Dos livros e bibliotecas

Um curioso artigo de Pacheco Pereira, no Público.
E vocês, consideram razoável ler 4000 a 5000 livros ao longo de uma vida?

COSTUMES DOS ANTIGOS
No seu livro sobre a biblioteca pessoal de Hitler, Timothy Ryback cita Walter Benjamin e a eterna pergunta que toda gente que tem bibliotecas a dar para o grande conhece: “Mas já leu estes livros todos?” De um modo geral, quem faz esta pergunta não é um grande leitor nem tem muita experiência de leitura, porque senão saberia de imediato que é absolutamente impossível ler todos os livros de qualquer biblioteca que tenha mais de 6000-7000 livros, na melhor e raríssima hipótese de se ser um leitor excepcional. Mas na pergunta há também uma ingenuidade que me é muito simpática: se não lê todos esses livros, para que é que os tem? E aí estamos noutro território, passamos da leitura para a bibliofilia. No seu conjunto, tudo costumes dos antigos.

O número de livros que se pode ler em vida é controverso e difícil de avaliar. Há livros e livros, uns maiores e outros mais pequenos, uns mais fáceis de ler e outros impossíveis de ler de forma recreativa, fluente, e que exigem uma leitura muito especial e naturalmente muito lenta. Algumas das maiores asneiras e demonstrações de ignorância que conheço são as afirmações presumidas sobre livros de que não se faz a mínima ideia o que são, muito menos lê-los.

Colecciono testemunhos de três asneiras, uma clássica, duas de pura ignorância. A clássica, chamemos-lhe assim, ocorre num romance “social” de Abel Botelho e diz respeito ao operário que tinha alimentado as chamas da sua “revolução”, porque, numa noite de insónia, tinha lido o Capital de Karl Marx. Está-se mesmo a ver na mansarda esquálida, o jovem a ler sem sono à luz da vela ou do gás, o árido volume, presume-se que o primeiro, da complexa obra, que é o último texto que se pode considerar incendiário. Ainda dei o benefício de dúvida de que podia ser a edição resumida que Lafargue fez, mas mesmo assim não calha o livro com o “incêndio”. O segundo exemplo foi uma aluna minha de Filosofia, num curso de adultos, que me jurou a pés juntos que, também na noite passada, tinha lido de uma assentada a Crítica da Razão Pura de Kant “inteirinha”. Está visto que as noites devem ser particularmente excitantes para certos leitores, que lhes permitem ler de uma assentada várias centenas de páginas de um dos livros mais complexos da história da Filosofia. O livro então nem sequer existia em português e o seu fascínio intelectual só se apreende com uma leitura lenta, longa e quase de vida, e que implica o acesso ao vocabulário filosófico alemão, sem paralelo na sua capacidade conceptual. Chumbou, apesar da sua especialidade nocturna em Kant. O último exemplo foi a tentativa por alguns seguidores cheios de zelo, que queriam justificar uma referência de Passos Coelho a um livro que não existia, a “Fenomenologia do Ser” de Sartre, com uma confusão do leitor então muito jovem com o Ser e o Nada de Sartre, cujo subtítulo é Ensaio de Ontologia Fenomenológica. A mera ideia de que um adolescente, com “interrogações existenciais”, teria lido o Ser e o Nada de Sartre, livro que os tais zelosos seguidores não faziam a mínima ideia do que fosse, ainda é mais ignorante do que a pobre aluna que tinha lido o Kant nocturno ou o operário inflamado por Karl Marx.

Voltemos aos livros que efectivamente se podem ler numa vida, deixando as imaginárias leituras para os seus cultores. Para uma biblioteca minimamente razoável, ou seja, acima dos 5000 volumes, e por isso feita por quem gosta de livros, tomo como válidos os números entre 2500 e 6000, no máximo, de livros lidos. 2500, já se trata de um muito bom leitor, 5000 um excelente leitor. Benjamin calculava o número em cerca de 10% de uma biblioteca de amador, e Churchill, numa reflexão sobre os livros que nunca teria tempo para ler, achava que tinha lido por volta de 5000, um número já muito elevado, dado que duvido que tivesse muito tempo para ler, por exemplo, nos anos da guerra.

O número razoável para um grande leitor anda à volta de 100 por ano, o que, em 60 anos úteis de leitura, dá à volta de 6000, mas, mesmo assim, parece-me já muito exagerado, porque ninguém mantém tanta regularidade de leitura. Tenho registo de ter lido na juventude quase um livro por dia, trinta por mês, mas olho com espanto para muitos desses títulos de que não me recordo absolutamente nada. “Alimentaram o monstro”, mas desapareceram da memória útil. Mas lembro-me de muitos outros na mesma altura, os únicos que deveriam figurar na lista. Foi assim que li toda a colecção Argonauta até pelo menos ao número 100 e muita literatura americana, Steinbeck, Faulkner, Upton Sinclair, John dos Passos, Erskine Caldwell, todos os volumes da Ática do Pessoa e as traduções do Eliot, antes da sucessão de leituras, já noutra fase, das traduções de Quintela de Holderlin, Novalis e Rilke, e das obras de Thomas Mann. Continuei a ler muito, mas o ritmo baixou para o actual de cerca de um livro por semana, número estatístico, visto que leio dois ou três ao mesmo tempo durante várias semanas. Deixo de parte as “releituras”, porque o são do mesmo livro, embora haja uma moda de “releituras”, muito faladas em certas entrevistas por quem não lê quase nada – “estou a reler Eça”, o livro que toda a gente se “lembra” de ter na mesinha de cabeceira – e são tão inventadas como o Kant, o Sartre e o Marx imaginários.

