Estes gajos não passam de moda. Nadinha. Oh, the night before…
Arquivo de Novembro, 2009
Goooooood Morning!
Posted in devida comédia on 26/11/2009 by MiguelAfter caos…
Posted in devida comédia on 26/11/2009 by MiguelTerminaram as obras. O gato lambe as patas de cada vez que o pó o incomoda. Anda doido, desorientaram-lhe o coração, o faro. A desarrumação é tal que quase preciso de um mapa para me orientar em casa. Nos últimos dias, deixei a minha vida pendurada, em suspenso, a ver se a arrumava num cantinho que sobrevivesse ao caos. Tudo voltará ao normal, eu sei. O gato já anda à cata dos seus lugares de preguiça e meiguice. O amarelo foi retocado e continua, radiante. Há uns aparelhos novos porque tem de ser. Já está calor aqui. Haverá novas palavras de parede. E conversas e afectos que não mais deixarei ao frio.
Ainda há futuros como antigamente? – VIII
Posted in devida comédia with tags Ainda há futuros como antigamente? on 26/11/2009 by MiguelOs sonhos, dez anos depois
O jantar em casa do Jorge foi uma verdadeira festa para o palato. A confecção dos pratos, a cargo do anfitrião, com o precioso auxílio das mãos de Carina, a assistente do chef. Naquela noite, provei o melhor arroz à valenciana da minha vida. A carne assada, os legumes salteados, a salada não lhe ficaram nada a dever. As sobremesas, trazidas pelos convidados, davam o toque final àquele festim pantagruélico.
O objectivo da reunião era juntar os amigos de há mais de quinze anos, do tempo da faculdade, cujos laços se prolongaram muito depois da data da queima das fitas. Nos últimos anos, porém, a ligação entre as pessoas parecia estar a afrouxar, de uma forma lenta, gradual e progressiva, fruto da pressão imposta pelas necessidade de carácter profissional a separarem vidas e sonhos em comum.
No início do milénio, alguns anos depois de acabarem as licenciaturas, todos irradiavam ainda energia, vitalidade, capacidade empreendedora e forte sentido crítico. Deles, esperava-se carreiras brilhantes, continuadoras de um caminho, já trilhado pela bitola da excelência.
Mas naquele dia, sentada à mesa na casa do Jorge, em Esmoriz, o trigo parecia não ter crescido conforme se havia semeado. E a terra, mimada e cuidada em extremo, teimava em não dar os frutos esperados.
Jorge tem prosseguido firmemente na carreira de professor, aparentemente assegurada por um desempenho profissional irrepreensível, antes e depois da implantação do actual – e mais do que controverso – sistema de avaliação de professores. Dos restantes convidados falarei mais adiante.
Durante a refeição, discutiu-se política, economia e a crise, a corrupção endémica e tentacular, a (suposta) divisão de poderes entre os vários órgãos governamentais, a sucessiva dos direitos constitucionais (na prática, como sabemos, uma vez que, formalmente, ainda se encontram em vigor). A tónica dominante era o pessimismo, a insegurança e o medo em relação ao futuro. Para alguns deles, os negócios não crescem tanto quanto seria de esperar. Mas apesar de a situação não estar má, a incerteza rouba-lhes o sono. E, pelo que vejo, a alegria.
Estou na ponta da mesa e entabulo conversa com Marco André, com quem já não falava há meses. Uma transferência no local de trabalho, devido a um conflito com o chefe colocou-o atrás de um balcão como recepcionista, passando a maior parte do tempo a tirar fotocópias. Marco tem uma pós-graduação no currículo, oito anos à frente da direcção de um museu e domina cinco idiomas. Mas tudo isto não parece constituir uma alavanca suficiente para deixar de ser técnico administrativo e usufruir das regalias destinadas às funções de técnico superior.
Carina comenta, divertida, a forma como surpreende, de quando em vez e não sem uma ponta de malícia, o chefe a jogar solitário no computador durante a hora do expediente, enquanto goza de um cómodo salário de 3000 euros. A jovem finge não perceber. Nas horas de tédio, o chefe sai do gabinete para meter conversa com Carina e as restantes funcionárias administrativas: “Acho que não aguentava ficar oito horas a olhar para um computador”. Algumas sufocam uma gargalhada.
Eu e Marco André divertimo-nos com comentários picantes acerca de algumas “ligações perigosas” dentro daquela organização. Como o da funcionária que entra no gabinete do chefe com leggings e sai sem elas…
Mariana pronuncia-se sobre as uniões de facto e os casamentos dos homossexuais, exprimindo-se com a saudável rebeldia e irreverência de uma alma que ficará eternamente ancorada na juventude…
Natália, a aluna mais brilhante, nos meus tempos do liceu e, depois, na faculdade, refugia-se na sombra dos seus pensamentos, soltando por vezes uma frase de ironia arrasadora…
Estou a abusar das reticências. Influência de Céline.
