Rosa Alice Branco na Comunidade

rosa_alica_branco

A poetisa ROSA ALICE BRANCO estará este sábado, a partir das 17 horas, na Livraria Almedina do Arrábida Shopping, em mais uma sessão da Comunidade de Leitores. A autora de Soletrar o Dia (Quasi), regressada do Festival Internacional da Poesia da Nicarágua, falará de si, do seu livro e do que lhe quisermos perguntar. E ainda lerá alguns dos seus poemas. Apareçam, pois!

Arte Poética

Gostaria de começar com uma pergunta
ou então com o simples facto
das rosas que daqui se vêem
entrarem no poema.

O que é então o poema?
um tecido de orifícios por onde entra o corpo
sentado à mesa e o modo
como as rosas me espreitam da janela?

Lá fora um jardineiro trabalha,
uma criança corre, uma gota de orvalho
acaba de evaporar-se e a humidade do ar
não entra no poema.

Amanhã estará murcha aquela rosa:
poderá escolher o epitáfio, a mão que a sepulte
e depois entrar num canteiro do poema,
enquanto um botão abre em verso livre
Lá fora onde pulsa o rumor do dia.

O que são as rosas dentro e fora
do poema? Onde estou eu no verso em que
a criança se atirou ao chão cansada de correr?
E são horas do almoço do jardineiro!
Como se fosse indiferente a gota de orvalho
ter ou não entrado no poema!

ROSA ALICE BRANCO

Memória de Elefante – 4

cravo-ii

Conheci-o em Caracas, metido entre papéis, tabaco forte entre os dedos, na livraria que teimou em manter aberta mesmo já quando prescindia de quase tudo para sobreviver. Excepto a sua dignidade. Estivemos horas à conversa e reencontramo-nos em cada regresso meu à Venezuela. Estive com ele a última vez em Maio do ano passado. Apareci-lhe na livraria sem avisar, voltamos a pôr a conversa em dia, o fumo do cigarro marcando o compasso das palavras.
Nessa noite, apareceu-me ele no terraço do hotel onde estava hospedada a comitiva de José Sócrates, que, de visita a Caracas, nunca soube – nem quis saber – quem era o Sérgio. Eu tinha resolvido os meus afazeres profissionais e podia finalmente sentar-me com o Sérgio, o Júlio e o José Miguel Gaspar, saboreando histórias e memórias de um tempo em que tínhamos os melhores heróis do mundo, tão anónimos quanto dignos. Dei-lhe um abraço apertado, sem saber que seria o último. Ainda trocamos livros. E ainda recebi uma carta dele, comovente, a agradecer um livro que o tinha tocado muito.
O Sérgio morreu ontem, aos 77 anos, quase sozinho, numa cama de um hospital de Caracas. Gostava de lhe ter dito uma última palavra, dessas que vamos guardando sempre para um momento específico que achamos que vamos ter. E nunca temos.
O Sérgio era um dos meus poucos heróis, uma personagem de novela, quixotesco, romântico, mas feito do real que a vida tem e o homem sonha. Um homem de cultura, íntegro, de convicções, incapaz de trair o seu semelhante. O Sérgio mergulhou no exílio por causa da ditadura. Lutou de fora, pelos de dentro, arriscando tudo. Ele, a quem os amigos escondiam tentativas de lhe arranjar uma pensão pela sua luta férrea contra o fascismo, morreu com o orgulho intacto, nunca reclamando nada. A democracia talvez não saiba sequer que ele existe. O que diz bem da gente que temos. Do País desmiolado e desmemorizado que ergueram nas nossas barbas. E do qual somos cúmplices.
Em 2003, publiquei em livro a história do Sérgio. E ontem recordei-a no site da VISÃO porque, para mim, o Sérgio será sempre o exemplo dos que, em vida, como escreveu Neruda, sempre lutaram «para que os outros alguma vez pudessem viver tranquilos».

