À porta

LOUCURA
Um dia gostava de escrever um livro com as histórias de todos os loucos que bateram à porta das redacções onde trabalhei para contar…a sua “estória”. A mais importante de todas. O homem que achava o bloqueio da ponte 25 de Abril, em 1995, uma “conspiração” nacional para que o seu acidente – quase mortal e sem culpa – ficasse esquecido nas gavetas dos ministérios. A madame falida da Foz que queria denunciar o facto de ter sido violada por um político de serviço, dos mais importantes, a ver se lhe sacava uma fortuna. O tipo das contas secretas de gente famosa na Suiça e no Luxemburgo que levava uma teoria de encomenda a ver se os jornalistas escorregavam. O sem-número de amigos dos amigos que pedem para sair alguma coisa sobre a exposição que ninguém viu, do pintor que ninguém conhece, mas “há-de ser”. O militante do partido X que se vai candidatar à secção Y da freguesia Z para “acabar com a corrupção em Portugal”. O “pensador” que não queria cargos, nem mesuras, nem benesses, mas fazia qualquer coisa, até conferências, para chegar rapidamente a deputado do partido que o quisesse. Os diversos teóricos da conspiração. Os muitos teóricos da transpiração (dizem normalmente que subiram na vida a pulso). E os que buscam apenas no jornalista companhia para uma conversa contra a solidão.
Nunca dei este tempo por perdido, mesmo que as “estórias” nunca tenham sido convicentes, verosímeis ou publicáveis. Interessantes são sempre, pois todos estes homens e mulheres – e mais uns quantos – continuam a permitir-me uma visão privilegiada sobre a vida, a humanidade e as suas contradições. Por vezes, dei comigo a encher blocos de coisa nenhuma. Mas arquivei todas estas figuras, algumas castiças, para que nada se perdesse neste exercício de coleccionar vidas. E as “estórias” dentro delas. E isso, pelo menos por respeito a algo genuinamente humano, feito da existência do que fantasiamos. Para sobreviver.

(a foto é de Little TroubleMan)

3 Respostas para “À porta”

  1. para não enlouquecer de vez…quem sabe?

    csd

  2. Zaclis Diz:

    Seria delicioso ouvir essas histórias em tua linda narrativa. Quero ir ao lançamento deste também.

  3. e quantas vezes essa fantasia não é uma espécie de um escape inocente para problemáticas mais profundas…

    de qualquer forma, e por causa desse contacto privilegiado com pessoas, desse ouvir-como-profissão, é que encarei um dia a possibilidade de ser jornalista quando crescesse.
    mas depois desisti de crescer e decidi ficar bióloga-menina para todo o sempre.
    não obstante, e para uma pessoa crescida, tenho a certeza que o jornalismo deve ser uma profissão bem interessante.

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