Eu, missionário

Wayne Hussey foi o vocalista da minha banda preferida entre a adolescência e a entrada para a idade adulta: The Mission. Se a memória não falha, acho que vi quase todos os concertos em Portugal, comprei os lp´s, os cd´s e videos (piratas também, mas o crime já prescreveu) e lembro-me de, no final dos anos 80, correr para a Fnac dos Campos Elísios por causa de uma t-shirt da banda. Com quatro graus positivos naquele Dezembro de 1989, lá andava eu, pelas ruas de Paris, com a t-shirt preta com os «góticos» Mission, a armar ao pingarelho e a desafiar uma gripe valente…Insanidades pelas quais todos devemos passar para podermos substituir por outras ao longo da vida.

Antes disso, o vício contagiara amigos e até familiares: aos 12, 13 anos, já o meu irmão cantava algumas das letras e até a minha mãe e uma tia não resistiram à curiosidade de ver a banda no Coliseu, naquele que terá sido o seu melhor concerto. Era vê-las, assustadas, mas divertidas, entre uma fauna de negro vestida, uma legião de pinta gótica e com ar de quem a seguir ia gravar a versão 37 do Halloween.

Na velhinha escola Filipa de Vilhena, eu carregava às costas, quase sempre vestido de cinza e preto, um saco da tropa comprado em segunda mão, desenhado com as famosas Tower Eagles que eram a marca da banda e os dizeres The Mission Boy from Porto, nome com o qual assinei alguns Pregões e Declarações (ou divagações pindéricas de patinho feio para engatar meninas incautas) no velhinho Blitz.

Prova de que tudo tem um tempo para ser vivido e experimentado, já não compro cd´s dos Mission há uns anos, mas conservo, com carinho e alguma humidade e pó, as relíquias de outrora. De quando em vez, lá se arranja uma sessão privada para manter em dia temas como Severina, Like Child Again, Garden of Delight, Blood Brothers e tantos outros. Ora, toda esta conversa para dizer que o velhinho Wayne Hussey (já vai nos 50, fora as drogas), estará em Lisboa e no Porto muito em breve (ver cartaz). Obviamente, lá estarei e vai-me dar para o revivalismo, de peito cheio. Mas sem dizer «ó tempo volta para trás», bem entendido.

E se…?

E se um dia, sem nada mais a perder, decidissemos mudar o sistema judicial fazendo justiça com as próprias mãos? Interessante exercício, mas um bocadinho curto de ambições este filme (Um Cidadão Exemplar) onde – meninas e senhoras, salivem! – Gerard Butler interpreta o justiceiro maníaco que todos carregamos dentro.

A Palmilha que morde

É um regresso em grande – mas com fim anunciado? – de uma companhia que faz teatro sem freio. O que emociona nesta nova produção da Palmilha Dentada, para rir ou chorar, vem com um nervoso miudinho. Porque 7:AM tem um sentido de humor à flor da pele, diverte e contagia, arrancando sorrisos e gargalhadas por conta da doçura, da ingenuidade e do improvável. Mas, por vezes, toca-nos noutras cordas, quase sem darmos por isso. E essa é a marca do talento de Ivo Bastos e Rodrigo Santos, dois actores em ponto rebuçado. Uma nota: esta peça só foi possível porque 1008 pessoas (co-produtores) assinaram um contrato e se comprometeram a comprar dois bilhetes. Até 9 de Maio, a Palmilha está na Sala-Estúdio Latino, no Teatro Sá da Bandeira.