Arquivo de Outubro, 2008

A devida…na VISÃO – XVII

Posted in devida comédia with tags on 29/10/2008 by Miguel

O mundo ao contrário

Autista ou artista? Alan Greenspan esteve dezoito anos no comando da Reserva Federal dos EUA, mas só agora percebeu que o mercado livre não pode ser deixado em rédea solta. «Falhei», disse ele, admitindo que deveria ter promovido a regulação e a vigilância do Estado para evitar a selva. Na comissão onde fez a estrondosa confissão, Greenspan não corou quando o acusaram de ter ignorado os avisos. Com a economia norte-americana e o mundo a pagarem o preço dos seus erros, desculpou-se. Sem mais. Há homens, que de tão infalíveis, só teriam lugar no Triunfo dos Porcos.

Marx. Os jornais de economia e finanças andam numa azáfama a ver quem cita mais vezes o velho Karl. Pelos vistos, encontraram-lhe virtudes que, para alguns, já tinham barbas. Ao contrário das acções de algumas empresas em bolsa, o Jornal de Negócios diz mesmo que a popularidade do autor do Manifesto Comunista está em alta. Pelos vistos, várias editoras já anunciaram uma subida de 300 por cento nas vendas d’O Capital. Na Alemanha, são os jovens quem mais compra a obra. Por cá, ainda não há notícias de tal procura, mas desconfio que alguns lobos se preparam para vestir à pressa a pele de cordeiros. Basta ler a defesa do papel do Estado feita por Sócrates na entrevista ao DN para perceber o que nos espera.

homem e a sua opus. Lembram-se de Paulo Teixeira Pinto? Não, não falo daquele senhor saído do Millenium BCP no meio de um escândalo de dimensões, digamos, inesperadas em gente aparentemente tão bem formada e formatada. Falo do outro Paulo Teixeira Pinto, que decidiu lançar uma editora, revelar a sua veia pictória e escrever poemas. Nos últimos meses, não fez outra coisa. Teve direito a reportagens e entrevistas por causa da sua ligação às artes. Como se vê, para alguns, há sempre uma segunda oportunidade para criar boa impressão.

O Nobel. Do Estados Unidos, por estes dias, têm chegado notícias curiosas. Para além do facto de alguns gurus das universidades terem passado a defender um modelo de desenvolvimento baseado em mais Estado, mais regulação dos mercados, reforço dos sindicatos e melhores salários, o Prémio Nobel da Economia foi atribuído a Paul Krugman, o homem a quem dói a mão de tanto desancar a administração Bush. E que defende ele para fazer frente à crise num dos seus artigos publicados no New York Times? Aumentar o gasto estatal, suspender as preocupações com o défice, aumentar os apoios aos desempregados, reforçar os serviços públicos, aumentar os investimentos do Estado. Enfim, «o que precisamos agora é de mais gasto público». Se o Nobel o diz…

O visionário. James Howard Kunstler escreveu O Fim do Petróleo há uns anos e, pelos vistos, acertou em cheio em muitas coisas. Agora veio a Portugal, à Gulbenkian, explicar as suas teses. Respigo umas quantas: o futuro não está nas energias alternativas, nem em trocar o carro a gasolina pelo carro a electricidade. Está em mudar de vida. De vez. Em reformular as cidades para andarmos mais a pé. Está em voltar ao campo e recuperar a agricultura. Está em recuperar o transporte ferroviário e mentalizarmo-nos de que, num futuro próximo, viajar de avião será coisa de elites e andar de barco voltará a ser banal. Cenário aterrador? Nem por isso. Nada que eu não tenha ouvido há anos, à mesa do café, com amigos experientes, avisados e sensatos. Mas como sabemos, há coisas que publicadas em livro e explicadas em power-point têm muito mais valor.

M.C.

