O regresso de Ermida

Escreveu um livro notável – Verdade, Humildade & Solidariedade (Livros d´Hoje) – sobre a falência dos valores nas empresas e a busca do êxito a qualquer preço. Dizia: «As lutas de poder dominam o dia-a-dia das grandes empresas. Os seus funcionários são confrontados com decisões que, apesar de lhes parecerem irracionais, lhes são vendidas como as mais acertadas do século». Esta semana, João Ermida, antigo corretor e gestor na área do mercado de capitais, volta a carga, desassombrado como sempre, em entrevista à VISÃO. E diz: «Continuamos com bónus de gestão que reflectem a actividade num ano e não o desenvolvimento sustentado da empresa no longo prazo. Os gestores querem realizar resultados rápidos para serem remunerados por isso. E essa prática gera erros que toda a sociedade acaba por pagar caro». Agora, ele lançou um novo livro. Chama-se Agarrem o Futuro, dirigido às gerações mais novas, pois esta, diz ele, «está esgotada». Leiam-no. É uma voz critica, sem partidarite, que vem de dentro do sistema capitalista. E fala, como poucos, das entranhas do bicho.

A devida na…Visão – XXXI

Acabou a festa?

Presumo que sem indisposições ou espelhos por perto, o senhor presidente do BCP, citado por um diário a propósito do estado do País, proclamou: “Acabou a festa”. Aparte o carácter circense da frase, é pena que ninguém tenha perguntado o óbvio ao senhor Carlos Santos Ferreira: “Acabou a festa para quem?”. E já agora: “Que festa?”.

Entre gestores, banqueiros e alguns políticos de turno existe, pelos vistos, uma ideia generalizada: o português comum vive em permanente banquete, sempre acima das suas possibilidades, a armar em rico. Curiosa ideia esta que transforma a nova versão da sardinha para três num repasto de faisão. E ainda por cima, em permanência.

Devo ter andado muito distraído nos últimos tempos.
De facto, devem ser os gestores de grande porte, o “bloco central de interesses” e os bancos, coitadinhos, que têm levado o País por bons caminhos e sem turbulências. Eles cumprem, está bom de ver, a espinhosa missão de nos colocar nos eixos. E nós, os delinquentes, teimamos em sair fora dos trilhos. Fica-se assim a saber, por exemplo, que assuntos relacionados com negócios de sucatas, aeroportos, privatizações, BPP´s, BPN´s, PT´s e submarinos fazem parte de um modelo de gestão rigorosa e acima de qualquer suspeita. Nós, pelos vistos, é que abusamos do “filet-mignon” e estamos a prejudicar o País. Somos, no fundo, uma despesa social incomportável. E dispensáveis nos intervalos entre eleições.

Por este andar, a democracia também terá custos insuportáveis.
Já faltou mais.

M.C.

Posta-restante – II

(Resposta a alguma correspondência chegada…)

Antes de mais, uma palavra para os amigos de Castelo de Paiva, que aqui têm deixado mensagens comoventes: obrigado, voltarei sempre que quiserem e precisarem. Entretanto, o Moedas Duarte também recordou o pátio da sua infância. A dor disto, meu caro, é já não conseguirmos mostrar a quem amamos a maioria dos lugares onde fomos donos do mundo. A Andreia, entretanto, pergunta o que são os cabeçudos. Ora, cabeçudos era o que a gente chamava aos girinos. No fundo, é um peixe-cabeçudo…mas pequeno. Para finalizar, o jogo do Inter em Barcelona: Ricardo, companheiro, aquilo foi, como dizes, um exercício de anti-jogo. Mas quem nunca fez anti-jogo que atire a primeira pedra. De resto, o Barcelona é, de facto, a melhor equipa do mundo no momento. E seria postura de kamikaze jogar de igual para igual a maioria das vezes. A jogar com dez, ainda pior. Todos sabemos como o Barça se apurou para a final no ano passado, mas o que é que ficou para a História? Barça campeão europeu, certo? O Mourinho está na final. Ponto. E não me digam que não é merecido. E, já agora, continuo sem perceber o azedume dos portistas em relação ao gajo. Sei que não saiu bem do dragão, mas devo-lhe, em termos desportivos, das maiores alegrias da minha vida. Momentos que alguns, se calhar, nunca terão. E isso não esqueço. Que o gajo seja feliz (e chega de bola por hoje)!

