Para chegar a San Lucar do Guadiana há um pequeno barco que parte à hora que o freguês quiser, do cais de Alcoutim, excepto noite dentro. Um euro e eis-nos, em menos de cinco minutos, do lado de lá. Quando chegamos, uma hora já se foi, por causa dos fusos horários. Nada que não se recupere, na volta.
San Lucar do Guadiana é uma povoação riberinha da província de Huelva. Ali vivem umas 400 pessoas em casinhas de paredes brancas, algumas com encantadoras varandas, e ruelas carregadas de flores. É uma vila típica de postal. San Lucar é, de resto, óptima para fotografias. E rural, ainda. Ouvem-se galinhas e cabras e há montes a perder de vista. Escutam-se os rádios ao fundo das cozinhas e das salas, pelas janelas e portas abertas. Enquanto isso, os gatos espalmam-se ao sol.
Primeira má notícia: San Lucar não tem um quiosque, alma alguma vende jornais. «Periodicos?! No, no hay!», diz-me um velhote como se estranhasse o interesse. Uma espécie de loja cidadão tem uns cinco computadores ligados leeeeeeeentamente à Internet. Todos ocupados com miudagem entretida na jogatina. Para aceder, tenho de preencher uma ficha onde até o número de identificação fiscal me pedem. Recuso, mas concedo no resto. Faço o habitual: morada e telefones profissionais, nome incompleto. Sou registado no ficheiro interno. Pelos vistos, qualquer turista de mochila às costas e máquina fotográfica ao ombro, com ar desmazelado, pode ser um potencial terrorista.
Quando cheguei ao cais, tinha pedido ao barqueiro algarvio que me fosse buscar dali a três horas. Percebi ao fim de uma hora que era um exagero. Almocei. Havia pulpo a la gallega, dizia a ementa. Não deve ser o mesmo que me serviram, elástico o suficiente para atingir os mínimos olímpicos. A cerveja estava mais para lá do que para cá e a cara da serventia não entusiasmou. Paguei e andei. Percebi, por cartazes e afins, que a terra até é bem disposta e foliona. E até a petanca (um jogo a pés juntos, com bolas metálicas, semelhante à malha) tem hora e dia marcados. Mas quando avistei o barco na volta, respirei fundo. É verdade que a Alcoutim não chega o Público e qualquer garrafa de água de litro e meio custa um euro, se não estiver tipo sopa. Mas tem-se uma bela vista sobre San Lucar, lá isso tem…







