
Alfredo Leite é o enviado do JN e do DN ao Haiti. Quem comprar os dois jornais, lê o mesmo texto. Poupa-se dinheiro e recursos? Ai poupa-se, poupa-se. E por este andar, daqui a uns anos, até se poupa em jornalistas. Ou em jornais.
Arquivos Diários: 18 de Janeiro de 2010
Macjornalismo
Amigos de além-mar

Sempre que aterro na Madeira, regresso com mimos garantidos, sob a forma de recados nos jornais ou, nas fases mais inspiradoras, ameaças de morte por escrito, com carimbo e tudo. Nada de novo. São carinhos e deferências que outros camaradas meus, mais habilitados, foram recebendo de forma ainda mais frequente, ao longo de anos. Agora, a propósito da reportagem que fiz sobre o cónego Manuel Martins, a Igreja madeirense e as denúncias da pobreza na região autónoma, um tal de Gilberto Teixeira (quem?), cronista semanal do Povo Livre lá da terra, atira-se ao que chama “plantadores de ódio ideologico”. E vai de puxar do sarrafo. Contra “certas visões locais ou nacionais” habituadas a “montar o folclore do ódio à Madeira”. E a gente que faz? Faz como o Max e deixa passar esta linda brincadeira.
Os dias, as noites

Tony Judt, autor de duas obras que me dizem ser de leitura indispensável, mas que não tive ainda tempo de comprovar (Pós-Guerra e O Século XX Esquecido), ditou para os jornais um texto comovente sobre a sua doença. Publicado este domingo no EL PAÍS, o artigo é o relato doloroso, por vezes até irónico, da degradação física e emocional deste historiador britânico, a braços com uma doença irreversível que praticamente apenas o deixa mexer o pescoço e a cabeça. Lê-lo pode ser, entre outras, uma forma de valorizarmos, de uma vez por todas, os pequenos nadas do nosso quotidiano. Porque há neles muito mais do que imaginamos…
A VISÃO no Haiti

Primeira crónica da minha querida camarada Patrícia Fonseca, grande-repórter da VISÃO, enviada especial ao Haiti.
UM PAÍS SEM GUARDA
Um portão decrépito, de aspecto frágil, separa a República Dominicana do Haiti. Está aberto de par em par mas com soldados dominicanos de olhos postos em todos os que se aproximam, de um lado e do outro da fronteira. Um deles, de máscara cirúrgica na cara e metralhadora nas mãos, olha-me fixamente quando o carro em que sigo pára, ao seu sinal. “Bom dia”, começo eu. “Podemos passar?”, atira logo Francisco, o motorista dominicano que havia prometido levar-me de Santo Domingo a Port-au-Prince e que não é de grandes conversas. O militar fita-nos em silêncio durante uns segundos, que parecem uma eternidade, para depois dizer, num tom contrariado: “Avancem, avancem…”
Avançamos, pois. E poucos metros depois já estamos a atravessar outro portão escancarado – aquele que deveria ser guardado por polícias haitianos, com fama de serem bastante zelosos, pedindo vistos de entrada e de saída. Mas já não há ninguém de guarda a este país, arrasado por um dos mais violentos tremores de terra de que há memória.
Nos primeiros quilómetros em território haitiano, a paisagem é estranhamente bela. A estrada, de gravilha branca, debrua as margens de um gigantesco lago azul-turquesa. Há palmeiras a banharem-se nas águas e o horizonte é recortado por montanhas negras e imponentes.
À minha frente seguem dezenas de camiões e carrinhas de transporte de carga, levando comida, água e geradores eléctricos para a capital, onde todos os bens essenciais escasseiam. No sentido contrário passam algumas mulheres a pé, carregando pesados fardos na cabeça, e motorizadas em delicado equilíbrio, aguentando o peso de dois ou três passageiros e as suas malas de viagem. Vêem-se também carrinhas de caixa aberta, levando gente amontoada, enrolada em cobertores, apesar do calor que faz estalar a pele. São feridos graves – e tentam encontrar no hospital de campanha montado junto à fronteira dominicana a assistência médica que tardam em receber no Haiti.
Só ao chegar aos arredores da capital do Haiti, Port-au-Prince, começam a ser visíveis os estragos provocados pelo terramoto da passada terça-feira. As zonas mais próximas da fronteira escaparam à fúria da natureza e os seus habitantes debruam a estrada, observando a coluna de camiões de ajuda humanitária que passa, em direcção à capital, e tentam vender aos estrangeiros o pouco que têm: papaias e bananas verdes.
À entrada da cidade, uma bandeira esvoaça a meia haste, no complexo das Nações Unidas. Ao lado, uma estação de gasolina mal se vê, tal é o amontoado de gente e de carros em redor das bombas, tentando assegurar a compra de alguns litros de combustível. Um pouco mais à frente, nos arredores do aeroporto, há centenas de tendas improvisadas com pedaços de plástico e de pano, um formigueiro de gente desesperada. É apenas um dos muitos campos de refugiados que nasceram nos espaços abertos da cidade, abrigando os milhões que ficaram sem casa.
No centro, um cheiro nauseabundo obriga todos a caminhar de cara tapada. Quem não tem máscara usa lenços, camisolas, toalhas enroladas na cabeça. Ainda existirão milhares de vítimas soterradas debaixo dos escombros. Já não se vêem corpos amontoados pelas ruas, como nos últimos dias. Setenta mil já foram sepultados em valas comuns, outros foram queimados nas ruas pela população. Há restos dessas fogueiras, ainda fumegantes, em várias zonas da cidade.
As principais artérias da zona comercial de Port-au-Prince parecem ter sido bombardeadas. Não há um único edifício de pé. A maioria das ruas está intransitável, bloqueada pelas ruínas. Mas centenas de pessoas procuram agora, no meio destes escombros, alguma coisa que lhes mate a fome. Três supermercados, a poucos metros uns dos outros, são pilhados por uma turba de homens. Gritam, correm de um lado para o outro com os bens que retiram dos edifícios esventrados. Lutam pelo que conseguem agarrar, armados com o que têm ao seu dispor: alguns empunham catanas, outros têm martelos, tesouras ou espetos de metal.
Depois da violência do terramoto, a violência dos homens ameaça tornar ainda mais caótica a vida nesta cidade onde tudo falta – até a paz.
(E para perceber um bocadinho mais da história do Haiti, convém olhar para trás. Porque só assim melhor se compreende o presente. E talvez o futuro. “Anatomia de uma maldição”, para ler AQUI.)
