Da minha gaveta – XIII

viola
GRAMÁTICA SENTIMENTAL DO CORAÇÃO

Coração – Substantivo masculino, recorte à esquerda do meu peito, a alma picotada, de luto carregado ou amores de incenso. Não, órgão oco e musculoso não. Carente de fé, por vezes. A fazer-se forte, às tantas. Mas num intenso pulsar, sempre. Ora sepultando existências na cova funda dos anos, ora tricotando a vida que acontece enquanto penso o que fazer dela. Sensibilidade moral, sim, mas consciência da carne, quando fere. Coragem, ânimo e a forma tenrinha de te amar, a paixão sem osso, a roer-nos. Valor, carácter, saber que à boca não há-de ir parar a piedade que o corpo grita. Abrir o coração, semear palavras, lavrar toda a extensão da folha branca do teu corpo e ter a certeza de um verso na volta, a poesia em flor. Sentimentos com lealdade para sossego dos sentidos enquanto a inquietação preenche o lugar de não estares aqui. O coração caído aos pés, estilhaços de ilusões, as utopias trituradas, o esfrangalhar do ser na lâmina, à espera de ressuscitar no campo de batalha da consciência. Falar ao coração, comovê-lo. A ver se ele se importa. Dar-lhe colo, algemar o pensamento a rascunhos de mimo e desenhar, a traço grosso, o essencial que os olhos não alcançam. Fazer das tripas coração, o sangue a espirrar um estoicismo que não se resigna, a fibra de um rosto de papel, a cara à luta na ventania dos dias do avesso. Ter o coração ao pé da boca, mas entalar a raiva entre o bom senso dos teus lábios. Então, dar asas às palavras que escrevo no livro de horas que cabe em tua mão. Pedir-te que a feches. Pedir-te que me guardes, coração.

MC

(Este texto partiu de uma boa causa. A Marta, minha mana e amiga de sempre, lembrou-se, há uns anos, de me pedir um texto sobre o coração para publicar num livro editado pela Asa e pela Fundação Portuguesa de Cardiologia. Saiu isto, a partir das definições de coração no dicionário. E do “essencial que é invisivel aos olhos”. Apeteceu-me lembrá-lo hoje. Porque sim.)

(a foto é de José Marques)

Os livros, enquanto…

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Arrumações. Recortes para ali. Facturas para acolá. Revistas a empilhar. Jornais para encaixotar. Livros. E a pergunta: será que eles crescem? Vou descobri-los em sítios inesperados. Não propriamente esquecidos, mas por encontrar. Eu acho que alguém já disse isto, mas tenho a impressão de que se reproduzem nas minhas costas. Enquanto estou fora. Enquanto estou dentro de outros livros (agora estou dentro de três e sinto que ando a traí-los).

Por aqui não há problemas de natalidade. É verdade que há algumas páginas envelhecidas, as rugas a notarem-se no rosto, títulos desbotados, palavras datadas. Mas, no geral, a população aguenta-se. Entre o vigor da novidade e o raio da humidade. Já se sabe que a idade não conta nestas coisas. Verdade. Andam por estes cantos jovens autores mais entradotes que Benedetti, que não dá tréguas ao encantamento com a vida nem quando lhe vê o fim.

Andam por aqui uns oferecidos, também. Oferecidos, não. Que os livros não são assim, tão dados. Precisam de ser conquistados. Uns ajudam, puxam por nós às primeiras linhas. Outros fazem-nos rastejar até à página 50, no mínimo. E outros nem por sombras nos dão a mão antes das primeiras cem páginas. Depois há aqueles, poucos, que andam por aqui sem que alguma vez me lembre de os ter visto entrar. Parece que vieram atrelados a outros desconhecidos, tipo parelha sem nome. E lá vão ficando, envergonhados, de lombada mortiça, a ver se não dou por eles. Mas dou. Alguns são deliciosas surpresas. Outros é um abrir e fechar de olhos. Mas guardo-os. Não sei o que sentiria se soubesse de um livro sem abrigo, páginas ao frio, sem agasalho de mãos.

Sobretudo, lembro-me dos que me trouxeram aqueles que os amaram antes de mim. Gosto de amores cuidados. Gosto que me leiam através dos livros que me dão. “Vais amar”. E amo. Lembro-me ainda de todos os que comprei, que resgatei à indignidade de uma promoção, de um saldo de ocasião, usados e abusados sem nunca serem abertos de coração. Sei os sítios, a história de cada compra, o onde, o quando, às vezes o porquê. Acho que alguns me chamaram, inquietos. Uns foi amor à primeira capa. Outros, uma beleza interior.

