Foi presente. E veio para ficar. Asa, cantora francesa de origem nigeriana. Deliciem-se que eu também…
Arquivos Mensais: Novembro 2010
Prenda minha
Dizer obrigado…e não chega
Não sei o que vocês viram em mim. Não sei como é que a minha mana de sempre – e para sempre – arrancou a todos esse encanto, essa forma de dizerem presente como se nunca mais houvesse ausências. Três dias depois ainda releio os textos que todos escreveram numa «carta de afectos» de um metro e sessenta que me viram desembrulhar em espanto e choro. E fecho os olhos, de novo e outra vez.
Os passos, os traços, os momentos que guardaram. Os dias que registaram. Os gestos em que nos demos e entregamos. Nunca me vi escrito, inscrito assim. Nunca me senti tão inteiro dentro do que somos, em conjunto. Nas nossas vidas, nos nossos locais de trabalho, nos nossos ditos e feitos, nos nossos lugares…comuns.
Aqueles textos, aquelas palavras habitadas com o que os olhos viram, com o filho que gostava de ser, com o irmão que não fui, mas dizem que sim. Ah! Saber, assim, que a nossa história tem Porto, tem Paixão, tem amor, tem partilha, tem beijinhos doces e mágicos, tem alheira quentinha, tem “amo-te muito”, tem “pachhh…amas nada”, tem bola de pêlo na hora de dormir…tem bolas de berlim surpresa, tem sorriso lindo, tem bifanas com queijo a horas tardias, tem meiguices, Alentejo, tem livros, tem tanta, mas tanta coisa boa. De mão dada.
Saber, por vocês, que os ínvios trilhos da vida seriam mais pérfidos, mais desamparados, mais ácidos, mais indignos, mais enxertados de nada. Ajudar a contar dias e dias de cumplicidades, anos e anos de cruentas e belas vivências que plantam uma amizade tão fio de prumo que nem a puta da morte enterrará.
Ah! Sermos capazes de olhar para o mundo e sorrir, sempre disponíveis para o melhorar, mesmo quando se percebe, à partida, que vamos falhar, mas conscientes de que vale sempre a pena tentar, tentar e tentar. Saber por perto, como um afago de pai, a integridade absoluta.
Saber que seremos sempre berços no mesmo quarto, maternidade de afectos, corrida louca na estrada da amizade eterna, sem limite de velocidade.
Saber que, no rasto de cada palavra, fica um silêncio facilmente decifrado pela cumplicidade que inaugurámos um dia, sorrisos largos, a porta sempre aberta, porque o coração tem letras desenhadas com paixão e partilhas de sonhos sem tamanho nem validade. Saber das cumplicidades, danado pela vida, mordendo-a no pão, no vinho e de bandeira em riste.
Perguntar, afinal: há quantos governos nos conhecemos, há quantos défices? Nesta viagem, vossa, minha, não se carregam fardos com as palavras, porque o verbo é casta, abraço. A amizade pode ser esse maço de jornais e revistas debaixo do braço, as calças que nunca chegavam aos tornozelos, as camisas desfraldadas, o Toninho das Meiguices, nosso saudoso Pinto, Alves Pinto, a fazer-nos sentir família e a dar sentido ao que somos. O tempo traz as rugas, mas um dia uma pintora disse-me que elas são a nossa história e eu acreditei. Que outros se mascarem e nós não, digo, à boleia de um verso.
Encaixar nisto, pelas vossas palavras, as patuscadas, a grandeza das coisas nos gestos simples, o vermelho e o azul, cores de dentro, e todas essas vezes que falámos da importância das coisas e das coisas importantes. Uma Grândola cantada em Dezembro, El Comandante no relvado, o jornal que queremos fazer. Memórias e futuro.
Talvez eu goste, também, de perceber o mundo, o meu mundo, através dos vossos olhos. E descobri-los. Ah, e se alguém disser que o cabo dos 40 é uma esquina aguçada de fio cortante, é mandá-lo à merda. No fundo, talvez sejamos essa fortaleza afectiva que tem memórias como poucos. Podemos não ter Paris, mas teremos sempre Aníbal Cunha, cravos e manifs às cavalitas dos pais…Uma infância com festa de anos todos os dias e sementes de cravos plantadas no coração e na razão que nos acompanham vida fora.
E querer juntar a isso, talvez, essa capacidade de nos pormos dentro de enormes abraços. Sermos radicais que recusam sagazmente o extremismo, mas nunca as ideias. E, um dia destes, quando os tempos forem outros, chegarmos a uma margem qualquer e termos uma longa conversa. Sobre a vida, o amor e as vacas, naturalmente. Será domingo à tarde e talvez também se alinhem imaginários entre discos à procura de canções.
Bebo, em vocês, a paixão, a curiosidade, a inspiração, talvez o destino, a inquietação, a generosidade em aço puro que me dão e a criação feita pássaro, dádiva, junco. Já rimos, quase choramos. Já bebemos (e bem) e brindamos, acolhendo e dando chão, espécies em extinção.
Talvez não nos chegue, enfim, o alfabeto de todas as civilizações para dizer o quanto disto é amor, feito também de silêncios cúmplices. Sem a paz de nos termos, sem o lado de dentro do nosso abraço, nunca chegaríamos ou estaríamos em casa. Mas estamos. E esta paredes que ergui, aqui, tricotando palavras vossas, é apenas para dizer que, assim vos vejo a todos, inteiros e firmes, mais do que a mim.
Sou vosso.
(Em nome da mais bela entrada nos 40. E das poucas certezas que tenho para a vida: o amor e os amigos, sempre cúmplices)
Saída de…«IMERGEncia»
O dia mais longo é hoje. Fechamos as portas do Espaço Imerge só para nós. Sim, e para os amigos que nunca nos faltam. Ah! E isso de entrar nos 40…balelas! Pior seria se os 40 entrassem em nós. Fiquem-se com uma das canções obrigatórias desta madrugada que nos espera.