(a foto é de J.Pedro Martins)

Alfredo Mendes

alfredo

Aqui fica o notável texto de Ana Cristina Pereira, no PÚBLICO, sobre um grande jornalista, Alfredo Mendes, vítima de uma indignidade sem nome. Ou melhor, com nome: Controlinveste.

Alfredo Mendes
“Despedido num minuto e meio – dois minutos, vá lá”

26.02.2009, Ana Cristina Pereira

Chegou ao jornalismo em 1972, entrou no Diário de Notícias em 1977. A Controlinveste quer dispensá-lo. Nos últimos cinco anos, pelo menos 180 jornalistas perderam o emprego na área de influência do Porto. Está em marcha um “processo de desertificação” na área dos media

Na manhã de quinta-feira, 15 de Janeiro, o telefone tocou em casa de Alfredo Mendes. “É do jornal”, anunciou a mulher, ao passar-lhe o aparelho. “Está aqui o director adjunto Rui Hortelão para uma comunicação nada agradável”, avisou alguém, do outro lado da linha. Só entrava às duas, mas correu para o metro. Por volta do meio-dia, chegou ao Diário de Notícias. Não tardaram a chamá-lo. Era um dos 122 trabalhadores do processo de despedimento colectivo do grupo Controlinveste. “Fui despedido num minuto e meio – dois minutos, vá lá”.

Trabalha no DN desde 1977: “Dediquei-me mais ao jornal do que à família e aos amigos. Tenho provas! Tenho os recortes de tudo o que escrevi. E agora? Como digo aos meus filhos para serem trabalhadores leais, para viverem para a empresa? Isto é tão humilhante, tão revoltante!”

Nasceu numa aldeia de Foz Côa. Mudou-se aos dez anos para Leça da Palmeira. A avó, a mãe e a tia “fizeram o sacrifício” de ir para a cidade para lhe darem uma profissão. Na terra não havia futuro. “Na escola primária, era o único calçado”, inclusive nos dias com neve de 20 centímetros.

Os professores gabavam-lhe a escrita. Nos testes, fazia a redacção de “sete ou oito em troca de copianços de Matemática”. Meteu na cabeça que havia de ser jornalista. E aos 16 anos mandou uma carta para o Jornal de Notícias: “Se dentro de uma semana não tiver resposta, escrevo para O Comércio do Porto.”

Recebeu uma carta assinada por Freitas Cruz, então subdirector. Ficou extasiado. Pelo convite para ir à redacção. Pelo tom solene. Pelo formato do envelope: nunca antes vira um envelope com janela. Foi ao JN. Aguardou um quarto de hora “numa salinha”. A admirar o chão alcatifado. De repente, apareceu “um senhor muito aflito a pedir desculpa pela espera”.

Freitas Cruz encorajou-o. Disse-lhe que o adivinhava “bom jornalista”. Aconselhou-o a prosseguir os estudos e convidou-o para colaborador desportivo. Faria “jogos sem importância”. Na época, não havia cursos de Jornalismo. Era assim que se entrava na profissão.
Os jornalistas “eram homens que andavam no meio do público-alvo”. Alfredo Mendes diz homens e eram homens mesmo. As mulheres estavam a chegar ao jornalismo. No JN, trabalhavam apenas duas. O rapaz ficou encantado com gargalhadas, os pés-de-vento. Tantas vezes, se deixava estar “até às quatro da manhã, para trazer o jornal debaixo do braço”.

Cobriu pequenos jogos de 1972 a 1977. As assembleias dos clubes, às vezes, arrastavam-se até de madrugada. Ganhava 20 escudos por peça. E “era impensável um jornal pagar um táxi ou uma refeição”. O jornalismo era uma área tão mal paga que até os editores tinham outro emprego – trabalhavam em bancos, agências de seguros… Apesar do pouco ganho, Alfredo Mendes entrava na redacção e via alegria. Hoje, parece-lhe que “quem entra numa redacção vê um velório.”

