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Arquivos Mensais: Janeiro 2011

Conversa de autocarro

Autocarro 300. Vou de cabeça metida no Michael Cunningham, tentando concentrar-me nas páginas. Nada feito.
No último banco, três raparigas dos seus 14 anos ouvem música a partir de um telemóvel. Identifico um dos cantores: Justin Bieber, o puto maravilha da miudagem. A conversa, que vai solta, é nestes termos:

- Noutro dia, a lésbica da turma queria que eu me sentasse no colo dela.
- Ela é uma porca, passa a vida a querer apalpar e tudo…
- «Num» tenho nada contra as lésbicas, nem contra ela, mas ela é porca…
- É, vem logo com as mãozinhas e aquelas conversas a ver se leva alguma coisa…
- Ainda se fosse um gajo bom! Era logo!
- Como o enfermeiro da minha mãe!
- Ah! Esse…
- Tou mortinha por ir fazer as análises! Só espero que seja ele a dar-me a pica…

 
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Publicado por em 31 de Janeiro de 2011 in devida comédia

 

O doce envelhecer

Fez-me lembrar Straight Story, de David Lynch, um dos filmes da minha vida. Tom and Gerri (veja-se a ironia), compõem um casal já entradote, cheio de boa disposição, cumplicidade, uma casa maravilhosa e convívios aconchegantes. Esta é a história da sua família, das vidas despedaçadas dos seus amigos e da forma como eles juntam todos os cacos e encantamentos entre quintais, flores, abraços, lágrimas, sorrisos, partilhas, vinhos e sabores. Um filme sobre a aprendizagem da doçura do envelhecimento e de como ele pode ser o chão de outras vidas. Melancólico e divertido, silencioso e dramático, por vezes, Um Ano Mais, de Mike Leigh, é um filme sem pressas, um travesseiro para as agruras e sobressaltos da existência, habitado por meia-dúzia de actores de rara colheita.

 
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Publicado por em 30 de Janeiro de 2011 in devida comédia

 

O senhor Allen

Não é o melhor Woody Allen. Mas haverá um Woody Allen mau, além de Scoop? A ironia, o sarcasmo, as dores da alma e de corno, a velhice mal digerida, as crenças de fancaria, os amores tremidos e destemidos, os enganos e as reviravoltas que só uma mente brilhante poderia idealizar. Aparte um Banderas a fazer de Banderas e um Hopkins «nem carne nem peixe», uma deliciosa descoberta: Lucy Punch (Charmaine), a loira de companhia, com mais hormonas do que neurónios. Não é o melhor Woody Allen, já se disse, mas é melhor levar bloco de apontamentos porque volta a ter diálogos…daqueles!

 
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Publicado por em 30 de Janeiro de 2011 in devida comédia

 

As lendas de Cleto

Primeira sessão da III Série da Comunidade de Leitores. Joel Cleto, arqueólogo e historiador, a abrir o livro das suas «Lendas do Porto» (Quidnovi). Vieram à baila as histórias da tradição oral que desafiam a História e onde a resistência da cultura popular é mais forte do que todos os poderes para impor a História. Casos do altar de prata da Sé do Porto e da «Campa do Preto», de Gemunde. Para Joel Cleto, as lendas são marca identitária de um povo e de uma região. E mesmo num mundo tecnológico, escrutinado, vigiado e quase sabido de cor e salteado, nem tudo está irremediavelmente perdido. «Enquanto o homem tiver apetência pelo fabuloso e um adulto contar uma história a uma criança, as lendas terão futuro». Disse.

(O regresso das sessões da Comunidade e do ciclo «Porto de Partida» está marcado para 26 de Fevereiro, às 17 horas. Convidado: Rui Rio, presidente da Câmara do Porto. Em debate vai estar o seu livro «A Política in situ», da Porto Editora. Até lá, então.)

 
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Publicado por em 30 de Janeiro de 2011 in devida comédia

 

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Comunidade – Take 1

Este sábado, pelas 17 horas, JOEL CLETO, autor do livro «LENDAS DO PORTO» (Quidnovi), é o convidado da primeira sessão da III série da Comunidade de Leitores da Almedina do Arrábida Shopping. “Porto de Partida” é o mote para os debates e conversas das tertúlias da Almedina, num ambiente onde o Porto será sempre o pretexto para outras leituras, temas, lugares e reflexões. Apareçam!

