Arquivo de Outubro, 2009

Aqui…em Braga e Famalicão

Posted in devida comédia with tags on 31/10/2009 by Miguel

BRAGA
Quinta e sexta, houve mais duas sessões de apresentação do “Aqui na Terra”. Na Centésima Página, em Braga, o professor Manuel Sarmento fez as despesas relativas à leitura das “estórias” do livro. Com alguns pedaços de bom humor e ironia, ele deu também o mote para as conversas que se seguiram e que se prolongaram por duas horas. O borbulhar foi intenso. Sobretudo a propósito do País, do jornalismo e dos tais futuros que já não são como antigamente, embora possam e devam ser reinventados. Ah! E é sempre bom cair de novo nos braços da Centésima, projecto resistente e corajoso da Sofia e da Maria João.
Depois, pela mão da Cátia, querida amiga e jornalista da nova geração, a conversa continuou à mesa, num restaurante indiano a pedir nova visita. Paulo Sousa, velho camarada de escritas e outras lutas, juntou-se à liça, com o António e a Paula, da Deriva. E em fundo, a cereja no bolo: filmes à la Bollywood.

FAMALICAO-I

Já na Biblioteca Municipal de Famalicão, na sexta, o momento pedia outra solenidade. A noite começou ao jantar num dos santuários do palato desta terra minhota, o restaurante Sara Barracoa. Se já alguma vez provaram adqueles rojõezinhos que se desfazem levemente em fiapos e depois na boca, sabem bem que estes lugares têm o seu quê de divino. Juntou-se a nós o Padre Salvador Cabral, figura bem popular por estas bandas e com um historial de contribuição cívica e cidadania de meter respeito, desde o tempo em que, em Angola, dava que fazer à PIDE com a publicação dos seus livros. Mesmo adoentado, lá fez par com a Cláudia Sousa Dias para a apresentação do livro. Leram-no até às entranhas, verdade se diga. E, pela primeira vez, as conversas destas apresentações foram navegando no mar encapelado da religião. Sim, Saramago veio à baila, claro. E o padre Salvador, apesar de ressalvar a importância do diálogo “entre a terra e o céu”, lá lembrou que “não devemos pregar para as nuvens”. Até porque há gente…aqui na terra. As vozes do coro infanto-juvenil da paróquia de Nine ficaram reservadas para o final, caminhava-se já para a meia-noite. Mas como se viu e ouviu, valeu a pena esperar. Duas notas ainda: uma, para a simpatia e o acolhimento da Carla e do Hilário que, em nome da biblioteca Camilo Castelo Branco, propiciaram uma noite de boa tertúlia. Outra nota ainda para o facto deste espaço acolher, com esmero e dedicação, o espólio de Eduardo Prado Coelho. E andam por ali algumas preciosidades. Anotadas e comentadas.

(Como se pode ver pelas ilustrações, o António não precisa de GPS para captar a alma e os momentos dos lugares por onde temos passado :) )

Os elementos do Jornalismo – III

Posted in devida comédia with tags on 31/10/2009 by Miguel

JORNAIS-IV

“A conglomeração do negócio jornalístico ameaça a sobrevivência da imprensa enquanto instituição independente, à medida que o jornalismo se transforma numa actividade subsidiária de grandes grupos empresariais que perseguem fundamentalmente outros objectivos comerciais. Esta conglomeração e a ideia que suporta muitas das sinergias empresariais no mercado das comunicações – de que o jornalismo é simplesmente conteúdo ou de que os media são todos iguais – dão origem a outra perspectiva (…) A questão que se coloca é: poderá o jornalismo manter, no século XXI, a finalidade que o moldou nestes últimos três séculos e meio?”

