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Ainda há futuros como antigamente? – XI

02 Dez

há um gato parecido com o de olhos azuis que aparece no seu blog que, às vezes, vindo de um país longínquo, vem comer à minha porta, mas nunca da minha mão, dorme na beirinha do muro do meu jardim mas eu tardo e ele vai-se embora cansado. sei que somos quase vizinhos, temo-nos cruzado por aí, mas eu que me perdi em todas as vezes que a nossa amiga comum esteve para nos sentar à mesma mesa, vou-me sorrindo de cada vez que nos cruzamos e eu não digo nada. eu tenho um quarto voltado a nascente pintado de verde chá e alface claro. gostei do desenho a grafite, com gato e tudo, quase fotografia. a minha gata não voltou há meses, deve ter sido seduzida por algum siamês danado, arranca corações, despedaça donas da gatas que ronronam às seis da manhã a dizer “acorda lá, quero leite, ir à rua, ouvir o caetano, esgadanhar outra gente, comer mais duas folhas do antúrio, saltar do ramo mais alto da árvore ali do vizinho, despenhar-me do alto da laranjeira e trazer teias de aranha nas orelhas”. e eu rosnava-lhe ” é cedo, acabei de dormir, doem-me os dedos de escrever, tenho o tamborilar do teclado na cabeça, também quero café e torradas e jornal dobrado em dois e chuva na cara e camélias floridas mas mais logo e não tenciono meter o nariz de fora, quanto mais o pé no chão, quanto mais os dois lá fora para te deixar no jardim.” consenso: mais meia hora de sono, a troco de quase nada, um punhado de mimo.

ando há dias perdidos a congeminar o ensaio sobre o futuro e o mote que me mandou tem servido para pensar muito. mesmo que as linhas não cheguem aí, valeu a pena pen(s)ar na resposta. não sei se vou ter outro gato mas gostava. não quero que o ter um gato em casa me impeça de, perante uma reviravolta no futuro, de ficar por onde me chamem e não voltar sequer para aviar os livros. quero um gato em casa que mie quando chego, que faça mais barulho que eu, que faça barulho quando o silêncio pesa muito e não é música que quero ouvir e me apetece colo e não há gente.

não sei se tenho ainda “uma confiança danada no futuro” e se lhe estendo as mãos para dar ou para pedir. tenho-me perguntado se o não haver futuros como antigamente não deriva de andar a fazer menos no presente, como se uma coisa pudesse vir sem a outra, como se pudesse querer um futuro como antigamente quando já nao tenho um presente igual. suspeito que einstein tinha razão: “eu não preciso de me preocupar com o futuro, ele não tarda nada em chegar.” talvez seja por isto que vamos descurando o futuro, sonhando menos, sabemos que ele chega cada vez mais depressa, o futuro, ultimamente, chega ainda no dia de hoje. mas, por outro lado, suspeito também que o futuro precisa é que não contemos tanto com ele, o presente é que tem de levar o melhor de nós, dizia uma frase de camus num documentário no outro dia, escrevi-a de cor nas costas de um envelope, perdi-o, cito o senhor de cor.

soube há dias que o meu pai, que tem andado doente, poderá não ter todo o futuro que lhe sonhámos, que precisamos que tenha, que suspeitamos que quer ter, depois de quase não ter tido nem mais um dia pela frente sequer. faz-me pensar na nossa ambição de querermos sempre um futuro vasto, inabarcável e como tive de aprender a pedir um dia de cada vez, eu sempre tão sôfrega de tudo, vivendo antes cada dia e um de cada vez, de forma a que morresse com aquele dia no olhar, como aconselhava avisadamente truman capote. como se, em cada dia, tivesse de estar preparada para que não houvesse outro dia. quem não vive assim não pede outro dia, pede muitos dias, pede duas mãos cheias deles, para poder falhar muitos dias e ainda lhe sobrarem alguns para emendar o final.

suspeito que possa ter razão aquela história citada por lobo antunes e por rosa mantero, sem que nenhum se refira ao outro (conhecer-se-ão?), em que dizem que há uma história que conta que a senhora das tempestades nunca leva consigo quem traga um livro começado por acabar. deve ser por isso que trago começada uma biblioteca inteira e adio o dia de terminar qualquer um dos livros começados. foi por isso que entreguei um livro com mais de uma resma de páginas ao maior leitor que conheço, o meu pai, e espero que o comece e que nunca mais o acabe, para que possa voltar a ter um futuro como antigamente.

sem dar por ela, acho que lhe disse o que iria dizer depois mais longamente, de forma mais cuidada e mais bonita. mas saiu agora e é por aqui que se fica.

um abraço.

limoeiro
www.afadigadaladeira.blogspot.com

(a foto é de Margarida Neves)

 

Sobre Miguel

Jornalista, 40 anos, viveu o tempo livre das rádios-pirata, mas aterrou nos jornais após o Curso de Radiojornalismo do Centro de Formação do Jornalistas do Porto, hoje inexistente. Trabalhou no Diário de Notícias, no semanário O Independente e é, desde Dezembro de 1999, repórter da revista Visão. Jornalista há 21 anos, nasceu no Porto, cidade a que pertence até ser pó, cinza e nada. Music Playlist at MixPod.com
4 Comments

Publicado por em 2 de Dezembro de 2009 in devida comédia

 

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4 respostas a Ainda há futuros como antigamente? – XI

  1. csd

    2 de Dezembro de 2009 at 16:44

    um dos melhores textos desta rubrica.

    csd

     
  2. Carlos Azevedo

    3 de Dezembro de 2009 at 02:04

    Para a Limoeiro, dois versos de Natália Correia:

    «Creio que tudo é eterno num segundo,
    Creio num céu futuro que houve dantes»

    E força.

     
  3. marta

    3 de Dezembro de 2009 at 13:40

    parabéns. gostei muito.

     
  4. Petra Maré

    3 de Dezembro de 2009 at 19:57

    Só hoje ganheir coragem para cá vir comentar.
    É que há pouco mais de ano e meio eu perdi metade das raízes que me ajudaram a construir o passado, o presente e que eu queria me acompanhassem para todo o futuro,
    Por isso eu sei como as “entranhas” da Limoeiro estão presente neste post . Por isso me emocionei, com a beleza do escrito.
    Bem haja!
    Se for preciso eu emprestarei nem que seja uma enciclopédia…

     

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