Desconforto, esse lugar respirável

TEATRO
Um dia, no ano de 2006, fiz um workshop de poesia performativa com o João Negreiros (de novo premiadíssimo no Brasil pela sua poesia) e isso ia mudando a minha vida. Descobri, em três meses, que o corpo e a alma podem ser felizes mesmo quando habitam lugares de desconforto (Percebi também que, às vezes, o conforto é a verdadeira morada do desassossego, uma confiança higienizada, impermeável à vida). A dada altura, deixei que o João, brilhante como é, fizesse de mim gato-sapato nos ensaios e em cena. Era o que ele queria. E garanto que descobri coisas que nem imaginava acerca desta coisa das palavras nos tomarem conta das entranhas. Não fosse a escrita já saber dos cantos à casa dentro de mim e talvez me tivesse fugido o pé para outras artes, nem que fosse para me estatelar ao comprido…

Deu-me, pois, um mistozinho de saudade e alegria, regressar ontem ao auditório do Teatro Universitário do Minho, em Braga, para assistir à interpretação da poesia do João pelo elenco do TUM. O espectáculo intitula-se Inspiração é Respirar e confesso que não oferece comparações com o meu tempo: estas interpretações atingem o pedacinho de céu que o João procura e trabalha em cada pessoa que a ele se entrega, sem “ses”, nem “mas”. E agora com mais tempo e disponibilidade de quem lhe passa pelas mãos, tudo parece possível. Cinco actrizes, jovens, contagiam quem as ouve e vê com alguns sobressaltos de coração, angústias de pele e ternuras inocentes. Não é apenas um espectáculo credível, pela amostra de veia solta ou entrega de corpo. É um espectáculo de uma intensidade capaz de, a qualquer momento, nos tirar do sítio, do conforto e da serenidade de espectadores passivos. Num espectáculo do João, com gente que anuncia talento como esta, somos todos cúmplices. Ou então já estamos mortos.

Se puderem, não percam: até dia 25, em Braga, às 21.30. Depois, eles vão andar por aí…E eles são, na verdade, elas, tão intensas como uma entrega incondicional. Aqui ficam os seus nomes. Obrigado, eu!

Ana Catarina Miranda
Andreia Dantas
Catarina Rocha
Dina Costa
Eduarda Freitas

4 Respostas para “Desconforto, esse lugar respirável”

  1. zaclis Diz:

    Foi muito bom.
    A atuação da Edu rendeu conversa até Vila Real, passando por sessões de exorcismo, gargalhadas e juras de quero-te-ver-novamente.
    Um certo “D” ficou à nossa espreita… O que será essa palavra que começa com tão singela letra e resume a intimidade de nossa amiga? Fui escalada para obrigar o autor do sugestivo “D” falar.

    Ficou uma vontade: te ver no palco a dançar com as folhas :)

  2. Vânia Diz:

    Desassossegados, somos todos quando deixamos cair os “ses” e os “mas”, ou, na minha língua, os com’s. E é tão desproporcionadamente tudo, quando acontece.
    Ficamos à espera do Dê. No Dia D :)
    Vá, Miguel deixa esse com…
    Abraço.

  3. Eu tb gostei muito da actuação dess grupo fantástico dirigido pelo poeta João Negreiros :)

  4. Falto eu!!!!!
    Tal como uma criança deslumbrada. Foi assim que me senti.
    Durante longos minutos, confesso.

    Mas logo, algo me acordou, a curiosidade aguçada pelo “objecto D”……

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