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Formas não radicais de acabar com a abstenção

Mais de cinco milhões de portugueses não votaram nas Presidenciais. E só um quarto da população votou no senhor que ganhou. Como eu os entendo. Quem fosse dar um passeiozinho ao shopping, nem uma mesa de voto tinha por perto, caramba. Na televisão, de resto, havia povo eriçado com um cartão único na mão que, além de não dar descontos, se revelou pouco simplex na hora do voto. Em Lisboa, até se votou num stand de automóveis mas, lamentavelmente, nem sequer um triciclo havia para sortear.

Não me parece bem.

Portugal tem um problema abstencionista. É uma coisa duradoura, tipo reumático. Uns chamam-lhe “indiferença”, outros “sinal de protesto”. Errado. O caso clínico português abstencionisto-baldas é um problema de estímulo. A receita já nos tinha sido dada por Maomé: se o povo não vai ter com a política, vai a política ter com o povo. E em Portugal, Maomé leva vantagem sobre a maioria dos candidatos, pois é tão conhecido como o presunto.

Na verdade, a política não tem estado onde deve e exibe um fatal desconhecimento dos hábitos e aspirações do seu povo.

Desde logo, não faz sentido que, para votar, as pessoas tenham de se dirigir maioritariamente a escolas. Os mais jovens já lá passam uma boa parte da semana e esse é de certeza um sítio onde não querem ir ao domingo. Alguns mais adultos, tendo passado por lá, não aprenderam nada. O sítio, está visto, não é atrativo. E o mesmo vale para as juntas de freguesia. Quem quer reservar o domingo para passar num sítio onde só há editais a falar da peste suína?

As eleições deveriam ser todas em janeiro, por alturas dos saldos. Dispunham-se mesas de voto pelos principais centros comerciais e ruas da moda e cada boletim de voto dava direito a descontos nas principais marcas. Pelo meio, podia organizar-se o concurso do melhor eleitor Zara ou um casting de acesso a uma série instrutiva tipo “Morangos com Açúcar, entre São Bento e Belém”.

Futebol e eleições também deveriam poder conviver, que diacho! As mesas de voto às portas dos estádios podiam ser uma solução, desde que cada boletim depositado na urna desse direito a duas cervejas e um balde de tremoços.

Mesmo o Santuário de Fátima deveria abrir portas em dia de eleições, dando assim sinais de compromisso divino com a democracia. Por cada voto, acendia-se uma velinha e quem quisesse podia levar para casa o seu Aníbal de cera ou seu Alegre brise contínuo.

Os jovens deviam poder votar por antecipação. Ao sábado à noite, claro, para evitar ressacas prejudiciais à saúde da nossa democracia. Os bares e discotecas funcionavam como secções de voto e o boletim colocado na urna dava direito a duas bebidas de cápsula com amendoins por conta da casa.

Não há também qualquer razão para que as urnas não estejam às portas dos cemitérios, uma vez que, pelos vistos, dez por cento dos mortos ainda vota no Continente e ilhas. Na Madeira, parece que o caso é ligeiramente diferente: os mortos, além de votar, pelos vistos até podem ser eleitos, dado o seu jeito para parecerem eternos e bem conservados, ainda que em vinha d´alhos.

De resto, muito menos se percebe que não haja mesas de voto à entrada dos hipermercados. Por cada sarrabisco no boletim, um bolo-rei. Uma toalha de mesa. Ou até um salazar, que faz sempre falta numa casa. Por pouco mais, caros concidadãos, já há ofertas de crucifixos e faqueiros nos jornais.

Por último, e porque sabemos que há sempre uns abstencionistas empedernidos e com palanque de jornal, poderíamos abrir algumas exceções. Uma mesa de voto na mesa do costume do Gambrinus, por exemplo, poderia ser um bom método, quem sabe.

São pequenos exemplos – contributos cívicos, diria – para responder ao grave problema de que enferma a nossa democracia. São medidas urgentes para revitalizar o regime e o País. Caso contrário, mais vale seguir o exemplo da Gralheira: põem-se dois bois à porta e fecha-se a tasca.

M.C.
(na Visão, já se usa o acordo ortográfico)

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