Arquivo de Agosto, 2008

Na morte de um poeta…

Posted in devida comédia on 31/08/2008 by Miguel

Não fui a tempo de conhecer Joaquim Castro Caldas. Quando, há mais de dez anos, comecei a frequentar as noites de poesia do Pinguim Café, que ele fez famosas muito tempo antes, o poeta já lá não estava. Mas tinha deixado a sua marca e as noites seguiam-se, umas às outras, na cave de pedra dura e luz morrendo, onde os cigarros já matavam lentamente, entrelaçando poemas. Falava-se de Joaquim Castro Caldas amiúde. Quem o conhecia de outras partilhas, lia-o uma e outra vez como se a ausência nunca tivesse lugar à mesa que era dele. Continuaram a convocar-se as mesmas palavras de Cesariny, Herberto, Mário Henrique Leiria, João Habitualmente e outros tantos. E dali a nada, lá vinha um poema de Joaquim Castro Caldas, como um copo de tinto erguido entre amigos. E eu, que não o conheci, tenho hoje também a sensação de ter estado ali com ele, a erguer poemas como um brinde à vida. Sem freios nem ataduras. Devo isso àqueles que sempre lhe beberam as palavras - o Amílcar e o Isaque, para citar dois - e o deram aos outros, em cada frase, fazendo-os cúmplices do poeta livre que aqui vos deixo.

Nunca se diz adeus

não dá melancolia, é uma saudade concreta, nada tem de nostalgia, ninguém se esquece de nada, a memória arrasta viagens, credos, angústias, glórias, a nossa fatia de vida lembra-se com força para marcar a fogo uma alegria tão inatingível e próxima como a fúria da água, tão distante como os passos numa órbita e a descoberta de uma vocação

não estamos por ordem, apenas somos diferentes, há lixo da época ouro hoje, deitam-se fora coisas discretas da altura que agora nos deixam a pele em arrepio, fica o pavio duro e rígido, nem na morte (ou muito menos na morte) alguém é abstracto e talvez até já nos esteja destinado o futuro

nada é impossível ou verosímil quando vem ter connosco sem pedir licença ou fazer cerimónia, e o amor, o amor, a essência mais perene, dura o que durar, para além de nós se lhe aprouver, somos apenas uma personagem – entre milhões – atentos ao momento exacto da nossa voz, somos líricos, somos tenazes, devemos louvar esse legado e bem querer-lhe

nenhuma palavra ou imagem é definitiva, nenhum testemunho desaparece, nenhum gesto passa por aqui em vão, o tempo tudo regista e só os homens não dão por isso. O mais frequente é o mundo alarve que nos cerca, alimenta e devora, não nos dar muita importância e um dia nos vir buscar quando já não estivermos à espera

nunca se diz adeus

Joaquim Castro Caldas 1956-2008 (o seu último livro, «Mágoa das Pedras», está editado pela Deriva Editores.

Numa varanda perto…

Posted in devida comédia on 29/08/2008 by Miguel

Ele diz que tem a doença das vacas loucas. Mulherengo (quase grouchiano, diz que não consegue manter uma relação exclusiva se não puder andar com outras mulheres), republicano retinto e provocador (ele acha que a verdade só se encontra em dois sítios: em Deus e na Fox News), tem uma personalidade irritante e contagiante. Denny Crane (William Shatner, o antigo capitão Kirk d´«O Caminho das Estrelas») é o fundador da sociedade de advogados da série Boston Legal – por cá passa na Fox Crime. As conversas da varanda, entre ele e Alan Shore (James Spader), no final de cada episódio, deveriam ser coleccionáveis. Bem como as frases de Denny ao longo da série. Deixo duas, para abrir o apetite.

«Os valores são uma coisa que as elites inventaram para o povo não se poder divertir».

«Eu gosto de dizer que a maioria das pessoas começa a vida a mamar num peito. Se tivermos sorte, acabaremos os nossos dias a mamar num peito. Por isso, quem é contra as mamas é contra a vida». 

Da minha gaveta – VIII

Posted in devida comédia with tags on 24/08/2008 by Miguel

Casa, ainda e sempre

Podemos partir se nunca tivermos vontade de sair.

