
Durante quase duas horas, José Rebelo traçou um retrato sobre o exercício da profissão de jornalista em Portugal, sem deixar de abordar, de uma forma pouco habitual e verdadeiramente desassombrada, a realidade do ensino universitário nesta e noutras áreas.
Aqui ficam algumas ideias expressas na sua intervenção:
A “experiência profissional” e a “experiência existencial” têm um valor não comparável com os saberes aprendidos em três anos de frequência universitária; Além de que “a investigação clássica reforça os egoísmos e a concorrência naquilo que têm de mais perverso”; No fundo, “a universidade não serve para formar jornalistas, não é um centro de formação profissional”. O que se espera da universidade é que, entre outras coisas, forneça instrumentos para recolha, cruzamento e análise crítica da realidade.
É necessário afastar duas tendências negativas sobre o ensino na nossa área profissional: uma, a do “teoricismo”, que tem “horror ao jornalismo e à prática jornalística”; a outra, a da “perversidade empiricista”, vulgarmente trazida à liça como “tarimba”. A chave do desenvolvimento do saber está na recusa destas posturas;
Para o estudo já referido, além de coligidos dados da Comissão da Carteira Profissional e do Sindicato dos Jornalistas, foram realizadas 60 entrevistas com profissionais das várias gerações. José Rebelo nota nas gerações mais antigas uma tendência, herdada da ditadura e do 25 de Abril, para uma maior intervenção social e política, uma maior contestação nas redacções, gente para quem escrever bem continua a ser “quase uma religião” e onde os comportamentos interpessoais assumem a forma de “uma tribo”, com espírito de grupo e solidariedade que ultrapassam, e muito, o local de trabalho. No fundo, essa geração perserva uma dimensão romântica no exercício da profissão, com todas as virtudes e defeitos dessa postura.
As novas tecnologias são aceites por todas as gerações, com diferenças. Enquanto a mais antiga olha para tudo como “um autêntico milagre”, os mais jovens olham-nas como “mais um objecto de trabalho, de alguma maneira natural e banalizado”.
As gerações mais novas surgem mais preocupadas com a organização da profissão e pouco empenhadas em manter o mito da vocação e da devoção ao jornalismo. Não confundem as relações profissionais com as pessoais e não estão dispostas a condicionar ou escravizar muito da sua vida pessoal em função do jornalismo. A relação com a hierarquia é despreocupada e indiferente, assumindo por vezes “um grau de rejeição muito grande”. Enquanto as gerações mais antigas eram mais contestárias, mas ao mesmo tempo tinham um relacionamento mais próximo com os patrões (influenciadas por um conceito paternalista de autoridade), o facto dos grupos mediáticos se terem transformado em empresas de capitais transnacionais e se diluirem, por vezes, em conglomerados onde cabem toda a espécie de negócios, faz com que nem sequer se saiba, por vezes, quem são os verdadeiros donos das empresas. “Hoje os jornalistas confrontam-se com uma sucessão de capatazes em cadeia”, ilustrou José Rebelo. E talvez por isso, seja de “repensar” a actividade sindical e adaptá-la a uma realidade em que “o capital não se vê nem se apalpa”.
O seu cepticismo quanto ao futuro próximo é indisfarçável: havendo cerca de 50 instituições públicas e privadas a “oferecer” títulos académicos na área da Comunicação Social, isso tenderá a criar um factor de enorme distorção em tempos de crise. “Será catastrófico para o exercício da profissão, uma vez que as entidades patronais terão cada vez mais à mão um exército disponível e barato”.
Segundo José Rebelo, as gerações mais novas de jornalistas têm uma tendência para uma maior “passividade e negligência éticas”, uma vez que “a prioridade é ter dinheiro para feijões”.
Curiosa é análise feita, a partir das 60 entrevistas, da relação entre os jornalistas e a política. Enquanto a geração mais antiga não abdica de uma intervenção social e cívica - embora sem querer partidarizar – as gerações mais novas preferem não dizer em quem votam “ou não votam mesmo”. Segundo José Rebelo, “há até jornalistas que consideram que o acto de votar não é compatível com o exercício da profissão”. E um dos casos, diga-se, até é público. “E sim, até tem orelhas grandes”.
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