dos netos e do clube do coração, emolduradas. Salas, cozinhas, que são tratados de antropologia. Homens de bigode farfalhudo com barriga farta, forrada de listas azuis-e-brancas, claro, e emblema ao peito! Os restaurantes de bem receber, de gente a servir às mesas, dedicada, em família, sem tempo para um «ai» desde as 9 da manhã até a noite pedir colo à madrugada. Uma faina dentro da faina. A inevitável zaragata por causa de um rabo de saias ou um caneco para lá das contas. Música popular, as Doce em versão roufenha de de um tempo gasto – «Fecha a porta, apaga à luz, vem deitar-te a meu lado…» – vozearia em cada esquina, gritaria de catraios. O Porto em fundo, pedindo que lhe estenda o olhar. O fogo de artifício, enfim! É bom sentir-me daqui. Destes dias, destas noites rapioqueiras, destas margens do mesmo rio que desagua, sempre, no coração.

A seguir…

Posted in devida comédia on 27/06/2008 by Miguel

Esta manhã, o Parlamento Basco aprovou um projecto-de-lei para levar a cabo uma consulta popular no próximo dia 20 de Outubro sobre a eventual soberania do País Basco. Presumindo que a proposta não será rejeitada em «casa», as instituições bascas têm ainda um braço-de-ferro pela frente no território nacional: o governo espanhol de Zapatero rejeita a consulta e deverá requerer, em breve, a inconstitucionalidade da mesma. Haverá ainda muitas batalhas legais a travar, mas se a cidadania basca chegar a pronunciar-se, terá de responder a duas perguntas:

1 – Concorda apoiar um final dialogado da violência se a ETA manifestar, previamente, de forma inequívoca, a sua vontade de pôr fim à mesma de uma vez e para sempre?

2 – Concorda que os partidos bascos, sem exclusões, iniciem um processo de negociação para alcançar um acordo democrático sobre o exercício do direito a decidir do povo basco e que ese acordo seja submetido a referendo antes do final de 2010?

Parece simples, mas não é. Mas quem, com bom senso, negará que é um caminho para a paz? Acusado de dividir a Espanha, Ibarretxe, líder do governo basco, reagiu: «Não divide quem pergunta, mas quem proibe consultar». Ainda é cedo. Muito cedo. Mas hoje pode ter sido dado o primeiro passo para que a Espanha, tal qual a conhecemos, deixe de existir. E isso, mais do que pensamos, diz-nos muito.

A foto é de Joana Boavida (em San Sebastian)

Talvez…não faltar

Posted in devida comédia on 27/06/2008 by Miguel

Morreu o «meu velho»

Posted in devida comédia on 26/06/2008 by Miguel

Morreu Albert Cossery. A escrita refractária perdeu o mais livre dos seus representantes. Lê-lo serve para perceber que, por muitos anos que vivamos, já estavamos mortos antes dele. Tudo o que escreveria e citaria sobre «o meu velho» está aqui. Neste momento, só me apetece lembrar Torga: «O mal de quem apaga as estrelas é não se lembrar de que não é com candeias que se ilumina a vida».

Da minha gaveta-IV

Posted in devida comédia with tags on 26/06/2008 by Miguel

Estes tempos

Estes tempos precisam de um canto de intervenção.

Palavras de parede, sorrisos no escuro, um peito onde tombar quando nos amarrotamos no caminho.

Estes tempos precisam dos dedos que completem as nossas reticências. Sem rendição.

Escrevendo novos capítulos a cada interrogação.

Estes tempos precisam de Nós, seres maíusculos.

Ainda e sempre capazes de sonhar,

sem diminuitivos.

Estes tempos precisam de soltar as frases amordaçadas

e de uma nova gramática do coração. 

Estes tempos precisam de ser reescritos.

À mão.   

M.C.

A foto é de Bubble

Já se bebia qualquer coisa…

Posted in devida comédia on 24/06/2008 by Miguel

Conheci-os finalmente. São uma confraria, mas parecem uma seita. Bem intencionada, claro. Ou não estivessem a águas. Como esperava, falam de água como se falassem de um Barca Velha. Defendem as águas de mesa portuguesas e o direito de reclamar uma Carta de Águas num restaurante como qualquer Carta de Vinhos. Dizem, sem pingo de assombração, que há uma água indicada para acompanhar um cabrito e outra mais adequada a uma feijoada. Fiquei a saber que a mais antiga, engarrafada, é romena.

As águas não são todas iguais e isto não inclui o segmento borbulhas. Nisso posso concordar, sem manchar ainda mais a reputação. Uma Vitalis ou Carvalhelhos pesam no estômago como um tijolo. Uma Glaciar parece água da chuva. Fiz a prova cega, sei do que falo. Mandaram-me bochechar e saí de lá com cara de entendido. E seis copos no bucho, uma irresponsabilidade. Ao jantar, serviram Luso. Não havia outra marca. Depois do que tinha aprendido durante quase duas horas, exigi respeito. «Só tem esta água?», perguntei ao empregado. Olhou para mim com ar desconfiado, como se estivesse a desafiá-lo para negócios escuros. «Sim», respondeu, lacónico. Apeteceu-me pedir o livro de reclamações, mas fiz-me ao vinho. Depois de saber que a minha água preferida a seguir à da torneira – Fastio - «é de quarta divisão», tinha de afogar as mágoas. 

O que você faria…

Posted in devida comédia on 20/06/2008 by Miguel

se só te restasse esse dia? O último dia pode ser sempre. Para sempre. Paulinho Moska para vocês. Porque uma «metamorfose ambulante» postada nas redondezas me trouxe esta canção-poema à memória.

Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?

Ia manter sua agenda
De almoço, hora, apatia?
Ou esperar os seus amigos
Na sua sala vazia?

Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?

Corria pr’um shopping center
Ou para uma academia?
Pra se esquecer que não dá tempo
Pro tempo que já se perdia?

Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?

Andava pelado na chuva?
Corria no meio da rua?
Entrava de roupa no mar?
Trepava sem camisinha?

Meu amor
O que você faria?
O que você faria?

Abria a porta do hospício?
Trancava a da delegacia?
Dinamitava o meu carro?
Parava o tráfego e ria?

Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?

Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria…