Peito meu

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Queria escrever um poema aos amigos e à família que transformaram a noite que agora termina. Mas não há palavras. Não há palavras para explicar o que vou sentir para o resto da vida depois disto. Nunca se está só. É uma frase banal, é certo, mas do tamanho do mundo, do tamanho das pessoas que tenho na minha vida. Sei que esta manhã vou acordar e demorar a acreditar que, de facto, aconteceu mesmo. Depois, lentamente, irei reparar que ainda tenho, a vestir-me por dentro, todas as palavras e lágrimas que escrevi no meu peito esta noite com as vossas mãos. Não sei como se diz obrigado a isto, não sei o que fiz para merecer isto. Hoje cederam as comportas e as águas correram livres por abraços e entregas. Peço desculpa, mas, hoje, este é um post piegas no blogue de um homem piegas que não sabe o que dizer depois de ter sido posto diante do espelho de si próprio, amparado nas palavras e no coração grande onde me guardam. Sou vosso, eternamente vosso. E garanto-vos que não quero crescer em demasia – emagrecer já não prometo - nem desmerecer a criança dentro de mim que tenta ainda habitar cada gesto e atabalhoadamente alcançar a lua com o peito. Como dizia o outro, não há passos divergentes para quem se quer encontrar. E eu sei onde vos procurar: cá dentro, sempre.

Domingos

Já tinha saudades dos jantares de domingo à noite, do travo que deixam na alma antes de enfrentar nova semana. Desta vez, à mesa com amigos novos. E de sempre. Todos bons. Conversa a condizer: «estórias» divertidas dos bastidores da política, conjecturas sobre cá e lá (lá, nesta altura, são os EUA e Obama), bom humor. O BB Gourmet, do chefe Miguel Castro e Silva, na esquina da Rua António Cardoso, na Boavista, prestou-se ao espírito da noite. A carne de porco com migas – macia, macia – será lembrada por uns tempos. Da conversa com chuva miudinha, cá fora, sobra o que vai acima: Andrew Bird, from Chicago. Dica para cultivar com mais atenção nos próximos tempos.

Rui Tavares na Comunidade de Leitores

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Este domingo, às 17 horas, Rui Tavares vai estar à conversa com a Comunidade de Leitores da Livraria Almedina do Arrábida Shopping, em Gaia, a propósito do seu livro O Arquitecto. A tertúlia não irá apenas focar a obra e, obviamente, haverá matéria para outras trocas de ideias relacionadas com o autor e os seus escritos. Apareçam, pois.

( O blogue do Rui Tavares é http://ruitavares.net/blog/)

A Devida…na VISÃO – XIX

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Na ordem

Se pudesse, Manuela Ferreira Leite suspendia a democracia por seis meses. Para «pôr tudo na ordem». A ideia, convenhamos, não é má. Podendo, também os portugueses suspenderiam o PSD por seis meses para «pôr tudo na ordem».

Aliás, receio mesmo que tenham essa tentação desde que Cavaco se foi embora do partido. Em curtos períodos, os da passagem de Santana pelo Governo e de Menezes pela Lapa, essa tentação nacional talvez se tenha até tornado uma obsessão. Mas o PSD não foi na conversa dos portugueses e entregou-se, por decisão própria e democrática, a Manuela Ferreira Leite.

De resto, se pudessem, os portugueses gostariam de aplicar o modelo dos «seis meses» a várias circunstâncias da vida: quem não desejou já suspender o casamento por seis mesitos para pôr o coração e a vidinha na ordem? Quem não sonhou, nos últimos tempos, em suspender pelo mesmo período o pagamento do empréstimo à habitação? Parafraseando um velho ditado, ou há democracia ou comem todos. 

No fundo, se lermos bem as palavras da líder do PSD, ela até nem pede muito. Afinal, o que são seis meses de democracia suspensa quando comparados com o tempo que ela vai precisar para «pôr na ordem» os Menezes desta vida ou subir nas sondagens?

Sinceramente, Manuela podia ter ido mais longe.

Em dia sim, podia até ter falado verdade.

É que suspender esta democracia por seis meses era capaz de não chegar. Salazar tentou algo parecido para «pôr as finanças na ordem», mas acabou a ter de resolver uma série de problemas chatos que a democracia coloca. O quero, posso e mando demorou os anos que se sabe. E quando a democracia voltou a pôr os corninhos de fora, Portugal tinha envelhecido mais de 40 anos. Sem proveito, nem folia.

Neste momento, seis meses dariam, quando muito, para trocar de Ministra de Educação e arquivar o que alguma da fina-flor do cavaquismo andou a fazer no BPN. Ora, o erro de Manuela Ferreira Leite não foi, pois, pedir o tal meio ano para pôr o País nos eixos, sem lamúrias nem queixumes. Grave é não nos dizer de quanto tempo efectivamente precisa para fazer coisas de jeito e em que medida podemos depois responsabilizá-la pela falta de resultados. Em 1985, Cavaco pediu um mandato e ficou dez anos. E sabe-se como Manuela bebeu dos ensinamentos do mestre.

No fundo, a líder do PSD cometeu o erro de todos os políticos, tão comum em democracia ou ditadura: prometeu o que sabe não poder cumprir. Às tantas, estaríamos a dar-lhe seis meses de boa-vontade e a Manuela a esticar-se. E nunca mais nos livraríamos dela, mesmo que pusesse tudo na ordem sem ruído de fundo. Quanto isso, cara doutora, estamos avisados e o melhor é não repetir: o último que tentou pôr isto na ordem calou-se há 40 anos, mas ainda não nos livramos dele. Da última vez que deu nas vistas, andava a ganhar concursos da RTP em democracia.

MC (a foto é de Vera Lisa)

Novo vício

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Estreia-se na coluna dos Vícios, aqui ao lado, o blogue do cubano Iván de la Nuez, radicado em Espanha. Uma descoberta recente, através do seu Fantasia Roja, que analisa os percursos dos intelectuais de esquerda ocidentais e a sua relação com a revolução cubana, mas é um daqueles safanões que vai muito mais longe do que o título indica. E explica porque somos uma espécie de homens interruptus, emparedados entre um passado glorioso que não vivemos e um futuro que não chegamos a tocar com as mãos.

Imprensa escrita? Yes, we can!

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Num e-mail enviado à redacção logo a seguir às eleições nos EUA, o editor do Washington Post escreveu: «Hoje começa uma nova história. Como vamos cobri-la irá influenciar o futuro do país e o futuro do nosso ofício». Nada mais verdade. A Newsweek, entretanto, traz um artigo interessante sobre o tema. Como dizia o outro, este pode ser o primeiro dia do resto da nossa vida.

Na berma…era macumba

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Pronto. Após uns mails e comentários avisados, resta-me, resignado, ceder à ideia de que a foto documenta um exercício de macumba. Eu bem tentei não descer à terra, imaginar que por ali haveria mais afecto do que feitiçaria. Mas o mundo cruel e algumas almas atentas acabam por nos desenganar quase sempre.  Ainda haverá corações dispostos a morrer atropelados…pela vida?