Obrigado, Alice

A Alice é um portento da natureza. E isso mesmo pôde ser confirmado durante as mais de duas horas de conversa – com muitas gargalhadas à mistura – que manteve com os membros da Comunidade de Leitores da Almedina no Arrábida Shopping.
Contou velhas histórias dos jornais, falou da infância e adolescência difíceis, que nem por isso a impediram de tornar mais encantador o universo de muitas gerações deste País. Ainda hoje lhe ligam, escrevem. E ela devolve o carinho, na volta do correio. Falou do ensino, contra o facilitismo. Contou histórias arrrepiantes e também reconfortantes dos alunos e professores deste País. Acha que as crianças e os jovens nunca leram tanto. Mas, diz, “já ninguém conversa em casa, nem que seja para dizer mal de uma prima ou de uma tia”. As crianças, diz, não estão habituadas a falar, a expressar-se, vivem em vidros: “O vidro do computador, da televisão, do telemóvel”. E o grande desafio está nesta pergunta: como tornar uma criança que gosta de livros num adulto que lê? Abomina que lhe falem da criança que há dentro dela. “Eu sou uma adulta que escreve”. Tal como considera um erro não dar tempo nem espaço às crianças para crescerem como tal, sem se tornarem adultos num instantinho.
Para ela, escrita é profissão. Faz sua a máxima de Picasso: quando a inspiração aparece encontra-a sempre a trabalhar. Lançou várias obras este ano. Tem vários projectos em mãos, dos livros à música. E já reuniu vários inéditos do Mário Castrim, seu marido, já falecido. “Mas nenhuma editora parece interessada”.
Entre vários cafés, conversamos também a dois sobre o jornalismo do tempo dela e do meu. Rimos muito. Lamentamo-nos um pouco. Mas sobretudo concluímos que não há dádiva maior do que fazer aquilo que sempre se quis na vida. E nisso, os olhos da Alice Vieira dizem tudo.
Era já noite quando a sessão terminou. E Alice revelou, então, uma faceta menos conhecida, através de um belíssimo poema seu, do livro “Dois corpos tombando na água” (Caminho). Assim:
Havemos de ser outros amanhã
ou daqui a momentos ou já agora
e dificilmente reconheceremos o espaço da alegria
em que noutras horas chegámos a nascer
e então meu amor
(não sei se reparaste mas é a primeira vez
que escrevo meu amor)
teremos nos olhos a cor sem cor
das roupas muito usadas
e guardaremos os despojos das noites
em que tudo sem querer nos magoava
nas gavetas daqueles velhos armários
com cheiro a cânfora e a tempo inútil
onde há muitos anos escondemos
um postal da Torre de Belém em tons de azul
e um bilhete para a matiné das seis no São Jorge
onde um homem (que muitos anos depois
segundo me contaram se suicidou)
tocava orgão nos intervalos em que
nos beijávamos às escondidas
e dessas gavetas rebenta a poeira do tempo
que matámos a frio dentro de nós
com os filhos que perdemos em camas de ninguém
e as pedras que nasceram no lugar das cinzas
e havemos de perguntar (mesmo sabendo que
já não há ninguém para nos responder)
por que foi que nos largaram no mundo
vestidos de tão frágeis certezas
por que nos abandonaram assim
no rebentar de todas as tempestades
sabendo que o futuro que nos prometiam batia
ao ritmo das horas que já tinham sido
destinadas a outros e nunca
voltariam a tempo de nos salvar
mas enquanto vai escorrendo de nós o pó
desses lugares onde ainda há vozes
que não desistiram de perguntar por nós
vamos bebendo a água inicial das nossas línguas
um ao outro devolvendo o pouco
que conseguimos salvar de todos os dilúvios
22/11/2009 às 15:46
desta vez não pude ir…
mas para compensar logo que compre o livro – muito brevemente – leio-o antes dos outros e dou-te o comentário para lho enviares.
mas vemo-nos de certeza na 6ª.
um beijinho
csd
22/11/2009 às 16:36
esta custou-me! esta falta custou-me MESMO.
gosto desta Alice. MUITO.
22/11/2009 às 21:24
Hoje, sobretudo hoje, faz todo o sentido. Ficou-me preso na garganta. Ahhhh