Antes da Internet
Mudou para o Diário de Notícias em 1977. E encontrou “outro ambiente fantástico, de gente de muita cultura, de grande coragem, grandes borgas”. Teve “oportunidade de fazer de tudo”. Desporto, cultura, política, economia, até a cotação da bolsa quando a havia no Porto. Não havia Internet. Quase não havia telefones. Era quase sempre preciso ir aos sítios: “Percorri o Norte todo. Fiz desde o bairro de lata à alta sociedade. Fui a muitas recepções representar o jornal.”
Trabalhava numa delegação, “o arquivo era miserável”. Para enriquecer as suas histórias, gastou “milhares de horas” a fazer o seu. Tem o vício de guardar tudo. Por exemplo: lê que Florbela Espanca andou a passear os cães na praia de Matosinhos; aponta a informação na ficha Praia de Matosinhos; mais tarde, ao escrever um artigo sobre um naufrágio naquele sítio, vai buscar a referência. “O DN fez uma colecção de roteiros turísticos a partir de viagens na minha sala”.

Até à década de 90, trabalhar no DN foi “exaltante”. Com a saída do PÚBLICO, concorrente directo, o diário “começou a perder identidade”. Depois, “entrou numa estratégia de ziguezague: quer ser tudo”.
Um dia, Alfredo Mendes acordou, tinha 53 anos, e estava desempregado. Quantos textos já escrevera sobre trabalhadores, de rompante, sem emprego? E ali estava ele, com um filha de 18 anos e um filho de 13, a mulher desempregada, um crédito à habitação para pagar. “Vou receber uma indemnização que não vale um carro de administrador. Trinta anos de dedicação não dão para comprar um carro de administrador!”

Não era o único jornalista do pacote. Dentro dos 122 profissionais que a Controlinveste quer dispensar estão 75 jornalistas – do Jornal de Notícias, do Diário de Notícias, do 24 Horas, d’O Jogo e de outras pequenas publicações: 54 na zona de influência do Porto. Motivos avançados: “Desequilíbrio económico-financeiro num mercado em queda”, “necessidade de reestruturar a empresa, nomeadamente eliminando postos de trabalho redundantes e adequando o nível de recursos humanos à actividade desenvolvida e à evolução tecnológica”.

Pelo mundo inteiro a imprensa tem perdido leitores. Em tempo de crise, o investimento em publicidade é um dos primeiros a ressentir-se, como refere o director do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, Manuel Pinto. E a publicidade é “vital para a viabilidade dos media”.

O que parece a Joaquim Fidalgo, professor no mesmo estabelecimento de ensino superior, é que os media “estão a sentir os efeitos de uma lógica que põe em evidência as economias de escala e os avanços tecnológicos”: concentram-se serviços, fecham-se delegações. Só que, na comunicação social, não é igual estar em Lisboa ou em Bragança: “A proximidade importa”.

Longe do Portugal real
“Dos importantes títulos de imprensa do Norte, mantém-se hoje, como seu baluarte e com um forte enraizamento social, o Jornal de Notícias”, lembra Carlos Lage, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte. O Comércio do Porto morreu em 2005 (50 jornalistas ficarem sem emprego). E O Primeiro de Janeiro transformou-se numa caricatura do que era (32 jornalistas despedidos em Agosto de 2008).

Nos últimos cinco anos, pelo menos 180 jornalistas da área de influência do Porto perderam o emprego. Com este corte na Controlinveste, o 24 Horas deixou de ter delegação na cidade, o DN reduziu a sua a metade. Ainda há pouco, o grupo Média Capital dispensou três jornalistas; o ano passado o Expresso dispensou dois; há dois anos o PÚBLICO dispensou 11 – o que implicou acabar com as delegações em Braga, em Aveiro e em Vila Real.

Estará o Norte a tornar-se irrelevante? “Não, o Porto, o Norte, não é irrelevante. O Porto e o Norte estão é a merecer pouca atenção dos media”, responde o presidente do Sindicato dos Jornalistas, Alfredo Maia. “Todo o Portugal real – que tem a ver com as regiões, com as localidades – está”.

