
Uma das coisas que mais gosto nas feiras do livro é esgravatar no amontoado de volumes à cata de preciosidades de outras épocas. À conta disso, tenho meia-dúzia de livritos que dão um bom retrato das pregações que alguns autores faziam sobre os costumes, a família, a educação das raparigas e a vida sexual do nosso povo – dentro de parâmetros cristãos, claro! – no tempo em que mandava o velho professor de Santa Comba.
A minha última descoberta, porém, é mais antiga. Trata-se de um conjunto de ensaios sobre Educação, da autoria de Agostinho de Campos, jornalista, professor universitário e pedagogo falecido em 1944. O livrinho, intitulado Casa de Pais, Escola de Filhos, publicado em 1917, pretende ser um autêntico manual das relações familiares e em sociedade. E não deixa por mãos alheias, os créditos de uma época. Ora então aqui ficam algumas passagens (adaptadas para o português actual), várias delas visionárias e outras talvez desaconselháveis a almas sensíveis:
“É ou não verdade que o urbanismo conseguiu apenas disfarçar a tradicional ignorância lusitana das mulheres burguesas (…) A cidade só fornece às raparigas o mais doentio subjectivismo; e aos vícios de índole moral e intelectual daí resultantes, junta-se ainda a decadência física.”
“A menina que de pequena se habituou à bisbilhotice e não sabe acomodar-se ao isolamento e a um círculo de relações muito restrito (…) a menina a quem ensinaram todas as prendas de pechisbeque imprescindíveis a uma princesa de quarto andar (…) essa pobre menina não pode ser, ainda que o queira, uma boa mãe, e dificilmente será uma esposa útil.”
“A construção das casas burguesas é avessa à higiene física e moral das famílias.”
“O que devia tornar o país mais vivo, serve apenas para tornar Lisboa mais absorvente e mais exaustiva de energias e atenções, que por justiça e conveniência competia distribuir ao país inteiro.”
“Um país de casas enfeitadas e acolhedoras é por força uma nação ordenada e feliz.”
“Convençamo-nos todos de que cada país tem, não só os governos, mas também as escolas que merece.”
“Evitar o abuso do divertimento erudito e pedagógico (…) Defrauda a criança do seu direito e interesse de brincar também livremente, sem regra e sem sistema (…) Evitar, assim, que o tempo de brincar seja sub-repticiamente transformado em tempo de aula, o que é um roubo imperdoável.”
“O falso amor materno ou paterno não sabe ver os defeitos e os erros do filho; não sabe dizer que não, quando é preciso; não sabe castigar a tempo e horas. Dele resulta este disparate: os pais são governados pelo filho, em vez de o governarem.”
“Os pobres invejam aos ricos as suas facilidades. No entanto, a pobreza é uma educação mais tónica do que o dinheiro. Escola de energia e sacrifício, não há nada que a valha ou substitua (…) Consolem-se, pois, os pobres com esta ideia de que têm sempre à mão, na própria pobreza, uma óptima escola de realidades.”
“Além de médicas, advogadas e deputadas, convém haver também algumas mães e algumas donas de casa, pelo menos enquanto o socialismo nos não apresentar um modelo garantido de chocadeira para bébés.”
(a foto é de Leonardo Braga Pinheiro)








