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Arquivos Mensais: Janeiro 2010

Scottish thing


São escoceses. Sem gelo. E vão estar cá em Fevereiro, lá para o finzinho. Descubram onde. Aqui fica um cheirinho dos fabulosos Camera Obscura.

 
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Publicado por em 24 de Janeiro de 2010 in devida comédia

 

Sonhos

Os sábados de exposições na Miguel Bombarda. E a descoberta da artista plástica brasileira, Araci Tanan. Como se fadas se movimentassem entre dedos. E “os nossos sonhos como barquinhos de papel”.

 
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Publicado por em 24 de Janeiro de 2010 in devida comédia

 

Baptizados


Não sou crente, nem a religião me oferece a salvação que pretendo. Mas sou gente para recolher a uma igreja de longe a longe. Sem pretensiosismos ou conversões de última hora. Já dei comigo numa capela de aldeia, pela manhã, a assistir à missa. Gosto de olhar as pessoas no seu recolhimento, perceber os laços ténues que ali se estabelecem entre elas, tentando decifrar o efeito das palavras bíblicas num olhar, num gesto, num cerrar de olhos. Eu, que faltei ao meu baptizado, assisti a dois nos últimos tempos. Um deles, este domingo, da filha de uns amigos. Momento solene em que me abstive de renunciar, em colectivo, aos meus pecados. Mas, ao mesmo tempo, momento de uma comunhão que me toca de uma forma mágica, inexplicável. Como se carregasse em mim algo de tradição e história para lá de vontades e crenças individuais. O que faço, nessas ocasiões, é tentar absorver e guardar na memória esses pequenos milagres do indecifrável. Aqui na terra.

 
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Publicado por em 24 de Janeiro de 2010 in devida comédia

 

A devida…na VISÃO – XXV

O jovem, pá

Sou do tempo que já me permite dizer frases do tipo “sou do tempo”.

Ora, na época em que ainda frequentava o cartão-jovem, conheci o culto dos “jovens, pá”. O culto dos “jovens, pá”, era a maneira que o País e, em particular, as empresas, tinham para valorizar tudo o que era novo, fresco, divertido e, invariavelmente, “giro”. E dispensar o que cheirava a mofo.

Nos jornais, este culto nacional teve méritos e desastres, sobretudo os últimos. Promoveu os primeiros afastamentos e despedimentos cruéis de jornalistas experimentados, na vida e na profissão, para dar lugar a jovenzinhos ambiciosos, muitos deles meros malabaristas sem pai nem mãe. A época, é certo, ajudou a fundar O Independente, a irreverência ao serviço da criatividade e de alguma irresponsabilidade. Mas também fez com que alguns diários sérios, de vetusta idade, quisessem pôr gel na careca e brinco na orelha porque assim, diziam eles, se chegaria melhor aos “jovens, pá”.

Na política, o culto dos “jovens, pá” produziu uma colheita de jovens agricultores subsidiados – como Braga de Macedo – que, como se saberia mais tarde, eram pouco jovens e muito menos agricultores. O cavaquismo tinha, aliás, uma virtude contrária às leis da natureza: secava tudo à volta, mas produzia rebentos destes.

Nesse tempo, Pedro Passos Coelho foi um jovem com opiniões próprias que desassossegaram o pensamento único do senhor Aníbal. Enquanto líder da JSD, mostrava desconforto público com o espartilho do vazio de ideias no interior do partido. E a falta de debate. Lembro-me de palavras e temas que ele lançava para os jornais que faziam espumar os vizires do sultão. E recordo como enfrentou, lá dentro, a polémica das propinas, sendo ele do partido do Governo. Tudo virtudes? Longe disso. Mas havia uma marca.

O tempo, entretanto, fez o que devia: passou.

E Pedro Passos Coelho atravessou o deserto.

Quando o voltamos a ver, vinha mais engravatado e bem escudado por Ângelo Correia. E com manias de líder, que quer ser à força. Vai daí, escreveu um livro. Título? “Mudar” (onde é que eu já li isto?). Os amigos e apaniguados dizem – e ele escreve – que tem ideias novas para o País. Escolho duas, retiradas da “obra”: privatizar ainda mais a Saúde e promover maior competitividade entre o público e privado. Louve-se o esforço de reflexão. Pedro Passos Coelho será um liberal nos costumes. Na política e economia propõe as receitas do costume. Fica a moral da história: ideias velhas não têm idade.