E ainda tenho aqueles que herdei de ti, pai, quando me faltaste de vez e que ainda têm os teus dedos, o teu cheiro, os teus sublinhados direitinhos, as anotações de letra linda que fazias pelos cantos. Esses sei de cor. Gosto deles, guardo-os para cada momento em que te visito. Para ver se ainda te leio, inteiro, pelos olhos meus.

Hoje apetece-me isto…

carla-i
Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
– eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
– E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
– não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.

HERBERTO HÉLDER

(a foto é de Carla Salgueiro)

Amazonices


Há uns dias chegaram mais umas perdições da Amazon (não posso ir lá muitas vezes, pois desgraço-me, mas enfim…). Para além dos Vampire Weekend de que já aqui falei (e a que junto mais um video)…

…encomendei (talvez com saudades dos Clash) um álbum “fabulástico” do velhinho Joe Strummer com os seus Mescaleros, que inclui uma versão inacreditável de Redemption Song, de Bob Marley, e este Coma Girl

Cenas de algodão doce


Um dos meus sonhos era fazer as vozes de filmes de animação. Se fosse para uma daquelas séries japonesas de heróis aos gritos e aos pontapés, dispensava. Mas um convite para porteiro da Pixar e eu já largava tudo. Lembrei-me disto este fim-de-semana a propósito de uma agradável conversa sobre o tema “filhos” e “filmes de animação”. Não tenho filhotes, mas faço filmes na minha cabeça. Com eles. Um dia que os tenha (uma mãe também dava jeito, claro!). Já vivi momentos de grande galhofa com a pequenada da família e de outras famílias e juro que não era eu que me cansava de ler pela enésima vez os diálogos dos Incríveis em voz alta ou de repetir o Toy Story vezes sem conta (ver uma criança adormecer nos nossos braços, serena e doce, depois de minutos de risota e boa disposição, não tem nada que se compare).
Aquele é o meu universo, que hei-de fazer? Um dia, já matulão e pós-separado, recebi a aldeia dos estrunfes de prenda. Vi o Nemo duas vezes no cinema e o DVD em três línguas (a versão brasileira é o máximo, sobretudo pela Dori). Dei comigo a rir-me sozinho no Madagascar, com a criançada ao meu lado a olhar para mim tipo “este gajo passou-se, isto não tem assim tanta piada”.
Chorei e ri até me faltar a respiração com o Ratatui (em miúdo, o ET levou-me à baba e ranho de cabecinha escondida atrás de uma das colunas dos camarotes do Teatro São João, uma vergonha!). O Wall-e deixou-me sentimentalmente nas nuvens. Nada a fazer. Na minha secretária de trabalho tenho um dragão de peluche (por razões óbvias), a doce Eva do Wall-e e o Lenny, do Gang dos Tubarões. Uma das cortinas da banheira é do John Lemon, o limão mais cool da minha casa-de-banho e arredores. E cá por casa anda um pintaínho bem rechonchudo pelo chão, a que achei mais graça (3,90 euros) do que o meu gato (indiferença à borla). Um dia destes, vou colmatar duas faltas imperdoáveis: ver o Cars e o Madagascar 2. E continuar a pensar que o melhor disto é nunca deixar crescer a criança que mora dentro.

Nesta não me apanham…

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Pfffff! Uma desilusão. Peguei-lhe num quiosque e tirei-lhe a pinta ao fim de uns minutos. A Playboy portuguesa não vai muito além das mamas e penugens tratadas a licores e cremes de proveniência conhecida, das esperadas poses plásticas das coelhinhas e das habituais confissões de erotismo pacóvio. Junte-se uma entrevista de fundo com o Costinha e está feito. Nestas coisas, a memória é um fardo. A revista que já fez história, que publicou grande jornalismo, boas crónicas, e fez entrevistas de grande fôlego a figuras como Nelson Mandela e Lech Walesa, por exemplo, descambou. A versão portuguesa nem sequer se esforça para que as meninas não pareçam fora de época. O melhor é distribui-la aos quilos no Lar do Comércio ou nos centros de dia. Se não se lê, que ao menos anime.

Em “casa”

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Em Guimarães, estou sempre em casa. São os amigos que sempre me fizeram sentir assim (obrigado, vocês sabem quem são). Sexta-feira passada, entre boa conversa, cerveja fresquinha e um “cheirinho” de uma menina de 12 anos, escocesa e com rolha, ouvi deliciado histórias da fabulosa teia de personagens e figuras típicas que a cidade ainda guarda no seu território. Retratos vivos, a traço rude ou algo romântico, de existências que fazem, elas próprias, a “estória” de uma cidade. Um manancial de curiosidades e desfeitas, amores e ameaças, desencontros e vidas vividas pelas costuras. Uma galeria de vidas, sem artifícios, que quase reclamam ficarem perpetuadas no papel.