
Há quem tenha grandes ambições de liderança. Coisas de topo, com carro à disposição, cartão de crédito, gravatas de seda, férias no Dubai. Há quem, no jornalismo, sonhe apresentar telejornais e coisas que tais, tão legítimas como outras. Há quem, por último, nunca está bem com a vida que tem e, mesmo sem fazer por isso, goste de ir abraçando o que cai no prato, subindo, subindo, até se estatelar ao comprido.
Eu, basicamente, tenho uma ambição: quero ser como o Quitério sem ser o Quitério. Complicado? Eu explico.
O José Quitério, mítico crítico gastronómico do semanário Expresso – que nunca vi mais gordo, mas leio avidamente há anos – encarna aquilo que eu gostaria de fazer no dia em que a experiência e sabedoria sejam salientes e já não disfarcem as gorduras do tempo: escrever sobre comeres e beberes. Rectifico: comeres e beberes, sim, mas tendo como pretexto os ambientes, a história do lugar e das gentes que o governam.
O Quitério, na arte de bem escrever o que se come e bebe, é a versão gourmet da coisa. É a ópera e o bailado da gastronomia, coisa para a qual nunca terei jeito, saber e talento. Enquanto o Quitério leva aos céus da boca, numa página, o seu apaladado saber sobre frituras e cozeduras, eu contentava-me em dançar de acordo com a música que me pusessem. Sem desprimor para o Quitério, o nosso Harvard da coisa, encanta-me mais saber – e contar, claro – uma belíssima história de família numa tabernucha simpática ou as razões pelas quais grupos clandestinos, pela calada da noite, se encontram à luz da vela num restaurante do cimo do monte para se afeiçoarem a um cabritinho de leite assado no forno, com batatinhas alouradas, como se cometessem pecado sem remissão. Isso sim, puxa-me a inspiração.
O Quitério é homem de analisar se as postas de peixe-galo estão levemente passadas pela farinha. É bem capaz de gastar três linhas a explicar as virtudes de um arroz caldoso ou o agasalho de cebolada de uns filetes de pescada. O Quitério é o inimitável, é o erudito nisto de nos sentarmos à mesa e apreciarmos “o ponto exacto da demolha” e uma “couve aferventada”. E em tratando-se de mimos, o Quitério não poupa: a carne pode bem ser “estimável” e as queijadinhas “simpáticas”.
Eu, Deus me perdoe, estou mais entre o camionista e o curioso de fim-de-semana, ainda que com farta rodagem. Para mim, a posta mirandesa pode ser bruta e mal educada desde que lhe espetem dois estalos bem dados dos dois lados da grelha, com sal. O bacalhau não precisa de saber línguas desde que venha às lascas e me conte uma história bem demolhada. Os rojões podem até estar macambúzios, desde que o espadal da Pega, em São Miguel de Seide, os anime. O arroz de carqueja pode até vir à mesa com os grãos desavindos, desde que o senhor António, do Cão que Fuma, tenha a mão de sempre. O pudim Abade de Priscos não precisa de ser praticante desde que esteja abençoado pelo Migaitas, de Braga. Os rebuçados de Portalegre não precisam de ser “atrevidos” ou “carinhosos” desde que saiam das mãos da dona Rosária. E os bolos de bolacha da minha mãe e das minhas amigas podem ser absolutamente criminosos, que a minha boca será sempre um túmulo.
Lembrei-me deste meu velho sonho de escrever crónicas de bem comer e bem viver, quando, há dias, a pretexto de uma reportagem em São Salvador do Campo (Santo Tirso), calhei de parar em Burgães, no Cá Te Espero. Eu podia esgotar o meu arsenal de mimos e galanteios para explicar o que o pernil assado no forno daquela casa faz a um homem. Isto para não falar dos grelos e do arroz de forno, que iam e vinham, ao sabor da corrente. Sobre a morcela, mãezinha dela a tenha. Enfim, não me tomem por alarve, mas a verdade é que estava tudo a a pedi-las: o que veio à mesa, a simpatia dos da casa, o afago vindo da cozinha, as estórias que por ali andam, entre família de tradição honrada, prontas, prontas a ser servidas a bem ouvir e a bem escrever, a pretexto do que se acaba de comer.
Era isto, pois, que tinha para vos dizer. Se souberem de algum sítio onde vá treinando nestas coisas de passar ao papel sabores, dedicações, aromas e tradições, não se acanhem: digam qualquer coisinha. Emprego já tenho. No resto, prometo cumprir a missão, com brio e dedicação, entre o assar e o cozer, com garfada e conversa a condizer. Palavra de homem ao lume.