M.C.
(www.visao.pt)

 
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Publicado por em 21 de Janeiro de 2010 in devida comédia

 

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A sentença


Eram seis polícias, armados até aos dentes, em volta dos cinco principais arguidos. Houve momentos de um silêncio quase tumular, apenas interrompido pela cadência da leitura dos juízes. Uma resma de folhas com um arsenal de relatos de emboscadas, armas, calibres, automóveis e pedaços de uma violência gratuita e entranhada. A leitura da sentença do julgamento do famoso Bruno “Pidá” e de outras figuras da noite portuense, condenados por mortes consumadas e tentadas, não espanta, não comove, não indigna. Dos métodos refinados à frieza dos actos, nada já surpreende. E essa é que é a pergunta: quando e onde é que começamos a achar tudo tão normal?

 
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Publicado por em 19 de Janeiro de 2010 in devida comédia

 

A violência, no ovo

Demorou, é verdade. Mas a Alemanha tem, nos últimos anos, revisitado a sua história e enfrentado os seus fantasmas com coragem, talento e brilhantismo. Pelo menos, no cinema. Em Adeus, Lenine e A Vida dos Outros tivemos a ressaca da derrocada de Leste. N´A Queda, o espelho definitivo da loucura. N´A Onda, a metáfora da revisitação da História e das assombrações que nunca adormecem. E agora temos o premiadíssimo O Laço Branco, de Michael Haneke, realizador austríaco (repare-se na ironia). Um filme de ficar pregado na cadeira e remoer vezes sem conta.

A história das relações e dos crimes ocorridos numa aldeia protestante do Norte da Alemanha, nas vésperas da I Guerra Mundial, é apenas o pretexto para retratar a serpente ainda no ovo. Sem carácter panfletário, lacrimejante ou discurso fácil. Mas simplesmente mostrar como num contexto de inocência e aparente placidez podem germinar as mais terríveis obsessões e perversões. Muitas das quais tiveram o seu auge na Alemanha de Hitler. Brilhantes os enquadramentos da aldeia, a sugerirem, ao de leve, um campo de concentração. Brilhante, o preto e branco quase imaculado do filme. Notáveis, os momentos de tensão, a capacidade de gerir até ao limite a violência psicológica, a lentidão dos movimentos, das frases e do que se insinua sem nunca se ver. Um filme para muita reflexão e conversa. Sobre as raízes da perversão humana. E do que nunca devemos dar por irrepetível.

 
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Publicado por em 19 de Janeiro de 2010 in devida comédia

 

Macjornalismo


Alfredo Leite é o enviado do JN e do DN ao Haiti. Quem comprar os dois jornais, lê o mesmo texto. Poupa-se dinheiro e recursos? Ai poupa-se, poupa-se. E por este andar, daqui a uns anos, até se poupa em jornalistas. Ou em jornais.

 
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Publicado por em 18 de Janeiro de 2010 in devida comédia

 

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Amigos de além-mar


Sempre que aterro na Madeira, regresso com mimos garantidos, sob a forma de recados nos jornais ou, nas fases mais inspiradoras, ameaças de morte por escrito, com carimbo e tudo. Nada de novo. São carinhos e deferências que outros camaradas meus, mais habilitados, foram recebendo de forma ainda mais frequente, ao longo de anos. Agora, a propósito da reportagem que fiz sobre o cónego Manuel Martins, a Igreja madeirense e as denúncias da pobreza na região autónoma, um tal de Gilberto Teixeira (quem?), cronista semanal do Povo Livre lá da terra, atira-se ao que chama “plantadores de ódio ideologico”. E vai de puxar do sarrafo. Contra “certas visões locais ou nacionais” habituadas a “montar o folclore do ódio à Madeira”. E a gente que faz? Faz como o Max e deixa passar esta linda brincadeira.

 
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Publicado por em 18 de Janeiro de 2010 in devida comédia

 

Os dias, as noites


Tony Judt, autor de duas obras que me dizem ser de leitura indispensável, mas que não tive ainda tempo de comprovar (Pós-Guerra e O Século XX Esquecido), ditou para os jornais um texto comovente sobre a sua doença. Publicado este domingo no EL PAÍS, o artigo é o relato doloroso, por vezes até irónico, da degradação física e emocional deste historiador britânico, a braços com uma doença irreversível que praticamente apenas o deixa mexer o pescoço e a cabeça. Lê-lo pode ser, entre outras, uma forma de valorizarmos, de uma vez por todas, os pequenos nadas do nosso quotidiano. Porque há neles muito mais do que imaginamos…

 
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Publicado por em 18 de Janeiro de 2010 in devida comédia

 

A VISÃO no Haiti


Primeira crónica da minha querida camarada Patrícia Fonseca, grande-repórter da VISÃO, enviada especial ao Haiti.

