Arquivo de Julho, 2008

San Lucar

Posted in devida comédia with tags on 25/07/2008 by Miguel

Para chegar a San Lucar do Guadiana há um pequeno barco que parte à hora que o freguês quiser, do cais de Alcoutim, excepto noite dentro. Um euro e eis-nos, em menos de cinco minutos, do lado de lá. Quando chegamos, uma hora já se foi, por causa dos fusos horários. Nada que não se recupere, na volta.

San Lucar do Guadiana é uma povoação riberinha da província de Huelva. Ali vivem umas 400 pessoas em casinhas de paredes brancas, algumas com encantadoras varandas, e ruelas carregadas de flores. É uma vila típica de postal. San Lucar é, de resto, óptima para fotografias. E rural, ainda. Ouvem-se galinhas e cabras e há montes a perder de vista. Escutam-se os rádios ao fundo das cozinhas e das salas, pelas janelas e portas abertas. Enquanto isso, os gatos espalmam-se ao sol.

Primeira má notícia: San Lucar não tem um quiosque, alma alguma vende jornais. «Periodicos?! No, no hay!», diz-me um velhote como se estranhasse o interesse. Uma espécie de loja cidadão tem uns cinco computadores ligados leeeeeeeentamente à Internet. Todos ocupados com miudagem entretida na jogatina. Para aceder, tenho de preencher uma ficha onde até o número de identificação fiscal me pedem. Recuso, mas concedo no resto. Faço o habitual: morada e telefones profissionais, nome incompleto. Sou registado no ficheiro interno. Pelos vistos, qualquer turista de mochila às costas e máquina fotográfica ao ombro, com ar desmazelado, pode ser um potencial terrorista.

Quando cheguei ao cais, tinha pedido ao barqueiro algarvio que me fosse buscar dali a três horas. Percebi ao fim de uma hora que era um exagero. Almocei. Havia pulpo a la gallega, dizia a ementa. Não deve ser o mesmo que me serviram, elástico o suficiente para atingir os mínimos olímpicos. A cerveja estava mais para lá do que para cá e a cara da serventia não entusiasmou. Paguei e andei. Percebi, por cartazes e afins, que a terra até é bem disposta e foliona. E até a petanca (um jogo a pés juntos, com bolas metálicas, semelhante à malha) tem hora e dia marcados. Mas quando avistei o barco na volta, respirei fundo. É verdade que a Alcoutim não chega o Público e qualquer garrafa de água de litro e meio custa um euro, se não estiver tipo sopa. Mas tem-se uma bela vista sobre San Lucar, lá isso tem…

Lido

Posted in devida comédia on 23/07/2008 by Miguel

Acabei Fama e Anonimato, de Gay Talese (Companhia das Letras, apenas disponível por importação). Um dos livros da minha vida. E que também deveria ser da nossa, jornalistas (Obrigado Júlia, obrigado Zaclis). Para muitos, Talese, talvez não seja deste tempo. É, sempre foi, um jornalista de «sujar os sapatos», avesso ao gravador, esse formatador monocórdico de palavras e personalidades, escritor apaixonado pelas histórias e vidas das figuras anónimas das nossas vidas e também pelo lado não revelado pelos holofotes de algumas figuras públicas. Talese não teria espaço, nem tempo, nem dinheiro da maioria das publicações regulares dos nossos dias para escrever as reportagens que publicou ao longo do seu percurso profissional.

Um dos seus artigos mais notáveis – um perfil de Frank Sinatra surgido do falhanço de uma entrevista com o próprio – teve 55 páginas. Foi escrito para a Esquire, que o republicou em 2003 como encarte por considerá-lo o melhor da revista em 70 anos de vida. Hoje, quem o publicaria? Eu desafio, à confiança: quem não o leria? Escreve Humberto Verneck, no posfácio da edição brasileira: «Não há, no que escreve Gay Talese, nada que não tenha sido pinçado da realidade e exaustivamente checado e conferido antes de baixar ao papel. É jornalismo. Mas não o jornalismo usual, predominante, esse em que o repórter, em nome da imprescindível busca da objectividade, se sente desobrigado de servir ao leitor mais que uma pilha de informações descarnadas – como se fosse isso a realidade. Como se a informação devesse ser, goela abaixo do leitor, uma espécie de pílula para astronauta, que nutre sem a obrigação de ser palatável. Como se, provindos da mesma raiz latina, saber e sabor não pudessem andar juntos».

Hoje, confinados ao fundo das redacções, ao computador, ao fermento industrial da internet, sem cheiro de rua nem olhar desviante, que jornalismo faremos, que respeito ainda teremos para com os leitores, esses mesmos, que, como o próprio nome indica…gostam de ler uma boa reportagem, uma boa história, tenha ela duas ou 55 páginas? Estamos a fazer cada vez mais jornais e revistas para pessoas que têm uma relação acessória com as publicações. E um dia talvez acabemos a escrever para quem, efectivamente, não lê. Munidos de nada e coisa nenhuma.