Bill Kovach e Tom Rosenstiel
Os Elementos do Jornalismo – O que os profissionais do jornalismo devem saber e o público exigir (Porto Editora)

Quasi

Posted in devida comédia on 30/10/2009 by Miguel

RAB-CAPA
Parece que a editora Quasi, o projecto que nasceu pela mão de valter hugo mãe e Jorge Reis-Sá, vai fechar. O processo de falência está em curso, segundo algumas notícias. Sei outras coisas que habitualmente se dizem por estas alturas, por inveja ou por necessidade de coçar o rabo pelos cantos. Não me interessam, confessso. Sei uma coisa: basta olhar para a história da Quasi para perceber que faz falta uma editora assim. E a culpa, em algum lugar, há-de também ser nossa. Pelos livros que não lemos. Ou sobre os quais não escrevemos. Ou que não partilhamos com quem amamos. A tempo. Contra mim falo: ando há meses, no meio da minha vida destrambelhada, a tentar arranjar as horas mansas e o espaço digno para uma pequena conversa com a Rosa Alice Branco, uma das poetisas a quem agradecerei eternamente a esta editora ter conhecido. A Rosa tem um livro novo há poucos meses, na Quasi. Chama-se O Mundo não Acaba no Frio dos Teus Ossos (com a belíssima capa da Joana Quental que podem ver acima). Por ternura da Rosa, li-o e amei-o antes da luz do dia e deste tempo fúnebre. E antes que o título me parecesse – como me parece agora – tão simbólico. Agora sinto que não falei dele e dela a tempo sequer de salvar um verso deste atropelamento mortal. Mas como o valter disse uma vez, a pretexto de uma pequena editora sua que também morreu no “trânsito”, assim são as estradas de Portugal. E neste retrato, estamos todos.

Não faltar

Posted in devida comédia on 30/10/2009 by Miguel

TRES
Afinal, talvez ainda haja futuros como antigamente…

Miguel Real na Comunidade

Posted in devida comédia with tags on 30/10/2009 by Miguel

BANDEIRA-I
Na sessão preparatória, houve debate aceso, polémica e artilharia argumentativa de meter respeito. Ou não fosse o tema…Portugal. O escritor Miguel Real estará presente na Comunidade de Leitores da Livraria Almedina do Arrábida Shopping, em Gaia, para explicar, de viva voz, o que é isso d’ “A Morte de Portugal” (Campo das Letras). Conversa divertida, irónica e muito, muito séria sobre os complexos e os desígnios deste País, antes e depois de Sócrates-I, o tecnológico. A não perder, este sábado, às 17 horas.

(a foto é de Pedro Monteiro)

Senhor, pequei

Posted in devida comédia on 30/10/2009 by Miguel

LAGAR
Dois dias por entre Douro e Minho. À cata de coisas de açucar, para contar um destes dias. (“É um trabalho difícil, mas alguém tem de o fazer”, rezava um certo slogan). A dada altura, depois de tantas provas e doçuras afins, julguei vir a rebolar até casa. Tudo fruto destas perdições confeccionadas por mãos sábias e pacientes, como quem ama lentamente. E nós, ali, à mercê. Sempre à mercê. Mel em figura de gente, é isso. Por vezes, para desenjoar (palavra linda) o corpo já reclamava, ansioso, paladares de fumeiro, nacos temperados na brasa, salgadices de chorar por mais. Felizmente havia o “Bons Tempos” em Vila Real, com um arroz de carqueja divino, que se prestou a variadas coreografias de mesa, devidamente acompanhadas. Felizmente existe também “O Lagar”, em Moncorvo, com a posta que podem conferir na fotografia, na versão pré-gulodice, com batatinhas alouradas a fazer cócegas às vistinhas. Mas não só: por lá continua a Susana, a servir às mesas com o sorriso inesquecível de sempre, pelo menos desde 1997, a primeira vez que entrei naquele santuário (tem um dos melhores molotoff que já provei). Em lugares como este, a ementa não fala. Nem precisa. Há rostos que já trazem tudo escrito quando nos recebem. E nessas alturas, não escolhemos. Escolhe o coração. (agora, se me dão licença, vou ali expiar os meus pecados…)

