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Entrega dos prémios Gazeta do Clube de Jornalistas no Salão Nobre da Caixa Geral de Depósitos. Foi bom ter as mulheres da minha vida por perto, voltar a rever velhos amigos e privar com alguns camaradas que me habituei a admirar à distância, como Mário Zambujal e Eugénio Alves. Na mesa de honra, sentaram-me ao lado do Presidente da República. Julgo não estar a cometer qualquer inconfidência se disser que conversamos longamente sobre os dilemas do Norte e do Porto, sobretudo do ponto de vista jornalístico. Cavaco quis saber em que pé se encontravam alguns projectos na área dos «media» e as razões pelas quais a afirmação de uma região cheia de talentos em várias áreas continua a tardar dentro do próprio território nacional. Expliquei o que pude, o melhor que sei. Creio ser genuína a preocupação do Presidente com os riscos de uma formatação em série da Imprensa. Em amena conversa, Cavaco confessou-se mesmo preocupado com a falta de diferenciação de alguns jornais diários, cada vez mais iguais entre si. De facto, como poderia eu desmenti-lo?
Foi uma noite simpática, com várias emoções e partilhas à mistura.
Agradeço daqui as inúmeras mensagens que me chegaram de amigos e camaradas de profissão que não têm preço. A pedido de alguns, aqui deixo então a breve intervenção que fiz durante a cerimónia de entrega dos prémios. Obrigado, pois, pela força e incentivo de todos os dias. E um xi apertado.

Exmo. Sr. Presidente da República
Exma Sra Dra Maria Cavaco Silva
Exmos administradores da Caixa Geral de Depósitos
Caros camaradas de ofício
Minhas senhoras e meus senhores

Queria, antes de mais, fazer alguns agradecimentos:

- Em primeiro lugar, à minha família e amigos que me incentivam e estão do meu lado em todos os momentos.
- Agradecer, depois, a todos os camaradas que, nas redacções do Diário de Notícias, do Independente e da VISÃO fizeram de mim, ao longo de 20 anos, aquilo que sou hoje. Cito dois deles – Alfredo Mendes e Pinto de Carvalho – por representarem o que há de mais decente, valioso e íntegro neste ofício. Só um conceito merceeiro da gestão do negócio jornalístico fazm que estes dois profissionais de excelência estejam hoje fora da profissão.
- Um abraço e um agradecimento muito especial aos camaradas da VISÃO, dos gráficos à direcção, que têm emprestado a sua dedicação, talento e arte a um jornalismo que recusa ser engolido pelas vertigens da moda e por este ar rarefeito que respiramos. Neste particular, gostaria de lembrar, aqui e agora, o nome de Cáceres Monteiro, um dos fundadores da VISÃO, a quem devo a minha entrada na revista. Através do seu nome e da sua memória, quero homenagear todos os que partilham esta aventura da escrita.
- Uma palavra, ainda, para a redacção do Porto da VISÃO, onde fisicamente trabalho. Uma redacção que, apesar de pagar literalmente o preço de estar localizada na parte do País que, por vezes, até parece que não vem no mapa, continua a honrar o jornalismo, a cidade e a região em que se insere.

Gostaria ainda de felicitar os outros premiados:
- O Repórter do Marão, na pessoa do seu director, por conseguir provar que é possível um jornalismo de proximidade, digno e de qualidade, sem prostituir valores. O Repórter do Marão é o exemplo de que, numa região esquecida, é possível fazer um jornalismo que serve as populações sem deixar de ser um sucesso comercial.
- Ao João Paulo Guerra, uma das minhas grandes referências profissionais e uma das pessoas que influenciou, sem o saber, a minha vontade de ser jornalista. Estar hoje aqui a receber um prémio ao lado dele é, para mim, algo além dos sonhos.

É uma honra receber esta distinção da parte de um júri do qual fazem parte pessoas que fui admirando à distância e que hoje, fnalmente, pude conhecer.
Mas, acima de tudo, entendo este prémio como uma homenagem à Imprensa escrita e a todos aqueles que, de Norte a Sul, por vezes enfrentando a mais ignóbil falta de escrúpulos e de meios, se recusam a escrever sem sombra de paixão.
Quero, de resto, dedicar este Prémio Gazeta a todos os camaradas de profissão que, mesmo perante os ventos do avesso, continuam firmes na defesa de um jornalismo com memória, identidade e responsabilidade.

Os tempos não estão fáceis também para nós, jornalistas.
Há quem, sem qualquer ligação ao meio e a esta nobre profissão, pretenda impor-nos um jornalismo low-cost, padronizado, feito de Portugal sentado e idolatrias do óbvio, montado, cada vez mais, numa desumanização galopante.

Mas a defesa do jornalismo, a sua independência e responsabilidade, não é um problema de jornalistas. É um problema de cidadania. E deveria ser uma causa de todos nós. A dignificação do jornalismo e dos seus profissionais é uma garantida de sociedades mais fortes, exigentes e pluralistas.

Um jornalismo mercantil, fragilizado, precário e acessório, ao sabor de imediatismos e de modas é um risco tremendo para a democracia e as liberdades.

Eu sei que o jornalista não pode mudar o mundo.
Mas continuo a pensar que é nosso dever tentar exercer a profissão como se isso fosse possível.
E para isso não basta ser livre. É preciso ter coragem.
Se não cuidarmos do que lemos, do que escrevemos e do que transmitimos, estaremos a contribuir para que se cumpra, sem volta atrás, uma velha sentença do escritor Mário de Carvalho: «Um jornalismo cão há-de merecer um mundo cão».

Lisboa, 15 de Novembro de 2010

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