A foto é de Hernâni Faustino

Lá vos espero…

Posted in devida comédia on 28/10/2008 by Miguel

A partir do próximo dia 8 de Novembro, irei organizar, a convite da Livraria Almedina, do Arrábida Shopping, em Gaia, a Comunidade de Leitores. A ideia é fazer duas sessões por mês até Junho do próximo ano (com intervalo em Dezembro), sendo que a segunda delas terá sempre a presença do autor. A primeira sessão será sempre à volta de uma obra de um autor e dessa tertúlia sairá uma fornada de ideias para discutir, na segunda sessão, com o próprio escritor. Podem ler todos os pormenores da iniciativa AQUI. As inscrições são obviamente gratuitas e devem ser feitas ao balcão da Livraria Almedina do Arrábida Shopping. Não é obrigatório inscreverem-se para todas. Não se acanhem. Qualquer dúvida, contactem, por favor, com o Miguel Gonçalves, da Almedina, através do seguinte mail: mgoncalves@almedina.net

O primeiro convidado é o escritor e colunista do Público, Rui Tavares. O ponto de partida para a tertúlia e o debate de ideias é a sua obra O Arquitecto (Tinta da China).

A programação da Comunidade de Leitores 2008 / 2009 é a seguinte:

Rui Tavares – 8 e 22 de Novembro, 17 horas

João Tordo – 10 e 31 de Janeiro, 17 horas

Rosa Alice Branco – 7 e 28 de Fevereiro, 17 horas

Patrícia Reis – 7 e 28 de Março, 17 horas

Jorge Reis-Sá – 4 e 25 de Abril, 17 horas

Germano Silva – 2 e 30 de Maio, 17 horas

valter hugo mãe – 6 e 27 de Junho, 17 horas

 

Sábado à tarde

Posted in devida comédia on 25/10/2008 by Miguel

Três senhoras de idade, simpáticas e bem apresentadas, tocam-me à porta. Querem falar com «o jovem» sobre o estado do mundo ou o fim dele, tal como o conhecemos. Os dias não andam famosos, mas vêm dizer-me que a salvação está próxima, se estivermos despertos e disponíveis para a obra do Senhor. Nestas ocasiões, refugio-me sempre no meu passado conveniente. Respondo que não precisam de perder o seu tempo, pois a minha avó é Testemunha de Jeová e o neto é um fiel leitor da revista Sentinela e assíduo frequentador das sessões do Salão do Reino, às sextas. Não é totalmente verdade, mas serve. Em miúdo, a minha avó materna – entretanto desenganada - levava-me pela mão às sessões das Testemunhas. Antes da chegada da IURD a Portugal, já eu sabia de cor e salteado os hinos, os cânticos e as leituras. Só faltava o dízimo, que lá se chamava outra coisa, acho. Lembro-me de passar horas a ver as ilustrações dos documentos da congregação. Recordo-me, sobretudo, do Paraíso, quase sempre representado por casais felizes de placa dentária impecável, árvores de frutos reluzentes, animais em santa comunhão com os homens, num cenário de pradarias, montes e cascatas encatadoras. Em dois minutos, convenço as simpáticas velhinhas de quão convertido estou. «Comigo, não precisam de se preocupar», digo-lhes. Elas sorriem e vão à sua vida. Felizes pelo jovem convertido. E eu satisfeito por me fechar em casa, de novo, meio macambúzio, lamentando este tempo inglório, onde perfídias e pulhices são praticadas nas nuvens, sem testemunhas.

A foto é de José Ferreira

Batota

Posted in devida comédia on 25/10/2008 by Miguel

O que aí vem não está ainda escrito. Diz-se: «Isto toca a todos». Não, não toca. Toca aos mesmos de sempre. A incompetência, a ignomínia, o desleixo, a arbitrariedade e a sabujice fundaram-se nas melhores escolas, algumas católicas, e exibiram-se à saciedade nos postos de comando sempre disponíveis. Nenhum MBA nos salva agora do que, na verdade, nunca aprenderam: a decência e o docoro, pelo menos. E como cantava o outro, «enquanto alguns fazem figura, outros sucumbem à batota».

A foto é de Marques Tavares Carlos

Citações exemplares

Posted in devida comédia on 21/10/2008 by Miguel

«O crash mostra que a terra é pequena demais para o progresso, para a velocidade da História. Daí a repetição dos acidentes. Nós vivemos com a convicção de que temos um passado e um futuro. Ora, o passado não passa; ele tornou-se monstruoso, ao ponto de não o tomarmos mais como referência. Quanto ao futuro, ele é limitado pela questão ecológica, o fim programado dos recursos naturais, como o petróleo. Resta, portanto, o presente a habitar. Mas o escritor Octavio Paz dizia: “O instante é inabitável, como o futuro”. »

«A incompreensão reforça o medo. Mas, ao mesmo tempo, não temos mais tempo para ter medo. O mais inquietante é a aparição de uma dissuasão civil, individual, íntima, que ganha todos os domínios da vida. Somos dissuadidos de fazer tal ou tal coisa como indivíduos.»