Tá mau, o negócio…

Posted in devida comédia on 22/07/2008 by Miguel

Da minha gaveta – VI

Posted in devida comédia with tags on 21/07/2008 by Miguel

Alentejo

Come-se um pão pachorrento, lento, de cozeduras sábias. Como o tempo. O miolo dos dias é branco, cal, sal de um sol nunca coado, luz e lume caíndo sobre vidas, escritas côdea a côdea. De dia, o rio tem o vagar das gentes. De noite, é gota de água na vida dura, mas sempre servido em fio de azeite, na mesa pura. As palavras convidam como uma porta aberta. A casa, somos todos. Habitamo-la em conversas e trocamos receitas para dias em que não precisemos de pensar se somos felizes.

MC

A foto é de Ana Cristina Diogo

Alentejo – III

Posted in devida comédia with tags on 20/07/2008 by Miguel

Quando era míúdo e os professores pediam uma redacção de tema livre, invariavelmente ia parar aos tubarões. Para mim, havia sempre um pretexto para inventar uma aventura que metesse tubarões, mas sem os demonizar como faziam alguns filmes. Naquela época, do «Tubarão» de Spielberg ao «Tubarão do Pacífico», houve de tudo, de grande e baixo custo. Mas sem custos para a minha devoção. Não sei porquê, o bicharoco fascina-me (já agora, aproveito para dizer que me sinto discriminado pelo facto de não poder dormir no Oceanário, em Lisboa, «com» os tubarões….porque sou adulto! Tenho dito! ) Felizmente, porém, até no Alentejo descobri tubarões. E assim, graças a uma exposição de desenhos das crianças do agrupamento de escolas de Mértola, as minhas vistinhas não mergulharam em seco.

Alentejo – II

Posted in devida comédia with tags on 17/07/2008 by Miguel

Pensamento: Se as bifanas fossem todas como as do Alentejo, a vida eram…duas. E o céu viria com queijo derretido.

A foto é de Rui Jesus

Alentejo – I

Posted in devida comédia with tags on 15/07/2008 by Miguel

A terra ardendo, uma varanda para o Guadiana, o tempo que corre mansamente, estas gentes com tempo para tudo e simpatia genuína, nunca para a troca. «Caso se perca ou não tenha autocarro, telefone. Vou buscá-lo a qualquer lado», diz a senhora Joana. Recebem-nos assim, mãos estendidas, sorriso dado, conversa pachorrenta, pão que ainda é pão. Estou em «casa». Com dias a valerem o dobro. E horários e carreiras adaptados a seres humanos que nunca correm e sempre se atrasam.

A foto é de Nuno Manuel Baptista

Discos perdidos – I

Posted in devida comédia with tags on 11/07/2008 by Miguel

IZHAR COHEN & ALPHABETAA-Ba-ni-bi

Esta foi a canção de Israel que ganhou o Festival Eurovisão de 1978. Apreciem o penteado e o movimento de ancas, um must! Ainda ontem cantava isto e já foram 30 anos para o galheiro, essa é que é essa…

Descoberta…

Posted in devida comédia on 11/07/2008 by Miguel

BEIRUT – Elephant Gun

Da minha gaveta – V

Posted in devida comédia with tags on 09/07/2008 by Miguel

Escreviver

 

Estico a preguiça, preguiço o sentimento. Faça chuva ou faça vento, ponho a palavra ao relento. Se a frase encolhe, lamento. Se a ideia foge, contento.

Na métrica, sou esquivo. Na ironia, me estatelo. O tecto é por onde começo, a traço rude e camartelo.

Mora em mim um tonto que transborda, um leigo de engenharias, um arquitecto de desertos. Desalojo a frase feita, busco abrigo em desacertos.

Na casa que me habita, haverá páginas desamparadas e até leituras que lamente.

À fome nunca morro, há sempre um verso que alimente. Nas danças da tua sopa ou no caldo do teu ventre.

Desconfortável nunca estou, posso sempre queimar o que sou. Existo fora do sítio e só assim me pareço com aquilo que conheço. Aprendi com um poeta: é no estranho dos meus versos que sei que me pertenço. 

Nesta lei das profundezas se aprende a amar os perigos.

A curva dos dias faz-se a cem, a palavra não se trava.

Se poetas vestem o que me falta e da vida faço palha, a palavra à luz do dia há-de arder como fornalha.

É, enfim, no bater cardíaco das frases que me salvo e me socorro.

Existo na folha branca para saber que nunca morro.

 

MC (a foto é de Ricardo Batista)