Dia 30

Fazem hoje 15 anos que, pela madrugada dentro, morreu o meu pai. Tinha 47 anos e foi um dos seres mais extraordinários e justos que conheci. Nos seus últimos dias de vida, já quase sem conseguir mover-se, ainda conseguiu alinhavar umas palavras escritas: deixou-as ao cirurgião que tudo fez para que se salvasse, agradecido. Sem lamechices. Eu, que não sou religioso e, infelizmente, não acredito na existência de uma eternidade fundada na fé, pedi para que, na campa do meu pai, fosse inscrita uma frase de Torga: «O mal de quem apaga às estrelas é não se lembrar de que não é com candeias que se ilumina a vida». Neste dia, 15 anos depois dessa madrugada em que fui a última pessoa a vê-lo e trouxe para casa as últimas forças da sua mão agarrada à minha, deixo esta canção de Joe Cocker. Porque ele gostava e eu não esquecerei.