Não fui a tempo de conhecer Joaquim Castro Caldas. Quando, há mais de dez anos, comecei a frequentar as noites de poesia do Pinguim Café, que ele fez famosas muito tempo antes, o poeta já lá não estava. Mas tinha deixado a sua marca e as noites seguiam-se, umas às outras, na cave de pedra dura e luz morrendo, onde os cigarros já matavam lentamente, entrelaçando poemas. Falava-se de Joaquim Castro Caldas amiúde. Quem o conhecia de outras partilhas, lia-o uma e outra vez como se a ausência nunca tivesse lugar à mesa que era dele. Continuaram a convocar-se as mesmas palavras de Cesariny, Herberto, Mário Henrique Leiria, João Habitualmente e outros tantos. E dali a nada, lá vinha um poema de Joaquim Castro Caldas, como um copo de tinto erguido entre amigos. E eu, que não o conheci, tenho hoje também a sensação de ter estado ali com ele, a erguer poemas como um brinde à vida. Sem freios nem ataduras. Devo isso àqueles que sempre lhe beberam as palavras - o Amílcar e o Isaque, para citar dois - e o deram aos outros, em cada frase, fazendo-os cúmplices do poeta livre que aqui vos deixo.
Nunca se diz adeus
não dá melancolia, é uma saudade concreta, nada tem de nostalgia, ninguém se esquece de nada, a memória arrasta viagens, credos, angústias, glórias, a nossa fatia de vida lembra-se com força para marcar a fogo uma alegria tão inatingível e próxima como a fúria da água, tão distante como os passos numa órbita e a descoberta de uma vocação
não estamos por ordem, apenas somos diferentes, há lixo da época ouro hoje, deitam-se fora coisas discretas da altura que agora nos deixam a pele em arrepio, fica o pavio duro e rígido, nem na morte (ou muito menos na morte) alguém é abstracto e talvez até já nos esteja destinado o futuro
nada é impossível ou verosímil quando vem ter connosco sem pedir licença ou fazer cerimónia, e o amor, o amor, a essência mais perene, dura o que durar, para além de nós se lhe aprouver, somos apenas uma personagem – entre milhões – atentos ao momento exacto da nossa voz, somos líricos, somos tenazes, devemos louvar esse legado e bem querer-lhe
nenhuma palavra ou imagem é definitiva, nenhum testemunho desaparece, nenhum gesto passa por aqui em vão, o tempo tudo regista e só os homens não dão por isso. O mais frequente é o mundo alarve que nos cerca, alimenta e devora, não nos dar muita importância e um dia nos vir buscar quando já não estivermos à espera
nunca se diz adeus
Joaquim Castro Caldas 1956-2008 (o seu último livro, «Mágoa das Pedras», está editado pela Deriva Editores.