UM PAÍS SEM GUARDA
Um portão decrépito, de aspecto frágil, separa a República Dominicana do Haiti. Está aberto de par em par mas com soldados dominicanos de olhos postos em todos os que se aproximam, de um lado e do outro da fronteira. Um deles, de máscara cirúrgica na cara e metralhadora nas mãos, olha-me fixamente quando o carro em que sigo pára, ao seu sinal. “Bom dia”, começo eu. “Podemos passar?”, atira logo Francisco, o motorista dominicano que havia prometido levar-me de Santo Domingo a Port-au-Prince e que não é de grandes conversas. O militar fita-nos em silêncio durante uns segundos, que parecem uma eternidade, para depois dizer, num tom contrariado: “Avancem, avancem…”

Avançamos, pois. E poucos metros depois já estamos a atravessar outro portão escancarado – aquele que deveria ser guardado por polícias haitianos, com fama de serem bastante zelosos, pedindo vistos de entrada e de saída. Mas já não há ninguém de guarda a este país, arrasado por um dos mais violentos tremores de terra de que há memória.

Nos primeiros quilómetros em território haitiano, a paisagem é estranhamente bela. A estrada, de gravilha branca, debrua as margens de um gigantesco lago azul-turquesa. Há palmeiras a banharem-se nas águas e o horizonte é recortado por montanhas negras e imponentes.

À minha frente seguem dezenas de camiões e carrinhas de transporte de carga, levando comida, água e geradores eléctricos para a capital, onde todos os bens essenciais escasseiam. No sentido contrário passam algumas mulheres a pé, carregando pesados fardos na cabeça, e motorizadas em delicado equilíbrio, aguentando o peso de dois ou três passageiros e as suas malas de viagem. Vêem-se também carrinhas de caixa aberta, levando gente amontoada, enrolada em cobertores, apesar do calor que faz estalar a pele. São feridos graves – e tentam encontrar no hospital de campanha montado junto à fronteira dominicana a assistência médica que tardam em receber no Haiti.

Só ao chegar aos arredores da capital do Haiti, Port-au-Prince, começam a ser visíveis os estragos provocados pelo terramoto da passada terça-feira. As zonas mais próximas da fronteira escaparam à fúria da natureza e os seus habitantes debruam a estrada, observando a coluna de camiões de ajuda humanitária que passa, em direcção à capital, e tentam vender aos estrangeiros o pouco que têm: papaias e bananas verdes.

À entrada da cidade, uma bandeira esvoaça a meia haste, no complexo das Nações Unidas. Ao lado, uma estação de gasolina mal se vê, tal é o amontoado de gente e de carros em redor das bombas, tentando assegurar a compra de alguns litros de combustível. Um pouco mais à frente, nos arredores do aeroporto, há centenas de tendas improvisadas com pedaços de plástico e de pano, um formigueiro de gente desesperada. É apenas um dos muitos campos de refugiados que nasceram nos espaços abertos da cidade, abrigando os milhões que ficaram sem casa.

No centro, um cheiro nauseabundo obriga todos a caminhar de cara tapada. Quem não tem máscara usa lenços, camisolas, toalhas enroladas na cabeça. Ainda existirão milhares de vítimas soterradas debaixo dos escombros. Já não se vêem corpos amontoados pelas ruas, como nos últimos dias. Setenta mil já foram sepultados em valas comuns, outros foram queimados nas ruas pela população. Há restos dessas fogueiras, ainda fumegantes, em várias zonas da cidade.

As principais artérias da zona comercial de Port-au-Prince parecem ter sido bombardeadas. Não há um único edifício de pé. A maioria das ruas está intransitável, bloqueada pelas ruínas. Mas centenas de pessoas procuram agora, no meio destes escombros, alguma coisa que lhes mate a fome. Três supermercados, a poucos metros uns dos outros, são pilhados por uma turba de homens. Gritam, correm de um lado para o outro com os bens que retiram dos edifícios esventrados. Lutam pelo que conseguem agarrar, armados com o que têm ao seu dispor: alguns empunham catanas, outros têm martelos, tesouras ou espetos de metal.

Depois da violência do terramoto, a violência dos homens ameaça tornar ainda mais caótica a vida nesta cidade onde tudo falta – até a paz.

(E para perceber um bocadinho mais da história do Haiti, convém olhar para trás. Porque só assim melhor se compreende o presente. E talvez o futuro. “Anatomia de uma maldição”, para ler AQUI.)

 
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Publicado por em 18 de Janeiro de 2010 in devida comédia

 
 
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