Em suma, enquanto os convivas continuam a desancar nos políticos, à esquerda, à direita e ao centro, eu e o meu amigo de longa data dissertamos sobres as razões dos desajustamentos emocionais que levam as pessoas a afastarem-se, nos nossos dias. Analisámos caso a caso. Fazemos autênticas autópsias de relacionamentos. As orelhas dos restantes convidados começam a voltar-se na nossa direcção. Não falta muito para sermos expulsos da mesa. Parecemos mesmo as comadres da aldeia, apesar de falarmos para nós e não para os restantes convidados. A gaffe é imperdoável, mas o facto é que a política, a crise, a economia e os negócios já me esgotaram a paciência e não consigo explorar um assunto quando começa a entediar-me.
Para dizer a verdade, estava-me a causar calafrios na espinha o facto de cada um deles ocultar cuidadosamente as suas vidas, o seu íntimo. E não ouvir nunca palavra mágica: prazer. Ou então: amor. Não ouvi uma única vez: “Adorei ter feito isto”. Ou: “Aquilo foi maravilhoso”.
Excepto num único ponto. O jantar. A comida na mesa. Feita com amor. Só pode.
No mais, os afectos parecem estar congelados. Ou então cuidadosamente encerrados no sótão da obscuridade. Ou no mundo onírico de Dalí. Ou Freud.
Retirei-me um pouco para a biblioteca do anfitrião, com o pretexto de postar algo num blog. Queria reflectir um pouco. Olhar para dentro. Pensar.
Faltara ali o fogo de uma lareira imaginária para incendiar e derrubar os muros que construímos para nos escondermos do Outro. Como Adão e Eva, quando decidiram sair do Paraíso.
As nossas almas vestiram-se de folhas de figueira. A inocência dissipou-se.
E, passo o sincretismo, Afrodite não parecia ter lugar àquela mesa, naquela noite. Se calhar não foi convidada. Nem mesmo a maternal Deméter.
Será que, num futuro muito próximo – ou hoje mesmo em tempos de crise -, o amor é um luxo a que, quem tem fome, não pode aspirar?
Cláudia de Sousa Dias
www.hasempreumlivro.blogspot.com
(a foto é de Pedro Norton)
Ainda há futuros como antigamente? – VII
Posted in devida comédia with tags Ainda há futuros como antigamente? on 25/11/2009 by MiguelO interminável tempo antes do futuro
Foi numa conversa entre minha mãe e a vizinha que descobri que algumas mulheres queimaram seus sutiãs em protesto contra alguma coisa. Uma maldade, pensei. Eu estava naquela idade de tábua, sem nenhum tipo de enchimento, sem graça, perna de saracura, peito de pardal. Época na qual o futuro seria inaugurado no momento que pudesse depilar as pernas e usar sutiã. Os dias passavam lentos…
Para minha mãe, ter futuro era casar com médico ou militar. Confesso que durante algum tempo gostei de uniformes. Curei-me.
Uma de minhas irmãs quase satisfez o sonho da mãe. Namorava um cadete de um quartel distante. Ela escrevia cartas longas e misteriosas. O rascunho era picado miudinho e jogado ao vento. Tentei por várias vezes descobrir os segredos daquele amor enquanto o meu próprio tempo de amor não chegava.
Para o meu pai futuro era estudar. Eu era uma boa aluna. Todos gostavam de mim, menos a professora de inglês (eu preferia o francês). Em todas as aulas eu era escolhida para ler um trecho da lição. Entre meus grious, teibô-ou e friéndes, as risadas se espalhavam. Eu ria também, mas de nervoso. Foi quando descobri que se não é possível vencê-los é prudente aliar-se a uns e distanciar-se de outros. Comecei minha vida de rebeldia. Mascava chiclete nas aulas – o que me rendeu várias páginas de caderno com a frase: não devo mascar chiclete nas aulas de inglês – e comecei a fumar no banheiro da escola um cigarro mentolado ardido.
Quando estava decorando as fórmulas para o vestibular ouvi novamente sobre as mulheres que queimaram seus sutiãs. Descobri que ninguém tinha falado sobre elas durante o ginásio porque naquela época falar sobre o assunto era rebeldia, assim como mascar chiclete nas aulas de inglês ou fumar escondido no banheiro.
Enfim, as tecnologias dos tecidos e das estruturas tornaram muito caros os sutiãs para que se deixem ir à fogueira em nome de uma causa. Aliás, nos tempos do silicone e do botox as causas e o futuro deixam de existir. O futuro é um tempo indesejado, pois significa menos tempo e as causas fazem perder tempo.