SINOPSE «Lendas do Porto»
«Uma viagem pela História e Património da região do Porto a pretexto de mais de duas dezenas de lendas. Através destas páginas o leitor é convidado a (re)visitar monumentos como a Sé do Porto, a Torre de Pedro Sem, a Casa de Ramalde, a capela do Senhor da Pedra ou a igreja de Matosinhos. Mas também a contactar com personalidades históricas como o rei Ramiro, Zé do Telhado, Camilo Castelo Branco, D. Pedro IV ou o Infante D. Henrique. Aqui encontrará igualmente as explicações lendárias para a origem dos “tripeiros”, da associação da concha da vieira aos Caminhos de Santiago, ou de topónimos como Miragaia, Matosinhos ou Valongo.

Episódios fabulosos, transmitidos durante séculos através da oralidade, as lendas não deixam de encerrar pistas preciosas (por vezes as únicas que chegaram aos nossos dias) para a compreensão de muitos episódios históricos e para a génese de muitas localidades e seus monumentos.

Mas, para lá de lenda, o leitor encontrará também as respostas que, entretanto, a História e a Arqueologia encontraram para as dúvidas e questões que motivaram os nossos antepassados para as suas explicações lendárias.»

 
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Publicado por em 28 de Janeiro de 2011 in devida comédia

 

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Badagaio

Quando me dá um badagaio qualquer opto sempre por um hospital público. Apesar das esperas e dificuldades, continuo a confiar mais neles do que nos privados. O caso passou-se ontem. Tonturas matinais, a casa à roda e eis-me, a meio da tarde, num dos hospitais do Porto. Pulseirinha amarela, garantia de atendimento numa hora. Dizem. Verifico, porém, que a triagem de Manchester vem com um delay considerável. Fui atendido depois das 20 horas.

Na sala de espera, passo o tempo a ver a «notável» programação televisiva da tarde nos canais generalistas. Ou deveria chamar-lhe indigente? De programas a séries, passando por blocos publicitários de quase meia-hora, tudo parece devidamente empacotado a contribuir para a anestesia geral. E quando o momento do dia pode ser «a gala do Eusébio, logo à noite», talvez o País precise mais de um divã do que as urgências de um hospital.

A meu lado, conversas cruzadas. Primeira impressão: é triste, para não dizer preocupante, que uma parte das pessoas com pulseirinhas de várias cores, já se conheça das salas de espera. Partilham dores e maleitas, cumplicidades: o desgoverno da filharada, o que vão fazer para o jantar se saírem dali cedo e até lamentos sobre essa coisa «das internetes que, parece que ajudam muito no trabalho, mas só servem para destruir lares porque é aí que os homens conhecem as brasileiras».

A dada altura da espera, pensei seriamente em regressar a casa sem consulta nem medicação. Se tinha tonturas, tonto fiquei. Os dramas ouvidos nas conversas em volta não ajudam. E pior não ficaria se regressasse a casa pelo meu pé.

Por volta das oito da noite sou atendido num corredor de «ais» e «uis» em stereo. Os enfermeiros, jovens, quase todos compreensivos e muito pacientes, acodem como podem a velhinhos que querem fugir porta fora, mulheres que não sabem porque estão a soro e rapazes que esperam há 24 horas pelo diagnóstico definitivo do pai que teve uns princípios de AVC. Os enfermeiros andam num rodopio, entram e saem com luvas e seringas e, na volta, até trazem o andamento do resultado dos jogos da TV. «2-0 para o Porto».

Quando sou atendido, a doutora declara-me com síndrome vertiginoso, «a doença da moda». Tiram-me sangue – com um quase desmaio pelo meio resolvido a bolachas. deixam-me quase uma hora a soro – garrafinha que, no privado, custa quase tanto como um Barca Velha. Ao que consta.

Saio quase às 21.30. Pago 20 euros pela taxa e pelos medicamentos. Depois, atiro-me a uma espetada de lulas e esqueço o resto do dia. Apesar de tudo, se estiver no meu juízo, continuarei a escolher um hospital público. Explico: deixaram-me quase uma hora a soro, é verdade. Mas a mesma garrafinha, no privado, custa quase tanto como um Barca Velha.

 
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Publicado por em 27 de Janeiro de 2011 in devida comédia

 

Um regresso soberbo

Primeiro clip do novo disco da grande, grande Cristina Branco. Deliciem-se, que isto pega-se. (obrigado pela dica, Carlos).

 
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Publicado por em 27 de Janeiro de 2011 in devida comédia

 

Culpa digital?