Os elementos do Jornalismo – II

Posted in devida comédia with tags on 27/10/2009 by Miguel

JORNAIS-III

“A noção de que algumas pessoas são pura e simplesmente ignorantes e outras estão interessadas em tudo é um mito (…) Um jornalismo que se concentra apenas na elite especialista – nos interesses específicos – poderá ser, em parte, responsável pela desilusão do público. Este tipo de imprensa não reflecte o mundo tal como a maioria das pessoas o vive e sente. Uma cobertura política centrada em considerações tácticas, dirigida aos especialistas no assunto e que abandone o público meramente interessado ou mesmo desinteressado, está a faltar às responsabilidades do jornalismo. Um jornalismo que orienta todas as notícias para as grandes audiências – tratando apenas de escândalos – está a ignorar, na verdade, grande parte do público (…) Os requisitos da velha imprensa – servir os interesses de uma comunidade o mais alargada possível – mantêm o mesmo vigor de sempre”.

Bill Kovach e Tom Rosenstiel
Os Elementos do Jornalismo – O que os profissionais do jornalismo devem saber e o público exigir (Porto Editora)

Da minha gaveta – XXII

Posted in devida comédia with tags on 27/10/2009 by Miguel

CAMA-I

Devíamos acordar mais vezes juntos

I
Primeiro, pensei comprar-te um postal.
Desses lamechas que dizem volta depressa.
Depois veio à ideia um amuleto,
para proteger contra a ausência.
Preferi embrulhar-te em palavras,
daquelas que, às vezes, não param em casa,
mas se enfeitam fora, nos livros, para levar como merenda.
Talvez assim as frases possam ter agasalho e mimo.
Ou falar-te ao peito em sussurros.
Deixa que estas palavras te levem.
Mas não as deixes ao frio.
Eu sinto.

II
A comida não me vai saber a nada, já sabes.
Posso tentar caprichar,
fazer de conta que os vapores anunciam pitéu de estalo.
Mas não vai saber a nada.
Não tenho o teatro de nós na cozinha,
a encenação deliciosa de tachos e avental.
Por estes dias,
vou ensaiar de novo a tragédia do meu refugo emocional,
meu monólogo até ao osso, minha vida sem sal.

III
E agora, com quem me aborreço?
Como abraço essa tua mania de passear pela vida,
desajeitando os dias?
Deixaste as luzes acesas.
As migalhas no chão.
A camisola amarrotada.
A toalha fora do sítio.
As minhas noites em desalinho.
As horas, vadias.
Anda.
Tenho saudades de arrumar o teu mundo.

M.C.

(a foto é de Manu Loureiro)

Prometes?

Posted in devida comédia on 27/10/2009 by Miguel

LA
“Esta é a minha última entrevista”
António Lobo Antunes ao Diário Económico, 24-10-09

O padre

Posted in devida comédia on 27/10/2009 by Miguel

CRUCIFIXO
Na aldeia dos irredutíveis de Couto Dornelas descobriram-lhe algumas tentações do demo vai para quatro anos. Ninguém ligou, mas, por motivos vários e suspeitas fundadas, não mais o quiseram lá. Pediram a sua substituição ao bispo e o prelado arquivou-a, sem perdão. Agora, o mesmo padre foi apanhado em Boticas com um arsenal militar de fazer inveja aos nossos mercenários de trazer por casa. E o que mais eventualmente se saberá. O bispo de Vila Real, parcimonioso, veio em defesa do pastor e do rebanho, como é de lei. E admite que o pároco ande apenas embrulhado “num negócio atrevido” de armas de caça entre amigos. Ah! Então é isso…Que malandro, este padre com nome de Guerra! Ele metido em liturgias de lebres e perdizes e nós a pensarmos que a GNR tinha deitado a mão a um Rambo de batina.

(a foto é de Fernando Manuel Oliveira Pinto)