E sem futuro e causas, vive-se intensamente o presente. Não se sabe mais o que pode ser para sempre, pois para sempre é longe demais.
Mulher atualizada vivi essa ânsia do presente em busca da imortalidade até o dia em que meu passado foi arrombado, remexido e chacoalhado. Percebi então que posso trazer os dias nas pontas dos dedos, mesmo sobre as marcas indeléveis deixadas no coração. Livre, permito-me conjugar o futuro.
Zaclis Veiga
www.operadorfotografico.blogspot.com
Foi bonita a festa
Posted in devida comédia on 25/11/2009 by Miguel
O Piolho cheio. Amigos de longa data e muitos curiosos. O livro, lindo. As palavras que o Alfredo Mendes merece. E a homenagem justíssima à sua grande escrita, à capacidade de fazer memória e de olhar os lugares a partir das pessoas. Piolho – Cem anos de vivências (Âncora Editora) estará à venda dentro de dias. (Não fosse eu ter confundido um copo de shot como sendo café e tinha sido uma noite perfeita…)
Bom-dia! E se chover, não molha…
Posted in devida comédia on 24/11/2009 by Miguel
Ceumar para vocês. Uma das afilhadas de Zeca Baleiro. Não sei se a encontram por aí nos escaparates. Ah!, mas se encontrarem…digam que vão daqui.
Ainda há futuros como antigamente? – VI
Posted in devida comédia with tags Ainda há futuros como antigamente? on 24/11/2009 by MiguelQuando me foi lançado o desafio com a frase “Ainda há futuros como antigamente?” a primeira ideia que me veio à cabeça foi responder com um “já tenho saudades do futuro”. Por sua vez, o futuro surge muitas vezes associado à esperança. E quando me falam em esperança, penso em Raoul Vaneigem “a esperança é a trela do homem”. Frase sinistra e derrotista, não? Até dá vontade de ganir (por ser verdadeira, talvez?).
Mais achas para a fogueira: há por aí uns tipos que defendem que “a História não se repete” (coisa em que não acredito), logo não pode haver futuros como antigamente. Afinal ela não se repete… Esta parece-me uma equação fácil de fechar.
Esta pergunta remete-nos também para a questão do Tempo. No que ao relógio diz respeito, o futuro antigamente ficava mais distante, era mais lento, isto é, demorava mais tempo a concretizar-se. Era preciso dar corda aos relógios, coitados, ainda não se tinham inventado os de quartzo. Assim, às vezes esqueciam-se de dar corda e, então, o futuro atrasava-se. (“Ainda não está pronto Sr. António, volte cá prá semana. O raio do relógio está sempre a parar!”). Hoje é ligeiramente diferente (pudera! hoje até temos relógios atómicos, vrruum). Parece-me que o futuro está à porta de cada vez que saímos de casa.
Conclusão diferente tem a minha vizinha do 3.º esquerdo (a velha nunca sai de casa) que passa a puta da vida a repetir: “Já não há futuros como antigamente, antigamente é que era.” Ou o Sr. José lá do café central: “Isto já não é como antigamente. Antigamente olhava para o futuro e via o Benfica campeão, agora népias. Dou graças a Deus por nunca ter prometido não aumentar o café enquanto o Benfica não for campeão, chiça, que me livrei de boa!” (Tenha calma Sr. José, acredite em Jesus. No que pinta o cabelo, é claro.)
Mas no fundo, no fundo (sejam honestos, o que é que respondem quando vos perguntam pelo futuro?) desejamos o mesmo de sempre: “um futuro melhor”. Qual Miss Mundo em discurso de vitória. Frase insípida, gasta e esbatida, ainda hoje muito em voga e que, por isso, me leva a concluir que “ainda há futuros como antigamente”. Há, sim senhor. Depois ainda dizem que a História não se repete…
Marco Santos
http://novaziodaonda.wordpress.com
(a foto é de Carlos Tinta)
O Piolho, pelo Alfredo
Posted in devida comédia on 24/11/2009 by MiguelPode nunca ter sido o nosso café. Podemos ter roubado beijos noutros lados ou marrado nas matérias em distantes sítios fechados. Mas o Piolho há-de ter uma “estória” só nossa, um pedacinho do Porto que fomos e somos, durante as nossas vidas. O Piolho anda em festa há meses. Cem anos é coisa para celebrações de arromba. E o “café dos estudantes” tem razões para tal, agora que gerações voltaram a incluí-lo na geografia sentimental, nesta coisa de amar e viver a cidade até à exaustão.
