Tomai lá, da Patrícia

Da Patrícia Reis, aqui fica um safanão daqueles. Em letra redonda. Para ler e fotocopiar por aí…

don’t make me go down there

Há casamentos brancos, há casamentos onde a tareia é de todos os dias, álcool, violência psicológica, abusos, mágoas sem fim. Casar, enquanto instituição que protege a família é, historicamente, um disparate pegado. Basta varrer os olhos pelos casamentos reais, as alianças de sangue, as conveniências em nome de Deus, as enormidades históricas que se cometeram para proteger uma coisa que, em muitos e muitos casos, é francamente má.

Agora, em pleno século XXI, os homossexuais podem casar, mas há quem prefira outro verbo. Por favor, não estraguemos a palavrinha com os gays! O preconceito é tão grande que chateia mesmo. O casamento não é uma instituição divina, um sacramento de Deus, pela simples razão de que ao abrigo dessas boas intenções fazem-se atrocidades tão gigantes que mais valia estarmos todos calados. Há quem seja contra tudo disto, brade aos céus, pontifique, esquecendo-se que bateu no marido, que berrou e disse coisas em frente às crianças – abençoadas crianças que só podem viver felizes no seio de uma família com pai e mãe – que são, no mínimo, inomináveis num blog que se preze. Os exemplos são tantos e flagrantes que eu pergunto; não se importam de estar calados? O mundo não gira como há cem anos, não gira como há cinquenta. Não me falem em Deus e na Igreja, este Papa colocou-me fora do rebanho e eu sou feliz assim.

Os gays agora podem casar. Não podem adoptar. Claro. É melhor deixar 17 mil crianças nas instituições. Porque não? Ninguém as vê. Felizmente há a adopção monoparental. Felizmente há quem não seja tacanho e pouco tolerante. Sempre acreditei que Jesus praticava a tolerância. O Homem, em nome de Jesus, pratica o quê? É Natal. É chato ter esta conversa, não é? Melhor seria ficar caladinha a ver se a coisa se despacha em vez de estar aqui a contabilizar a hipocrisia das famílias, que não falam umas com as outras, que não têm respeito uns pelos outros, que desconhecem integralmente o verbo amar, mas sabem tudo sobre o verbo casar. Não há paciência para tanta demagogia.

O mundo está a chegar ao um fim de uma era. Não sei o que virá a seguir, sei apenas que tenho dois filhos menores a quem eu digo com transparência que os dogmas e regras foram criadas pelo Homem e esse, pelo que se vê, não é grande coisa quando desata a regular o comportamento alheio. Mesmo que depois possa ir para casa ver filmes pornográficos, abusar psicologicamente da mulher, desatinar com os filhos e respectivo direito a ser o que bem entenderem. Serei eu que estou mal? Muito provavelmente. Fico siderada com a quantidade de comentários nos jornais on line, a maioria anónimos, a maioria sem a informação toda. São exercícios de vaidade? De protagonismo? Talvez sejam. Se olhassem para dentro de casa, se entendessem espiritualmente onde estão e para onde vão com os outros, a coisa corria melhor. Assim, é a merda que se vê. No meu frigorífico está um íman que diz: “God: Don’t make me go down there”. Perceberam? Não? Azarinho. Podemos sempre dizer que são as alterações climáticas.

Patrícia Reis
www.vaocombate.blogs.sapo.pt

Duas notícias

Parece que os portugueses, quiçá cansados de desejos e amizades formatadas, enviaram menos sms este ano, pelo Natal. E voltaram a entupir os correios de postais e cartas, coisas de personalização e afectos.

Entretanto, a cantora Lily Allen abandonou o IPod, telemóvel, computador portátil, e-mail. E diz querer ter “uma vida normal”.

Talvez seja radicalismo a mais, mas dando o devido desconto, uma pergunta: e se nos fossemos todos embora daqui e nos encontrassemos por aí?