Paul Virilio, filósofo francês, em entrevista ao Le Monde

A foto é de Jorge Palha

Imperdível

Posted in devida comédia on 16/10/2008 by Miguel

Lisboa tem, todos os anos, um local de paragem obrigatória. Chama-se Doc-Lisboa, Festival de Cinema Documental. Para mim, não é um desfile de filmes e experiências. É um exercício de recauchutagem de energias, ideias e horizontes. E alguns questionamentos. À chegada, podemos sentir-nos um farrapo, desmotivados e descrentes. Mas sai-se de lá a pensar que, afinal, há mais espaços de partilha do que julgavamos, mais gente a tentar pensar «ao lado» da realidade empacotada dos nossos dias. No Doc, junta-se o mundo ao contrário. Um mundo que tão precisado anda de ser escrito, contado e filmado. Multiplicado.

Programa AQUI

Tempos modernos

Posted in devida comédia on 14/10/2008 by Miguel

Já não está longe o dia em que as redacções de jornais e revistas serão transformadas em meras fábricas de notícias. Tempos modernos, diz-se. Nessas fábricas de informação servida em série, numa única linha de montagem, sem espaço nem tempo para o pensamento, a reflexão e a profundidade, haverá novos operários especializados em várias temáticas, mas a trabalhar com um único objectivo: produzir conteúdos para diversos clientes. Quando os leitores de hoje perceberem que estão lenta e passivamente a deixar-se transformar em clientes, já será tarde para quem faz do jornalismo a sua vida e, por vezes, a sua morte. Chegados aí, caros leitores, eles já não poderão levantar a sua voz. Em vosso nome. Então, já não haverá sequer nada para ganhar. Porque tudo em que acreditamos estará perdido.

A devida…na VISÃO – XVI

Posted in devida comédia with tags on 11/10/2008 by Miguel

Momentos de verdade

A Islândia pode falir. Parece que é assim que se diz. Olhando para a história e o comportamento diletante de alguns países – estou a lembrar-me de um em particular – julguei que a notícia não era propriamente nova. Mas, pelos vistos, a ideia de que um país pode, digamos assim, apagar a luz, está na ordem do dia. A Islândia, uma das nações mais ricas do mundo, já não pode sustentar-se. Deu-se a especulações e rebaldaria financeira, desgovernou-se, e acabou a mendigar um empréstimo à Rússia, daqueles que nem a um amigo se pede.

Não sei o que virá a seguir, mas antecipo já o que estarão a pensar: não temo pelo futuro de Portugal.

A ditosa pátria tem, desde logo, um enorme seguro de vida, inacessível em massa aos outros países: os portugueses. Levamos as tragédias na boa, até fazemos anedotas das nossas circunstâncias. «Olha, as taxas de juro subiram outra vez. Lá vou ter de ir ao Momento da Verdade dizer que comi a minha sogra.» E bebe-se mais um copo. Um povo que se ri de si próprio dura mais. Até quarenta por cento mais, aprendi eu numa aula de inglês.

Na verdade, andamos a rir-nos desde 1143.

E nessa altura, note-se, ainda não comíamos a sogra, só batíamos na mãe. No tempo em que os animais falavam, por alturas do Big Brother, um tal comportamento ainda garantia um cheque chorudo e dava para governar uma casa jeitosa. Um pontapé numa amiga, ao vivo e em directo, também estava bem cotado. Mas desvalorizou muito. Os miúdos já batem nos pais e nos professores e nem isso lhes garante sustento. Agora, com a Teresa Guilherme in charge, essas irreverências não chegam sequer para sermos seleccionados. Porém, se o português despudorado tiver uma vida sexual desastrada, consumir drogas, «não tiver um emprego certo» e estourar a herança do pai ao jogo, é um sério concorrente à sua própria autonomia financeira. Ou como diz um amigo meu, «basta que mostre o melhor do seu pior». E não minta, chegado o momento da verdade.

