
Petiscada natalícia à maneira com os tios, à volta de enchidos de Mirandela, folar e queijinhos de várias proveniências. Com tinto a condizer, pois então! Vieram depois à superfície memórias da família que vale a pena guardar (e um dia terei de gravar). Do que muito ouvi, soube então que o meu avô paterno – de quem tenho eterna saudade – viveu toda uma vida a sonhar com uma única coisa: dar um bife de quarto aos filhos, um regimento deles. E quando se viveu isto, que mais há para dizer sobre os tempos que correm? Há, de facto, lições familiares que deveriam passar de geração em geração como um testemunho. Sem saudosismos balofos do género «dantes é que era bom», mas com respeito pela memória. E por quem a viveu para contar.
Quarta-feira deliciosa na companhia de dois novos amigos, cúmplices de afectos vários. Caminhada pela Baixa a desfiar outras memórias e a deitar olho às modernices. Cheiro a peixe frito nas ruas e gritos das varandas, com pronúncia cerrada. Palavra gourmet proibida. Almoço na minha segunda casa: o Chien do senhor António, homem a merecer estátua às artes de bem servir e receber. Conversa e comeres de lamber os beiços (a aboborada nem pestanejou). As intelectualices ficaram à porta e trocaram-se confidências sobre o Porto sentido, futebóis, vinhos, projectos na gaveta e em curso e até sobre comboios que ronronavam sobre linhas entretanto desaparecidas da vista, mas nunca do coração. Dias cheios. Bem cá por dentro.
(a foto é de uma montra na Rua das Flores. Sinal dos tempos)
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