Volta-se sempre, mesmo não querendo.

O amor incondicional – a uma terra, a um lugar, a um coração – nunca é uma partida. É apenas esse sentimento que carregamos dentro. Longe ou perto.

Se somos de um sítio não é porque somos de um sítio.

É porque o sítio se fez nosso.

Se pertencemos, já está para lá de nós. Das nossas forças e fraquezas. Inscrito.

 

Podemos trocar as voltas à vida, sentir um aperto no peito.

Mas quando se pertence, nunca se parte.

Carregamos connosco as nossas histórias e biografias que não escolhemos. Nas rugas de um lugar inscrevemos as nossas. A casa é isso: nós, erguendo-nos livres, tecto e chão. E janelas sempre abertas para voar em direcção a todos os regressos. Sem partir o coração.

 

Nada disto é um código. Nada depende de uma vontade ou decisão.

Nada disso é nosso quando apenas somos o que amamos.

Nada disso tem perigo quando somos, simplesmente, a casa onde moramos.

 

M.C.

Foto de Patrícia Oliveira Carvalho

O outro Matrix

Posted in devida comédia on 22/08/2008 by Miguel

Da Venezuela (obrigada, querida Minerva), chega-me esta sugestão: o projecto Matrix. Um sítio interessante para, além de vários textos, desencantarmos documentários na íntegra sobre algumas das mais interessantes questões políticas, culturais e sociais do nosso tempo. Filmes com reflexões e olhares bem diferentes das realidades empacotadas de televisão. Afinal, há um Matrix que vale a pena…

A devida…na VISÃO – XIII

Posted in devida comédia with tags on 22/08/2008 by Miguel

Olímpicos

A grande atracção olímpica dos Jogos de Pequim não foi Nélson Évora. Nem sequer Vanessa Fernandes. Ele foi de ouro, ela levou a prata.

Mas Vicente de Moura teve lata.

O presidente do Comité Olímpico bateu todos os recordes do triplo-salto: prometeu o que não podia, anunciou a demissão quando tudo ardia e agora admite ficar onde está. Se não é ginástica para medalha olímpica, devia.

Vicente de Moura é muito português, já se viu. A verdade, porém, é que só o longo salto de Nelson Évora estancou a choradeira dos desgraçadinhos.

Portugal é assim: numa hora triste fado e melancolia, noutra Vasco da Gama de calções. O desporto, para o bem e para o mal, tem sido o nosso combustível. Quando ganhamos em grande, até a Economia parece ter alta. Quando perdemos estrondosamente, nem a Nossa Senhora nos vale.

Não é novidade: não somos de meios-termos. Fellini faria de nós bons filmes.

Vivemos amores de perdição, que tanto nos atam de coração como nos fazem em frangalhos. Acompanha-nos um destino sem remissão. Parafraseando o poeta, atiramos setas acima e abaixo da nossa altura.

Talvez seja melhor assim. Desejar a lua sem pensar no chão não nos defende de uma aterragem dolorosa, mas coloca-nos no patamar da transcendência. E é disso que precisamos quando, resignados e formatados, nos entregamos à dolorosa estatística da nossa condição.

A foto é de Jorge Vasconcelos

Sobressalto

Posted in devida comédia on 20/08/2008 by Miguel

Às vezes, um texto pode ter a melhor das intenções. E originar as consequências que, afinal, pretendemos evitar. Tenho andado a pensar nisso nos últimos dias. Mas, se calhar, esta profissão é mesmo isto: este desconforto permanente por nem sempre alcançarmos com as palavras o que escrevemos com o coração. Por muito doloroso que seja, ainda bem. Não acredito no exercício desta profissão como coisa meramente retemperadora, confortável ou utilitária, na qual podemos satisfazer-nos sendo apenas leais depositários das palavras dos outros sem nos sobressaltarmos com elas e por causa delas.