“No final dos anos 80, havia uma dinâmica de descentralização”, lembra Joaquim Fidalgo. Depois, o país recuou. Se cairmos de pára-quedas numa reunião de autarcas e outras personalidades, veremos como isso é verbalizado. “O centro de todas as decisões está em Lisboa”, resume Armindo Abreu, presidente da Câmara de Amarante. “Umas coisas puxam as outras”, consente Castro Fernandes, presidente da Câmara de Santo Tirso.

Este “processo de desertificação”, na opinião de Carlos Lage, “deve suscitar preocupação e ponderação”. “Não existem sociedades sem espaço público, nem vontades ou destinos colectivos sem voz. Uma informação pública construída a partir de uma base social ou geográfica única é tão inaceitável e danosa como a que é construída por um código ideológico e de opinião exclusivista”, diz.

Haverá muito quem ache que “a informação está tão disponível, que há tantas agências, tanta Net, que não é preciso ter jornalistas onde as coisas acontecem”, admite Fidalgo. Mas “a tecnologia não substitui o contacto com as pessoas”. Não se pode “fazer adequada cobertura a distância”.

Alfredo Mendes não podia estar mais de acordo: “Como é que os jornais podem ser uma alternativa à televisão, à Internet? Fazendo o jornalismo de ‘rabo sentado’, seguindo a grelha da televisão, indo à Internet? Estão a basear-se demasiado na Internet. Não há ligação ao público. Vão a Nova Iorque buscar ideias, mas não vão à Praça da Liberdade, à Avenida dos Aliados.”

Jornalismo “à chinesa”
Foi sempre escolhido para as obras de prestígio editadas pelo DN, como o Notícias do Milénio. Textos seus foram seleccionados para manuais escolares. Atribuíram-lhe diversos prémios. Agora, o despedimento colectivo coloca-o entre quem teve pior avaliação. E isso “é humilhante, revoltante”. “Nem sequer tenho uma carta como qualquer pessoa que anda nas obras a mexer massa. Nunca pensei que isto fosse possível num país civilizado”.

Não sabe quem o avaliou, em que período, com que critérios. Os jornalistas abrangidos pelo mesmo processo já enviaram uma carta a diversas entidades dizendo que foram alvo de despedimento “selectivo”, nomeadamente por terem vindo “a chamar a atenção e a reclamar sobre o desvio editorial que se verifica num jornal de referência como o DN”. As negociações não deram em nada. A carta de despedimento chega esta semana – talvez chegue hoje.
Não será fácil recomeçar aos 53 anos: “Aumenta a esperança média de vida e um jornalista com mais de 40 anos é para abater”. Proliferam cursos de Comunicação Social. Todos os anos, centenas de jovens tentam entrar na profissão. Alfredo Mendes desanima perante o que chama “estratégia chinesa”: “Em vez de se ter profissionais com experiência, com qualidade, nos quadros das empresas, tem-se estagiários a trabalhar à borla. E sai um jornalismo padronizado, sem memória, sem génio e sem arte. E as redacções transformaram-se em espaços frios, tristes.”

Da minha gaveta – XI

carla-salgueiro
A noite habita todos os poemas. Todas as frases adormecidas se enroscam na dobra de um verso, no reverso de nós, no avesso da pele. A memória escreve-se dedo a dedo, língua viva impressa na curva da anca. Deve dizer-se tudo ao alcance da boca. Morder os olhos com lábios de asas. E perder o pé como pássaros.

MC

(a foto é de Carla Salgueiro)

O tempo (roubado aqui ao lado)

tempo
“Com o tempo, as coisas mudam (intensamente) o sentido. Tudo muda. Assim, não vale a pena combater o tempo guardando pedaços de memórias que já incorporámos e que, sendo nós, já o não são. Não é preciso esquecermo-nos de nada, mas é obrigatório deixarmo-las ir. Desta forma, e só desta forma, deixamos que coisas novas venham ocupar o lugar das (dessas) velhas. Chama-se higiene mental. Chama-se viver. Porque o essencial fica em nós. E é só desse que precisamos.»

Um texto da Isa, na Fábrica Insular. Onde navegam outras palavras como estas.

(a foto é de José Luís Magalhães)