E a gloriosa Diane Lane…(o filme é Streets of Fire, 1984)
Arquivos Mensais: Março 2010
Coimbra
Café Santa Clara, Coimbra. Um olhar em volta enquanto esperava para uma entrevista. A tranquilidade do lugar. Os velhinhos que falam como se estivessem a confessar-se, os jovens a fazer render o tempo em conversas animadas, sorrindo. Os espelhos como reflexo de um doce remanso de fim de tarde, que não arrasta o bulir da rua. O barulho das chávenas, as queijadinhas a chegar às mesas, em aterragem suave. Quinze minutos de espera, na penumbra do Santa Clara, deram-me uma sensação de que, afinal, o tempo pode ser domado por lugares assim.
Agora jogo eu
As minhas impressões da noite de duelos televisivo-futebolísticos desta terça-feira:
PINTO DA COSTA - Trapalhão, sem chama e, por vezes, sem motivo nem razão para tanto alarde. Nem no caso da suspensão de Hulk – no qual poderá assistir alguma razão ao clube – foi sereno e categórico. Uma suspeita: cheira-me que Jesualdo Ferreira vai continuar no Dragão com outras funções. Uma má notícia: o anúncio da recandidatura numa altura que deveria ser de viragem e arejamento. Pinto da Costa não percebe que chegou à fase em que cospe para o ar e lhe cai o tecto em cima. Uma conclusão: o FC Porto deve muito a Pinto da Costa e à qualidade do futebol que muitas vezes apresentou e raramente lhe é reconhecido. Mas Pinto da Costa também ficará para a história como alguém que, pelo menos, se pôs a jeito para que o nome do clube fosse arrastado para uma chafurdice que a sua história e emblema não mereciam.
LUÍS FILIPE VIEIRA - Sereno como nunca. Apaziguador. Está com postura de ganhador e isso nota-se. As vitórias descansam, tornam os homens menos ressabiados. Num ápice – bastou o Benfica estar à beira de ser campeão – já não há “sistema”, os árbitos já são bons e o futebol português está no bom caminho. A entrevista até foi boa, calma, tranquila e relativamente séria, e ele não precisava de usar o discurso “união nacional” como se a saúde da pátria e do futebol dependessem das conquistas do Benfica. Isto, sim, é provinciano. E quanto a equilibrio nas contas, estamos conversados: 300 milhões de passivo é o desejo de qualquer empresa, como está bom de ver.
RICARDO COSTA - O melhor dos três entrevistados. Apesar das explicações e do contexto jurídico, não fiquei convencido da correcta aplicação dos critérios de disciplina da Liga nem da justeza da decisão relativa ao castigo a Hulk. Mas nem isso mancha a sua atitude. As capacidades, frontalidade e fundamentação de Ricardo Costa são inatacáveis, no geral. Aparte algum excesso de vaidade, consegue ser convincente relativamente à postura que definiu para o órgão disciplinador da Liga. E, sem ser deselegante ou insidioso, respondeu a tudo e a todos.
JUDITE DE SOUSA E ANA LOURENÇO - Se havia dúvidas, ontem ficaram dissipadas. Judite de Sousa a entrevistar Pinto da Costa deu pena. Mal preparada, a armar em engraçadinha e a servir de cordeirinho ao presidente do FC Porto. Houve perguntas sem nexo, citações sem contexto e uma ignorância exibida à saciedade. Exemplo: nem sequer sabia da história do negócio dos terrenos da Câmara de Lisboa com o Benfica, que foi abundantemente falado nos jornais e nas televisões. De cada vez que a vejo, ao estilo Barbie, questiono-me sobre as supostas qualidades que a levaram a este estatuto e às “grandes entrevistas”. Ana Lourenço, por seu lado, esteve certeira e bem preparada na entrevista a Ricardo Costa, essa sim, de complexidade maior. Ainda que eventualmente ajudada via auricolar, fez as perguntas certas, pareceu entender tudo o que perguntava e estava atenta a qualquer incoerência do entrevistado. Ricardo Costa foi obrigado a explicar-se muito. E bem. E isso define, pelo menos, as qualidades de um jornalista.
Boa literatura
No AXN há uma série delícia: Castle. Nome de um escritor de livros policiais de sucesso que é autorizado a trabalhar com uma senhora polícia, inteligente e atraente, para se inspirar para novos livros. Pelo meio, ajuda a resolver alguns crimes. Os diálogos são divertidíssimos e, por vezes, há algumas pérolas. No último episódio, aparece um tipo que, por estar com amnésia, não se lembra de ter sido testemunha de um crime. A verdade é que também o tentaram alvejar a ele, mas a bala furou apenas o calhamaço de uma edição de Crime e Castigo, de Dostoievski, que ele trazia. Comentário de um dos polícias: «Foi a boa literatura que o salvou. Se andasse a ler Nicholas Sparks já estava morto».
A Time Out e o senhor das couves…
Tardou, mas foi. O primeiro número da Time Out Porto saiu este fim-de-semana e fez-me, desde logo, ter vontade de atirar uma pergunta a matar: porquê mensal? Hum?! Não se pode abreviar a coisa? Mau Maria! É, de qualquer modo, um excelente começo! Suculento e variado. E ainda tem uma crónica sobre o senhor da Foz que anda de carroça a vender hortaliças e ovos caseiros…O Porto passa, pois, a ter duas ofertas de qualidade e regulares em matéria de guias urbanos: a Visão-Sete Norte (destacável inserido na Visão, semanal, com mais de dez anos de existência) e agora a Time Out (mensal), esperando-se que se instale para ficar. E que venham mais cinco que o Porto, está bom de ver, anda a pedi-las…
A ver
Quatro actores inspirados (também Paulo Pires, pasme-se!). Um texto divertido e cheio de alçapões, precisamente para o espectador cair neles, delirante. Uma encenação de João Lourenço. E a prova, afinal, de que o teatro não precisa de ser incompreensível para se fazer compreender (O Deus da Matança, no Carlos Alberto e sala cheia, já agora!)
Lumiere
As galerias Lumiere, no Porto, estão de volta. Durante anos, ali funcionaram as mais simpáticas salas de cinema da cidade, com as primeiras cadeiras fofinhas e sem chiadeira, que logo se ajustavam ao rabiosque do espectador. Depois, as salas fecharam e as galerias, apesar da Poetria (livraria de poesia) e da eterna montra de postais, calendários e afins, lá foi definhando. Agora, é mais um dos sítios da renovada e imparável movida portuense. Sábado à noite, os 80´s mandavam, de Culture Club a Cure, de Táxi a Soft Cell. Sem complexos, sem preconceitos e quase, quase, dos 7 aos 77. Aquela década, pelos vistos, foi mesmo a melhor das nossas vidas. E o melhor das nossas vidas é poder vivê-la de novo, digo eu. E perceber que, afinal, quem ainda não tinha nascido nessa altura, também já entrou na onda. O passado aí está, mais do que presente. Deve ser a isto que chamam “saudades do futuro”.
(A)prove-se!
Baião tem duas feiras gastronómicas de eleição: a do anho assado e a do cozido e do fumeiro, que se realizou este fim-de-semana. Tudo aprovado com distinção, incluíndo o verde desta sub-região, sempre a fugir para maduro (avesso, porém, só no nome da casta). A colheita final fez-se depois fez-se nas barraquinhas do costume, com licor à mistura. E da amostra que aqui vos trago (salpicão, alheiras e broa de milho) já só sobra mesmo…a amostra.








