A Devida…na VISÃO – XXXV

À mesa dos orçamentos

Não sei se já repararam, mas começa a fazer cada vez mais sentido a expressão “à mesa do orçamento”. O que só espantará quem ande distraído e não tenha percebido que, em Portugal, tudo se resolveu sempre entre uma garfada e um copo.

Já tivemos o orçamento do queijo com António Guterres.

E temos agora o orçamento do tofu e do leite achocolatado de Sócrates e Passos Coelho.

À mesa deste orçamento não falta sequer um tempero ideológico. À esquerda, alguns congratulam-se agora com o facto de a Coca-Cola deixar de ser considerada um alimento de primeira necessidade. À direita, há quem veja no consumo de sobremesas lácteas um aburguesamento gastronómico por parte dos pobres e remediados.

Mais estranho é o facto das conservas de polvo passarem de 13 para 23 por cento de IVA, quando se sabe que o molusco é, de longe, o alimento básico da atividade política e financeira do País. Discutam-se, à mesa, os resgates públicos dos bancos privados ou a compra de submarinos e logo o polvo é chamado a fazer parte da ementa. Como já foi sobejamente demonstrado, a face oculta dos negócios em Portugal tem menos a ver com sucata e mais com o sítio certo para saborear o dito bichinho com batatas a murro.

De uma forma geral, quem nos governa habituou-se, durante anos, a viver com orçamentos gourmet. Ainda o termo não havia sido inventado e já os portugueses pagavam, através dos impostos, couro e cabelo por refeições com mais prato do que comida. Caímos, enfim, na realidade. E de forma dolorosa. Pelos vistos, andamos há demasiado tempo a comer com os olhos. E se isto não é verdade, vejam o que andam por aí a dizer uma certa esquerda caviar, o marxismo de tasca e até, por vezes, a direita do faisão.

No fundo, a tragicomédia da pátria é um tema gastronómico desde O Crime do Padre Amaro ao arroz de favas de Jacinto, passando pelo Vencidos da Vida. Não admira, por isso, que a maioria dos portugueses questione, mais do que nunca, como é que alguns continuam sentados à mesa do orçamento enquanto outros, desfeita a ilusão de um País de hipermercado, regressam à sardinha para três.

A dieta mediterrânica, na sua versão escanzelada, é, pois, para levar a sério. À mesa do nosso orçamento, impõe-se a couve-de-Bruxelas. A soberania, essa, é um repolho.

M.C.
(www.visao.pt)