Walden

Já alguma vez compraram um livro por causa de uma frase? Eu já. Ontem. Este: Walden ou a vida nos bosques, de Henry David Thoreau (Antígona). Por causa desta: “Tinha três cadeiras em minha casa: uma para a solidão, duas para a amizade e três para reuniões“. Peguei-lhe e não larguei. Eram quatro da manhã quando desliguei a luz, contrariado. Gosto quando um livro, tal como a vida, me puxa pelos colarinhos…

Entrar em Walden não é apenas mergulhar nas razões que levaram Thoreau, no século XIX, a abandonar a civilização e construir uma cabana no bosque. Nem sequer se trata apenas de contemplar um quase diário da sua vida de quase nada, quase tudo. Impressionante, na verdade, é a actualidade do que lá está. Como observação de vidas. Como opção de existência. Despojada, inteira. Com entrega e paixão. E, meus amigos, só li pouco mais de trinta páginas. Em Walden, porém, tropeça-se em frases como esta: “Como pode ele [o homem] ter em mente a sua ignorância – atitude indispensável ao crescimento interior – quando tem de usar os seus conhecimentos com tanta frequência?”

“Estórias” de marés…

Desde há algum tempo que me chega, por mão amiga, leceira de adopção, o boletim Maré, editado pelo Núcleo de Amigos dos Pescadores de Matosinhos. A distribuição é gratuita e a leitura é obrigatória, digo-vos. Para lá das esperadas referências a aniversários, iniciativas e explicações da arte da faina, o boletim é um repositório dedicado e aprofundado de muitas “estórias” das gentes do mar, das suas famílias, das alcunhas, sem perder de vista as aventuras e desventuras destas vidas. No mar alto ou em terra firme.

Capítulos que leio avidamente – muitos deles escritos por antigos pescadores – são os das histórias das famílias e das alcunhas. Nas páginas do Maré desfilam nomes como o Mantas, o Basculho, o Russo, a família dos Chatinhos (na qual se incluem o Zé Chato e o Tone Pita), o Mata-o-Preto, a família Caralinda, o Marcelino Coão, o Caréu, o Maragato, o Manamuca, o Truta, o Maragato, o João do Lindo, o Pardalão, o Talhas, o Lerogaio, o Jaleca e eu sei lá que mais…No fundo, nomes que, por vezes, nos ligam a “estórias” de feitos e heroísmos, mas também a existências duras. Lições de vida, quase todas.

(a foto é de Benonias Pereira Cardoso)