A foto é de Rui Jorge

Da minha gaveta – VII

Posted in devida comédia with tags on 12/08/2008 by Miguel

A rua

Todos os caminhos deviam desaguar na rua da poesia. Em dias de chuva, faria sol. Em dias de não, diríamos sim. Jogaríamos aos versos pelos passeios e haveria palavras no lugar dos números nas portas. Seríamos vizinhos das madrugadas, paredes-meias com céu limpo, amanhecido a tinto. O calendário seriam folhas rasgadas ao tempo com a ponta dos cravos. Abriríamos as janelas às canções que passam, com aceno de coração. Ao poeta, daríamos o nome da rua. Morada eterna da sua condição.

Cá por coisas…

Posted in devida comédia on 07/08/2008 by Miguel

É triste e trágico que seja assim. Mas cada vez mais me convenço que as vitórias do FC Porto são a única linguagem que uma certa Lisboa entende. E não puxem mais por mim.

A foto é de Celeste Silva

Como matar um jornal

Posted in devida comédia on 05/08/2008 by Miguel

Houve um tempo em que os proprietários dos jornais eram pessoas que não pensavam os jornais apenas como um negócio, embora o seu negócio não fosse a filantropia. Mas para eles, um jornal significava mais do que gerir uma empresa. Para alguns, o valor de mercado de um jornal era avaliado pelo seu capital humano, pelo prestígio, pelo papel assumido junto de uma comunidade ou de um território. E se prejuízo havia, ele pouco contava face à imagem e ao valor efectivo daquele jornal junto da sociedade. Ser dono do jornal não era, nesses tempos, sinónimo de margens de lucro indignas, «reestruturações» estapafúrdias, sinergias que escondem, tantas vezes, refinadas engenharias financeiras. Havia proprietários genuinamente preocupados com a qualidade, o prestígio e a independência do jornal. E, acima de tudo, a identidade de um projecto. Nisso, punham o pescoço. E raramente metiam o bedelho onde não eram chamados.

Nestes tempos selvagens, de idolatria do óbvio e da falta de escrúpulos – com o contributo militante de velhas e novas guardas, meros simpatizantes e trapezistas desta nobre profissão – os jornais ainda não se tornaram a voz do dono. Melhor seria, afinal. Pelo menos, talvez não se tivessem tornado o brinquedo do dono, útil ou descartável consoante as oscilações financeiras e políticas. Ou as necessidades da «lavandaria».

Sou a típica pessoa que levaria um jornal à falência em seis meses. Mas quero crer que a Internet e as novas tecnologias não representam ainda o epitáfio de uma Imprensa decente, digna e responsável em formato papel. A Imprensa precisa, também, de algo que vai rareando: proprietários que não queiram o sol e a lua, todos os anos e a todo o custo, e sejam capazes de olhar para além das modas e das tendências. Pensar que isto «é uma longa estrada», como diz Nelson Mandela, que nunca geriu jornais, mas foi capa da TIME para dar conselhos sobre liderança.

Por vezes, o mais esclarecido dos empresários de comunicação, frequentemente atafulhado de estudos e estatísticas dos gurus do costume, deixa de ver o óbvio e desprotege o melhor património que tem: bons jornalistas, bom jornalismo. Diz-se que as novas gerações estão fugir para a Internet e o mundo tecnológico. Não digo que tal argumento não mereça cuidada reflexão. Mas então, como explicar fenómenos tão avassaladores como os livros de Harry Potter?  Quero crer, se calhar, ingenuamente, que um jornal que não ceda à tentação do fácil, do acessório e da futilidade, que rejeite a tendência para se deixar contaminar pelo jornalismo televisivo (digest, de consumo rápido e mal informado), e seja capaz de «sujar os sapatos» ao nível do cidadão comum, tenderá a ser um bom jornal. E de sucesso. Os leitores têm de ser tratados como tal, não podem ser tratados como clientes. Devemos fazer jornais para leitores e não para consumidores.

Vem tudo isto a propósito daquele que foi um dos maiores diários portugueses, O Primeiro de Janeiro. Alvo, nos últimos largos anos, das mais inacreditáveis pantominas – para ser meigo - está, segundo rezam as crónicas, à beira do fim. A verdade, porém, é que o velhinho Janeiro talvez já estivesse mais morto do que vivo. Traído no seu historial e entregue à mais despudorada (indi)gestão empresarial.