Da minha gaveta – XXV

Amanhã
Esta noite tenho um poema a mastigar o vidro. E cavalgo a frase ainda na boca. As palavras cansam-se e eu não morro dentro delas. Os silêncios caíram de pé, exaustos. E amanhã o arrebatamento estará, de novo, ao serviço. As promessas mais belas já serão de ontem. Duras, como versos ressequidos. Podes procurar. Não encontrarás sequer um beijo nas gavetas. Nem o que restar de ti, nelas. Agora é tarde, meu amor: já não se põe o avental ao pêlo e a paixão ao lume, mexendo bem.
M.C.
(a foto é de Álvaro Rioseco)
16/11/2009 às 09:45
em todas as erstórias o final deixa sempre um leve sabor a cinzas.
csd
16/11/2009 às 10:06
Gaveta à bruta. Ou melhor, abrupta.
Não tenho certeza se a foto (que também é bruta) é perfeita para o texto.
Se não te conhecesse diria que sim. (embora nunca tenha me deparado com essa tua gaveta)
A foto me fala de uma mulher jogada à janela, como um cobertor ou uma toalha. Objeto de uso que a chegada da manhã coloca de lado. Espaço de passado, sem lugar para o reflexo. Aquele que a usa não se apercebe, nunca se vê. Não há espelho nessa relação – e as relações não existem sem que nos espelhemos nos olhos do outro.
Ou talvez eu esteja enganada e a mulher seja o teu lado mulher…
Ou talvez eu esteja exagerando… A semiótica faz isso com as pessoas, as enlouquece.
beijos para ti querido
16/11/2009 às 22:17
A gaveta está com a determinação de quem não tem nem pode ter coração. A mulher da foto está com a determinação de quem não sabe o o não ter coração da gaveta.
17/11/2009 às 11:39
“o não ter o coração da gaveta”.
será asim a sintaxe?
se for o aforismo é perfeito.
pelo menos do meu ponto de vista.
csd
18/11/2009 às 10:42
Efectivamente era essa a sintaxe.