Da minha gaveta – XXV

ALVARO-RIOSECO

Amanhã

Esta noite tenho um poema a mastigar o vidro. E cavalgo a frase ainda na boca. As palavras cansam-se e eu não morro dentro delas. Os silêncios caíram de pé, exaustos. E amanhã o arrebatamento estará, de novo, ao serviço. As promessas mais belas já serão de ontem. Duras, como versos ressequidos. Podes procurar. Não encontrarás sequer um beijo nas gavetas. Nem o que restar de ti, nelas. Agora é tarde, meu amor: já não se põe o avental ao pêlo e a paixão ao lume, mexendo bem.

M.C.

(a foto é de Álvaro Rioseco)

5 Respostas para “Da minha gaveta – XXV”

  1. em todas as erstórias o final deixa sempre um leve sabor a cinzas.

    csd

  2. zaclis Diz:

    Gaveta à bruta. Ou melhor, abrupta.
    Não tenho certeza se a foto (que também é bruta) é perfeita para o texto.
    Se não te conhecesse diria que sim. (embora nunca tenha me deparado com essa tua gaveta)
    A foto me fala de uma mulher jogada à janela, como um cobertor ou uma toalha. Objeto de uso que a chegada da manhã coloca de lado. Espaço de passado, sem lugar para o reflexo. Aquele que a usa não se apercebe, nunca se vê. Não há espelho nessa relação – e as relações não existem sem que nos espelhemos nos olhos do outro.
    Ou talvez eu esteja enganada e a mulher seja o teu lado mulher…
    Ou talvez eu esteja exagerando… A semiótica faz isso com as pessoas, as enlouquece.
    beijos para ti querido

  3. A gaveta está com a determinação de quem não tem nem pode ter coração. A mulher da foto está com a determinação de quem não sabe o o não ter coração da gaveta.

  4. “o não ter o coração da gaveta”.

    será asim a sintaxe?

    se for o aforismo é perfeito.

    pelo menos do meu ponto de vista.

    :-)

    csd

  5. Efectivamente era essa a sintaxe.

Deixar uma Resposta