
“Lembra o tempo
que você sentia
e sentir
era a forma mais sábia
de saber
e você nem sabia?”
Alice Ruiz, poetisa brasileira
(A foto é de Nelson Silva)

“Lembra o tempo
que você sentia
e sentir
era a forma mais sábia
de saber
e você nem sabia?”
Alice Ruiz, poetisa brasileira
(A foto é de Nelson Silva)

O fogo é uma passagem para outra margem.

As cervejinhas fresquinhas a aterrar na toalha branca de papel. A fumarada dos fogareiros misturada com vozearia de crianças. Os rojõezinhos no pão, as papas de sarrabulho, as iscas de bacalhau e os beijos na dona Ana por todos estes petiscos a cinco euros que nem o mimo pagam. As sardinhas vindas do outro lado do passeio por simpatia e coração. A discussão alegrada com a Santa Rita para cá, o Vaticano para lá, o Marx à espreita e o Tony Carreira e o Roberto Carlos para dar fundo à conversa entre convertidos e outros por converter. O bagacinho da ordem na Casa do FCP e que bem que sabe nestas ocasiões. A dança das farturas com os beiços polvilhados de açucar. Os matrecos jogados de forma brava com guinadas de emoção. A roda da sorte de microfone roufenho e moçoila cacarejante. O fogo, por fim, a enfeitar o céu e a reclamar pedidos num balão. O bailarico, à tripa forra. E este carrossel de amizades, interminável e firme.

Quem disse que não há homens perfeitos?

Adoro os sábados de inaugurações de exposições simultâneas na Rua Miguel Bombarda. E com gente pendurada nos postes ainda mais. Mas o que verdadeiramente me fascina – e era tão raro no Porto há uns anos – é a quantidade de carrinhos de bébé que se cruzam nas passeatas entre exposições com gente atrevida, arrojada, divertida. Nestes dias, o Porto familiar, sereno, criativo, bonito, sorridente e estimulante cabe todo numa rua. E são dias como estes que fazem desta cidade um permanente encanto e me dão a certeza do chão a que pertenço.