Esta terça, porém, eu tenho outro motivo para lá voltar. O meu querido amigo e camarada de ofício, ALFREDO MENDES, uma das minhas maiores referências jornalísticas, vai apresentar o seu livro sobre os cem anos do Piolho. Uma obra que é, no fundo, a história de momentos da cidade vistos de um café, de sobressaltos e tradições à conta de “cimbalinos” e finos, entre conspirações e dádivas de coração. Às 21.30 desta terça, voltarei ao Piolho. Porque um café, como diz o Alfredo, é um património único de humanidades.
Ainda há futuros como antigamente? – V
Posted in devida comédia with tags Ainda há futuros como antigamente? on 23/11/2009 by Miguel– Quando formos adultos e casarmos…
Tu interrompias-me, com um trejeito de amargura que me deixava triste. Uma amargura impossível para alguém que ainda não viveu. Porque não acreditas em nós, no futuro? Respondias-me que te magoava de mais, que, se ainda estávamos juntos, era apenas por gostares tanto de mim. Como se esse amor não tivesse nada a ver e fosse uma doença que tivesses de tratar. Não vês que éramos duas crianças? Que eu não sabia gostar melhor de ti? Mas gostava, com o corpo todo. E os corpos, esses, usámo-los bem, para contar a nossa história. Para provar um ao outro, para nos provarmos e experimentarmos tudo o que havia a experimentar com as bocas, as pernas, os braços, as mãos.
Tu eras já uma mulher quando notei o volume sobre a tua t-shirt amarela, lembras-te? Escondias o corpo que se ondeava, envergonhada com as formas redondas que não tinhas como esconder, no calor do verão. Eu maltratava-te, com a minha falta de jeito, mas éramos o par de namorados mais famoso do colégio. Invejavam-nos. Suspiravam por um amor assim, tão cheio de ânsias, lágrimas e escândalos.
Já não há futuros assim. Porque eu acreditava que, por mais desajeitados que fossemos, iríamos aprender juntos a arte de viver. Porque me entraste na pele, atravessaste todas as minhas células e ficaste aqui, no núcleo de mim. Fui sendo várias pessoas, agigantando-me, aprendendo a ser o que não sabia ser contigo. Hoje a carne não é a mesma, tem história, tem tempo. Mas quando lhe pergunto se ainda te conhece, diz-me que está contigo todos os dias, sem que eu saiba, cúmplice daquele outro bocado de matéria, feito de válvulas atravessadas pelo sangue, aquele pedaço pulsante para cima do qual atiram as culpas do amor.
E esse, o coração? Esse ri, espantado com a minha inocência, por ver que entreguei ao tempo a responsabilidade de te arrancar do corpo. Como se ele, o tempo, fosse aspirador que aspirasse a ficar com a nossa história, sorvendo-a, camada por camada, até conseguir ver os nossos dias numa tela de cinema, porque fomos um filme invulgar, irrepetível. Não, o tempo não conseguiu penetrar-me como tu. Continuas aqui, no núcleo do que sou, na carne, na memória. Entras-me nos sonhos com o à-vontade de quem pertence à casa, com a destreza de quem nunca chegou a sair. E a cada vez que te visito, sempre me espanto e digo para comigo: parece que foste ontem. Que faço eu com este nosso futuro mais que perfeito, que tenho dentro?
Não, não te mexas. Não saias do meu corpo, por favor, mas não entres na minha vida. Deixa estar assim, este amor sublime na distância, sem a vulgaridade dos dias, como quem ama o mar ao longe. Não me digas a verdade, não me recordes. Hoje eu sei, juro-te que sei, pois o tempo, finalmente, passou por mim também. Deixa-me viver a vida dos outros, a vida que se espera de nós, e voar para dentro de ti de vez em quando, para te fazer criança outra vez. Deixa que sejamos reticências, onde tudo cabe, até o futuro que poderíamos ser, mas que não seremos nunca. Estamos presos num castelo de gestos infantis, que erigimos num tempo sem muralhas. Fui ponte levadiça e deixei-te entrar. Encerrei-te dentro de mim para sempre.
Por isso deixa estar assim. Deixa que o fosso da vida corrente se afaste de nós, para continuarmos reis do nosso castelo. E serás um Passado sempre presente, pois se abalássemos dessa fortaleza elevada em direcção à planície, que faríamos nós dessa paisagem? Para quê trocar um refúgio de memórias, pelo refugo dos dias? Quando a amargura do tempo tenta arrancar-me o desejo, o desejo mais profundo, lembro-me de nós. E torno a pegar nos braços, chamando por ti, para construirmos juntos um novo castelo. Perdoa-me, sim? Por insistir em construir, dentro de mim, todos os futuros que desperdicei.
VERA DE VILHENA
http://veravilhena.blogspot.com/
(a foto é de Fernando Figueiredo)