Pelo lado da Economia e do mercado financeiro, nada a temer, também. Enquanto outros, nos países grandes, jogam à grande com as fichas deles a expensas nossas – é por isso que se chama economia de casino, não? – os empresários e aditos do jogo financeiro em Portugal são como um grupo de amigos à volta do Monopoly. Julgam-se donos de tudo, mas, quando muito, mandam na rua deles. Às vezes, de tão viciados, jogam à séria e fazem umas patifarias nos BCP´s desta vida. Mas fica tudo entre amigos. E nós nem sequer protestamos.

Por fim, não corremos o risco de ver o Estado português falir. Pela simples razão de que não pode falir o que não existe. Desde há vários anos que o paradeiro do Estado é desconhecido nas escolas, hospitais, museus e entidades financeiras. «Afinal, quem manda aqui?», é a pergunta típica do português na fila de espera de um qualquer serviço. Se alguma vez essa indignação tivesse resposta, aí sim, era caso para ficarmos preocupados.

MC (foto de Francisco Reis)

Leituras

Posted in devida comédia on 07/10/2008 by Miguel

Estão finalmente disponíveis os documentos relativos ao processo que a famosa ERC desencadeou a propósito das alegadas pressões de José Sócrates sobre a Comunicação Social e na sequência da cobertura jornalística do «caso» da sua licenciatura. Intitulado «Impulso Irresistível de Controlar», o dito processo, sobretudo nas entrelinhas de alguns depoimentos e documentos, é uma boa amostra do que desfila neste vicentino Auto da Barca que Nos Calhou em Sorte.

foto de benjamin vieira

A devida…na VISÃO – XV

Posted in devida comédia with tags on 07/10/2008 by Miguel

Zé Carlos

O PS tem um problema. Chama-se Zé Carlos. O Zé Carlos não é líder da oposição nem Presidente da República. O Zé Carlos é o novo programa humorístico dos Monty Python portugueses, os Gato Fedorento. Enquanto Manuela Ferreira Leite parece andar nisto para perder por poucos e a esquerda se faz desentendida perante a oportunidade de uma frente eleitoral contra Sócrates – o CDS é uma sauna apertada - o Zé Carlos, esse sim, começou a usar a matéria-prima por excelência para chegar aos eleitores: a corrosão do poder.

No regresso aos ecrãs – e de uma penada – a trupe do Zé Carlos desmontou a metódica e obsessiva campanha promocional do computador Magalhães congeminada pelo Governo, reduzindo-o ao que ela efectivamente é: uma boa ideia, vestida de traje parolo, para vender o Portugal moderno, pouco visto na rua, mas frequentador de algumas estatísticas. Embalado, o Zé Carlos reduziu dois ministros – Lino e Pinho – à condição de anedota.

Ora, o Zé Carlos, como qualquer Zé Povinho, não precisa de efeitos especiais para se fazer entender. O programa é simples, as graças sucedem-se em piloto automático, nada há de doutrinário. A parvoíce abunda e o sarcasmo anda por ali, descalço. A vantagem é que as graçolas podem ser entendidas na Quinta do Lago, na Quadratura do Círculo ou na tasca de um Zé Carlos qualquer, entre bifanas e um arroto. Se falasse sobre o Magalhães, o povo diria o que diz o Zé Carlos. Com mais ou menos molho. Mas sempre sem pretensões de catequizar ou de ofender a la carte. Somos assim: gostamos apenas de eleger para cargos importantes os tipos de quem iremos fazer gato-sapato na primeira oportunidade. Apenas isso. E sem ressentimentos.

Não sei quantos meses durará o programa e desconheço se o humor fedorento dos «gatos» aguenta o prazo de validade. Um sinal, porém, está dado: o Zé Carlos pode transformar-se rapidamente – e por multiplicação acelerada nos you tube desta vida – na mais corrosiva arma contra desmandos ministeriais, a ineficácia governativa e os dislates do socialismo tecnológico. Esqueçam Manuelas, Franciscos e Jerónimos. Zé Sócrates que se cuide, pois: com os «gatos» a destilarem a pândega e o lado mordaz em directos semanais de catarse humorística colectiva, talvez o Zé Carlos que mora em cada um de nós se liberte a tempo de um acto eleitoral. Para já, os analistas e assessores não levarão a coisa muito a sério. Mas a brincar, a brincar…

MC (a foto é de Diógenis Santos)