Ser ou não ser sexy

O Governo da dita «esquerda moderna» quer reduzir o subsídio de desemprego. A justificação é a dos sacrifícios que todos (quem?) temos de fazer. Hoje, na sua edição on-line, o Público explicava a coisa assim: «Representa a forma de o Governo tornar a situação de desempregado menos atraente face a situação em que terá emprego». Atraente?! Ah, claro: ter emprego é, sobretudo, muito mais sexy. Juro que não tinha pensado nesse ângulo…

Abril, 27

Farias 62 anos. A mãe foi ao cemitério deixar-te flores em nosso nome. Espero que tenham sido cravos, mas não perguntei. Para mim deixou de fazer sentido voltar neste dia a esse «não-lugar» da saudade que te temos. Prefiro guardar-te à minha maneira, com a consciência da perda irremediável, mas com uma certeza: é na memória viva que tenho de ti, dos teus gestos e palavras, que ainda me vejo inteiro, pai.

«O mal de quem apaga as estrelas é não se lembrar de que não é com candeias que se ilumina a vida»
MIGUEL TORGA

Are you a fanatic?

Esta quinta-feira, nos Maus Hábitos, no âmbito do Programa de Aprendizagem ao Longo da Vida, a associação PELE propõe um debate sobre o Fanatismo. Não está mal, antes de um FC Porto-Benfica, mas a coisa é para levar mais longe, à sombra de uma questão: «Are you a fanatic?! Actual meanings on Fanaticism”. Na sessão, que começa às 22 horas, participam Daniel Seabra (antropólogo e investigador sobre claques de futebol) e Gil Nata (professor universitário e investigador em áreas relacionadas com a etnia cigana). Promete!

O pátio

As corridas de carrinhos de Fórmula 1. E de sameiras. Gilles Villeneuve, Didier Pironi, Alan Jones e outros. O «baliza a baliza». E eu armado em Ubaldo Fillol (quem não sabe, é favor ver na wikipédia), com asas que nem sei. As tentativas de ensaiar e imitar «O Caminho das Estrelas», eu a fazer de Mr. Spock – «Capitão, um planeta! Vamos lá!» – e a vizinha a temer pela roupa no estendal, por entre tiros imaginários e correrias a sério. A minha mãe à varanda a repetir o «anda para cima, se vou aí tu vês…!!!». Os legos pelo chão, partilhados entre amigos. A roupa rasgada vezes sem conta e logo remendada. Cotoveleiras e joelheiras cosidas pela minha mãe, em horas intermináveis de costura e pedal, com intervalos para pães com manteiga e leite «achicolatado», dizia eu.
O pátio da minha casa, das outras casas, era o meu mundo, tão grande como a imaginação. Ali acontecia tudo o que os sonhos de menino pediam. E bastava querer. Craque, capitão, cowboy ou craque. Por vezes, aparecia esmurrado, afogueado. E à hora de jantar já sabia que não escapava do sermão que durava, por vezes, até à sobremesa. Dias felizes, dos mais felizes que uma criança pode ter. Sempre ao ar livre, «debaixo do céu e por cima do chão»: caçando cabeçudos no rio, tomando banho no tanque ou a saltitar de fisga nos calções, à cata de tudo e de nada, na bouça que ficava perto. Tempos de adormecer e acordar para um dia igual, mas sempre irrepetível.
O pátio de que falo, da minha infância, é o que aparece na fotografia. O tempo abriu as inevitáveis fissuras, desmoronou pedaços desse tempo, já ninguém lhe dá uso, talvez a minha mãe, às vezes, ainda estendendo a roupa em varões de madeira carcomidos. As memórias, essas, estão intactas. Crescemos. Cresci. Mas queria tanto que fosse só um bocadinho…