O livro, quando nasce

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Ter um novo livro pronto deve ser semelhante a uma gravidez. Pode demorar mais ou menos de nove meses, mas passa pelas mesmas fases: alegrias, enjoos, sensibilidade à flor da pele, desejos, uma fome insaciável – e a desoras – pelas palavras e pelas frases. Engordamos de pequenas vaidades ao vê-lo crescer, letra a letra. E também demoramos a escolher o nome. Quando nasce, só o queremos ter nas mãos, dar-lhe colo, ouvir os exagerados elogios da família e dos amigos. Podem depois não gostar dele. Mas para quem o escreve, para quem lhe deu vida é a coisa mais bonita do mundo, tão nosso.
Amanhã vou entregar um livro novo. Feito de palavras velhas, retocadas nas arestas dos anos para sobreviverem e respirarem fora das ditaduras do espaço e do tempo. Vou estender os braços e pedir que o tratem bem antes de ser verdadeiramente livro. E meu. Um dia destes voltará ao meu olhar, aos meus dedos. E vou mostrá-lo aos que amo como quem leva uma criança pela mão. Fazer do livro mais do que estes pequenos afectos são manias de grandeza e posteridade. Duas senhoras quase sempre mal frequentadas. E caras.