Primeiro: a BBC vai despedir quase 400 trabalhadores e fechar 200 sites e serviços on-line. Segundo: um estudo revelado em Inglaterra aponta o Facebook como culpado por 28 milhões de divórcios (não há dados sobre os casamentos). Pelos vistos, o futuro é off-line. Ou será off-side? Já nem sei bem…

 
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Publicado por em 25 de Janeiro de 2011 in devida comédia

 

A Devida…na VISÃO – XXXVII

Formas não radicais de acabar com a abstenção

Mais de cinco milhões de portugueses não votaram nas Presidenciais. E só um quarto da população votou no senhor que ganhou. Como eu os entendo. Quem fosse dar um passeiozinho ao shopping, nem uma mesa de voto tinha por perto, caramba. Na televisão, de resto, havia povo eriçado com um cartão único na mão que, além de não dar descontos, se revelou pouco simplex na hora do voto. Em Lisboa, até se votou num stand de automóveis mas, lamentavelmente, nem sequer um triciclo havia para sortear.

Não me parece bem.

Portugal tem um problema abstencionista. É uma coisa duradoura, tipo reumático. Uns chamam-lhe “indiferença”, outros “sinal de protesto”. Errado. O caso clínico português abstencionisto-baldas é um problema de estímulo. A receita já nos tinha sido dada por Maomé: se o povo não vai ter com a política, vai a política ter com o povo. E em Portugal, Maomé leva vantagem sobre a maioria dos candidatos, pois é tão conhecido como o presunto.

Na verdade, a política não tem estado onde deve e exibe um fatal desconhecimento dos hábitos e aspirações do seu povo.

Desde logo, não faz sentido que, para votar, as pessoas tenham de se dirigir maioritariamente a escolas. Os mais jovens já lá passam uma boa parte da semana e esse é de certeza um sítio onde não querem ir ao domingo. Alguns mais adultos, tendo passado por lá, não aprenderam nada. O sítio, está visto, não é atrativo. E o mesmo vale para as juntas de freguesia. Quem quer reservar o domingo para passar num sítio onde só há editais a falar da peste suína?

As eleições deveriam ser todas em janeiro, por alturas dos saldos. Dispunham-se mesas de voto pelos principais centros comerciais e ruas da moda e cada boletim de voto dava direito a descontos nas principais marcas. Pelo meio, podia organizar-se o concurso do melhor eleitor Zara ou um casting de acesso a uma série instrutiva tipo “Morangos com Açúcar, entre São Bento e Belém”.

Futebol e eleições também deveriam poder conviver, que diacho! As mesas de voto às portas dos estádios podiam ser uma solução, desde que cada boletim depositado na urna desse direito a duas cervejas e um balde de tremoços.

Mesmo o Santuário de Fátima deveria abrir portas em dia de eleições, dando assim sinais de compromisso divino com a democracia. Por cada voto, acendia-se uma velinha e quem quisesse podia levar para casa o seu Aníbal de cera ou seu Alegre brise contínuo.

Os jovens deviam poder votar por antecipação. Ao sábado à noite, claro, para evitar ressacas prejudiciais à saúde da nossa democracia. Os bares e discotecas funcionavam como secções de voto e o boletim colocado na urna dava direito a duas bebidas de cápsula com amendoins por conta da casa.

Não há também qualquer razão para que as urnas não estejam às portas dos cemitérios, uma vez que, pelos vistos, dez por cento dos mortos ainda vota no Continente e ilhas. Na Madeira, parece que o caso é ligeiramente diferente: os mortos, além de votar, pelos vistos até podem ser eleitos, dado o seu jeito para parecerem eternos e bem conservados, ainda que em vinha d´alhos.

De resto, muito menos se percebe que não haja mesas de voto à entrada dos hipermercados. Por cada sarrabisco no boletim, um bolo-rei. Uma toalha de mesa. Ou até um salazar, que faz sempre falta numa casa. Por pouco mais, caros concidadãos, já há ofertas de crucifixos e faqueiros nos jornais.

Por último, e porque sabemos que há sempre uns abstencionistas empedernidos e com palanque de jornal, poderíamos abrir algumas exceções. Uma mesa de voto na mesa do costume do Gambrinus, por exemplo, poderia ser um bom método, quem sabe.

São pequenos exemplos – contributos cívicos, diria – para responder ao grave problema de que enferma a nossa democracia. São medidas urgentes para revitalizar o regime e o País. Caso contrário, mais vale seguir o exemplo da Gralheira: põem-se dois bois à porta e fecha-se a tasca.

M.C.
(na Visão, já se usa o acordo ortográfico)

 
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Publicado por em 24 de Janeiro de 2011 in devida comédia

 

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Para si, Maria

Como diz uma amiga minha, com a reeleição de Cavaco, fica ao menos salvaguardada a subsistência da dra. Maria. Afinal, coitada, é o marido que a tem de sustentar…

 
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Publicado por em 24 de Janeiro de 2011 in devida comédia

 
 
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