Balanços

Já começou. A década que vai. A década que virá. O ano que foi e o que vem, também. Os dias passados. Os dias futuros. As promessas datadas. As promessas a cumprir. O presente, salto em comprimento. O futuro, salto alto. Os segundos, os minutos, as horas do que fomos e do que seremos. O deve, o haver. O ter e não ter. A fuga para a frente, o pé-atrás. O que foi, o que será. Os “ses”, os “mas”, os “hei-de”. Os quilos a mais, a vida por menos. A decisão por tomar, a decisão de ficar, a decisão de adiar. O novo velho e o velho novo. Mudar de vida. Devidamente, mudá-la. E agora, quantas passas para desejar futuros? Por quantos futuros, passas? Ah! Detesto decisões de fim de ano, balanços. Bem ou mal passados. Para mim, a vida é para levar à boca, presente do lombo com futuro a cavalo.

Ainda há futuros como antigamente? – XXII

Aos meus Amores……que são o meu futuro todos os dias.

O futuro já foi… o peito da minha mãe, o olhar do meu pai, a minha irmã pequenina, o bibe da escola, a mochila, o saco de pano bordado para levar o pão com marmelada para a escola, a lousa e os livros, o recreio da escola, as férias de verão, o andar com os amigos, uma escola, outra escola, ainda outra escola, as prendas de Natal, a televisão a cores, a aparelhagem de música, os discos de vinil, não ter horas para chegar a casa dos pais, estudar fora.

Depois, sem nos darmos conta, o futuro estava nos olhos daquela menina, e depois nos olhos de outra. O primeiro filho, todos os filhos. Durante essa época, passou a ser a casa, o trabalho, as férias do trabalho, outra casa, outro trabalho, as férias desse trabalho. A escola dos putos. De repente deixou de haver futuro, porque só havia presente. E muita gente a passar, a passar de futuro a passado sem nos darmos conta, até que voltou a haver futuro, onde já nem passado havia.

E o futuro volta a ser um peito de mãe, um colo de pai, uma irmã pequenina, uma promessa de vida realizada, e Amor. Não há futuro sem Amor.

E nestas linhas, que a cada palavra são passado e a cada imagem presente, vejo o meu futuro, não como antigamente, mas como memória do que há-de vir. O passado foi o nosso futuro possivel, antigamente. O futuro é, como deve ser, como antigamente, o amanhã de Esperança, a Felicidade dos Amigos, um abraço sentido, um reencontro, todas as partidas, o chegar sem ter partido, o estar com os nossos.
Terá dor, e perda e morte, porque o futuro é assim, não sente, só nós o sentimos, enquanto passa numa brisa constante que ora é calma e morna ora se torna em tormenta que gela.

Ou haverá muitos futuros? Um para cada encruzilhada da vida? Talvez, do futuro só sei que o fazemos um bocadinho todos os dias, e que os atalhos que a vida contém, só os fazemos uma única vez. Não sei o que é o futuro, se a nossa memória vivida, se o passado dos dias que vêm. Ou ainda só haverá um futuro, inscrito no peito e na alma, sem hipótese de fuga, a obrigar o nosso caminho e traçá-lo nas nossas costas? Será esse futuro-fado verdade? Não sei, também.

E hoje? Que há? Há passado, tal como antigamente. E futuro, também como antigamente. E o futuro continua a passar, cada vez mais passado, cada vez mais presente. E o futuro volta ao passado, volta aos olhos desta menina e ao sorriso de outra, pequenina, de tão grande que é.

E o futuro e o antigamente vivem dentro de nós. A memória do que fomos e somos e a centelha do que viermos a ser. Um bocadinho todos os dias. O futuro é a Vida, que nos vai fazendo e desfazendo, até um dia sermos finalmente nós.

Para o autor do desafio, deixo-o com a letra de um Fado, encantadoramente “kitsch”, cantado pelo enorme João Correia, reencontrado numa das curvas da Viagem, em dueto com o Fernando João, num dos meus futuros passados:

É tão bom ser pequenino / ter Pai, ter Mãe ter Avós / ter esperança no Destino / e ter quem goste de nós…

Ricardo
www.estanteacidental.blogspot.com

(a autoria da foto é de Bafejada)