Mulheres

teresinha
Um dos meus traumas de infância foi a revista Mulheres. Publicada, creio, entre finais dos anos 70 e meados dos 80, tinha como chefe de redacção Maria Teresa Horta, jornalista, poetisa portuguesa e feminista militante. A criança que eu era folheava a revista lá por casa e não entendia a razão pela qual os homens vieram ao mundo, essas bestas.
Em fartas páginas da revista, além da farta doutrina da época, os machos eram a razão principal das mulheres não serem felizes, emancipadas, livres, sexualmente activas. Havia um certo fascismo masculino que era preciso combater e isso notava-se muito para lá das entrelinhas. Os homens que tinham direito a artigos elogiosos na revista ou grandes entrevistas eram os bons, quase sempre de esquerda, do lado certo da vida, talentosos até mais não. Alguns, de tão bons, quase pareciam mulheres. Ainda assim, poucos, se a memória não me falha. E, diga-se, nem um que tivesse carinha de quem gosta de Nespresso, não fosse a mulherada pensar que a fachada já servia.
Ora, os artigos mais incendíários, lembro bem, eram da Maria Teresa Horta. Recordo-me de temer pela sorte de um qualquer coitado que lhe batesse à porta ou esbarrasse com ela na rua (criancices minhas, claro). Durante anos, a Maria da revista não poupou no sarrafo. Ele era a publicidade exploradora da condição feminina, ele era o artigo machista do jornal Y ou a legislação retrógada e castradora do mulherio. Lembro-me de ver a revista espalhada, às colecções, por casas de familiares, misturada com publicações sobre bordados e «teleculinárias», retrato exemplar das mulheres da minha família: libertação, direitos das mulheres, «manifs», tudo certo sim senhor, mas mais tarde que eu agora tenho de pôr o tacho ao lume que o teu pai está a chegar.
Serei justo: Maria Teresa Horta pagou um alto preço pelas opiniões e provocações daquele tempo. Foi enxovalhada, agredida e insultada. Entretanto, ganhou o seu heróico lugar na história das lutas emancipadoras das mulheres e o reconhecimento na poesia, onde um verso seu, por vezes, faz desejar encavalitarmo-nos na lua. Recentemente, Maria Teresa Horta, 71 anos, confessou-se a uma revista de domingo. Nestes termos: é uma pessoa doce, uma mãe presente, uma avó coruja. Cozinha todos os dias, lava a louça e a roupa. É, além disso, uma mulher apaixonada há 40 anos pelo mesmo homem, a quem passa todos os dias a ferro as calças e a camisa. Os machistas dirão: «Tudo no seu lugar, finalmente». As feministas empedernidas dirão: «Ao que ela chegou!». Eu? Não digo nada. Tenho a louça do jantar para lavar e já se está a fazer tarde…

Traduções

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Num dos episódios da minha série preferida, Boston Legal, Shirley cita em tribunal um poema de um padre alemão, protestante, que lutou contra os nazis. O nome dele é Martin Niemoller. Mas o tradutor de serviço legendou-o como Martin Noemer. Boston Legal não é uma série qualquer. Pelo contrário: é uma série irreverente, madura, despida de preconceitos de qualquer espécie e autêntica pedrada no charco na América do pensamento único. Atrevo-me a dizer que alguns dos seus episódios substituiriam, com vantagem, alguns discursos panfletários ou aulas de História ou Teoria Política. É por isso que as traduções da série deveriam preocupar mais quem a transmite. Até porque, com frequência, as citações e as referências bibliográficas não são de deitar fora. De resto, a Martin Niemoller já bastava, em vida, ver tantas vezes atribuído a Bertolt Brecht um poema da sua autoria, sem que nenhum dos dois tenha culpa. Brecht tem, de facto, um poema parecido, inspirado, quem sabe, num outro de Maiakovski. Por agora, aqui fica o poema do padre alemão citado na série…

FIRST THEY CAME
(Martin Niemoller)

First they came for the Socialists, and I did not speak out –
Because I was not a Socialist.

Then they came for the Trade Unionists, and I did not speak out –
Because I was not a Trade Unionist.

Then they came for the Jews, and I did not speak out –
Because I was not a Jew.

Then they came for me — and there was no one left to speak for me.

Cegueira


Não percebo o que é preciso para se elogiar um filme. Blindness, a adaptação ao cinema do Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago, tão vergastado pela crítica, é um filme enorme, de grandeza. Um exercício ético e estético irreprensível de Fernando Meirelles. Incomodativo, desconfortável, como tinha de ser. Agora entendo as lágrimas de Saramago quando viu, na tela, o resultado da adaptação daquilo que escreveu. Não é apenas a comoção de um escritor a ver-se perpetuar noutra arte. São lágrimas de quem vê, em filme, um exercício criativo que não só respeita a moral do seu romance, como lhe dá mais um degrau de dignidade. As maiores cegueiras são as que carregamos dentro, de olhos abertos. E o pior cego é, de facto, o que vê.

Once


Pode um filme deliciosamente romântico não ter um beijo, não ter uma cena de cama, ter e não ter um final feliz? Pode. Once (No Mesmo Tom, em português), tem isso, dois excelentes actores (o irlandês Glen Hansard e a checa Marketa Irglova), um cenário literário (Dublin) e uma canção simples e doce, Falling Slowly, que ganhou o Óscar no ano passado. E tudo por meia-dúzia de tostões e com uma câmara de trazer por casa. Cinema descomplicado e despretensioso. A vida devia ser como contar uma história assim.

P.S. Glen e Marketa formaram entretanto uma banda chamada The Swell Season que anda a correr mundo. O site oficial tem mais músicas e uma colecção de posters fantásticos dos concertos.