Ainda há futuros como antigamente? – III

Quando eu era pequeno, muito pequeno, e acreditava ainda em coisas que mais tarde deixei de acreditar, como o Pai Natal, a Fada dos Dentes ou o Sarronca, dizia-se que o mundo iria acabar no ano 2000. Como era muito pequeno, acreditava que um ano tem mil dias, ou mais, e não tinha medo, nenhum, porque isso demoraria muito a chegar.

À medida que fui crescendo, o tempo começou a acelerar. Um ano já não tinha mil dias; talvez tivesse seiscentos, mais coisa menos coisa. Comecei a pensar em coisas que nunca me tinham passado pela cabeça. E a fazer perguntas. «Mamã, para onde vão as pessoas quando morrem?»

Quando os anos passaram definitivamente a ter os dias que realmente têm, tudo era já muito rápido. As horas, os dias, as semanas e os meses sucediam-se, e o tempo parecia correr muito. Percebi, então, que não temos assim tanto tempo para estar aqui, uns com os outros. E comecei a pensar no futuro, que rapidamente é presente e num instante passado.

Agora, vejo o tempo como a água que corre num rio: umas vezes mais turva, outras menos, mas sempre em movimento. Depois de passar por nós, nunca mais o apanhamos. É assim que deve ser. Só sendo irrepetível lhe damos valor. E recordamo-lo, que é afinal o que nos resta. Porque muito do futuro de antigamente é já, também ele, antigamente.
Carpe Diem.

Carlos Azevedo
thecatscats@blogspot.com

(a foto é retirada do belíssimo blogue da Sonja Valentina, que assim também participa nestes futuros…)

4 Respostas para “Ainda há futuros como antigamente? – III”

  1. Pedro Gama Diz:

    Certo dia, dei comigo a assistir a mais um desses programas que tratam de curiosidades científicas. Não me lembro qual. Sei que nunca mais me esqueci. O tema tratava da percepção que temos do tempo.
    Havia algum tempo que dava comigo a pensar nas palavras de meu pai – os anos passam num instante, já que durante muito tempo não fizeram qualquer sentido. Agora sim, sem que eu percebesse porquê, faziam todo o sentido.
    E nesse programa veio a resposta. A percepção que temos do tempo, altera com a idade; enquanto miúdos o tempo nunca mais passa, quando velhos passa a correr.
    Certo dia, dei comigo a pensar – estou velho!

  2. A questão do tempo é tramada, Pedro. Assim, recorro a uma das minhas filósofas de eleição:

    «A identificação, se se realiza pela união, dá-se no morrer ou em algo que se lhe assemelha. Ou dele se aproxima. A identificação máxima quase não concebida é a da vida e da morte; que somente no ir-se morrendo se alcança, ali onde a morte não é acabamento mas começo; e não uma saída da vida, mas o ir entrando em espaços mais vastos, na verdade indefinidos, não medidos por referência alguma, onde a quantidade acaba, deixando o sujeito a quem isto sucede não no nada, não no ser, mas na pura qualidade que se dá ainda no tempo. Num modo do tempo que caminha rumo a um puro sincronismo.»

    María Zambrano, “Clareiras do Bosque”. Tradução de José Bento. Relógio d’Água, 1995.

  3. também gostei deste.

    mas já começo a estabelecer uma hierarquia.

    csd

  4. este é o texto do desmoronar da idade da inocência.

    csd

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