Na Internet, respondendo a esta mesma pergunta, há quem dê totais superiores de livros lidos, mas se eu quiser ler alguns livros infantis, até posso ler 20 por dia e fazer uma estatística absurda. No meu cálculo, os livros andam à volta de uma média de 200-250 páginas e são, na sua maioria, de leitura “narrativa”, ou seja, fáceis de ler. As minhas excepções confirmam a regra, alguns dos livros que li mais recentemente chegaram às 1000 páginas, por exemplo sobre a guerra civil americana, ou a história “oficial” do MI5, e um ou outro cai na categoria do “difícil”, como alguns ensaios de Teologia, mas é na base desse cálculo mais modesto que eu me coloco a mim mesmo perante o mesmo espelho de Churchill: calculo ler na vida à volta de 4000-5000 livros, e terei já lido, melhor ou pior, cerca de 3500.

Ou seja, ainda me sobram nas estantes muitos milhares para poder ler, mesmo no caso pouco provável de chegar à idade de Matusalém. Não é grande drama, pior seria deixar de ter livros para ler.

Desengravatar a política

«A Política in situ» (Porto Editora) – ou como quem diz, a política no lugar – é o livro de Rui Rio, editado em 2002, que vai servir de guião para a conversa de hoje na Comunidade de Leitores da Almedina do Arrábida Shopping. Para quem pensar que um livro com nove anos está desactualizado, talvez este debate em ambiente descontraído e de tertúlia desengane. Discorde-se ou não do Presidente da Câmara do Porto, a verdade é que diversos temas da política nacional, sobre os quais Rui Rio tomou posição enquanto deputado, dirigente do PSD e autarca, continuam na ordem do dia. Motivos para um debate diferente, desengravatado, , este sábado, pelas 17 horas, no sítio do costume.

Vai pingar…

Se calhar, muitos já esqueceram os famosos telegramas do Wikileaks. É pena, pois convém sempre reavivar a memória. O Expresso garantiu a publicação de todos os telegramas relativos à Embaixada dos EUA em Lisboa. Mais de 700 deles. A partir deste sábado, o semanário começa a «pingar» alguns dos segredos. E nas semanas seguintes não faltarão temas. Pelo que me chegou aos ouvidos, vai ser, pelo menos, muito divertido. Vai, vai…

A visita

Na próxima segunda-feira, os deputados do PS pelo Porto farão uma visita a Amarante. Segundo o texto enviado à Imprensa, a deslocação «acontece num momento particularmente difícil para a vida empresarial e social do País». Certo. Vai daí, os senhores deputados decidiram incluir no programa a visita a uma fábrica…de urnas. Estarão já a pensar em algum enterro para revitalizar a economia?

Dez anos

Estive várias vezes em Castelo de Paiva ao longo de dez anos. Primeiro, nos dias e semanas a seguir à tragédia da queda da ponte, em 2001. No ano seguinte também. Voltei em algumas ocasiões depois, ao longo de anos, com outros pretextos e temáticas. Por lá também fiz amigos. As tragédias, as solidariedades profissionais e outras, têm destas coisas. Nas últimas semanas regressei para preparar uma reportagem publicada hoje na VISÃO sobre os dez anos da tragédia, que se cumprem a 4 de Março. Sim, passaram quase dez anos. Parece que foi ontem. Quem me lê aqui sabe que, por hábito e por princípio, evito comentar ou entrar em pormenores sobre o que vou escrevendo por dever de ofício. Uma coisa são as partilhas de experiências, episódios e vivências que acumulo nos mais diversos trabalhos. Outra, bem diferente, seria confundir este espaço mais intimista com os deveres de discrição, reserva e pudor que a revista e as matérias que desenvolvo merecem. Acontece, porém, que não há regressos indiferentes a terras assim. Castelo de Paiva não é uma vila de «coitadinhos», nunca foi. As suas gentes podiam escrever páginas de grande dignidade e honradez. E de lutas difíceis contra o esquecimento e o desencanto. Passada uma década sobre a tragédia da ponte, creio ser legítimo perguntarmos que País é este que parece ter esquecido parte das responsabilidades e compromissos assumidos em relação a Castelo de Paiva. A interioridade, bem o sabemos, mata lentamente: sonhos, aspirações, anseios, gente. E num País sem memória, isso dói um pouco mais, certamente. Era isto que queria dizer.

Posta-restante – IV

(Respostas e comentários a alguma correspondência chegada)

Querida HELENA, nestas idas ao hospitais é óbvio que já me passou pela cabeça despejar o saco no livro de reclamações. Mas também vais encontrando gestos de humanidade e dedicação que vão atenuando as más horas que passaste ali. E quando finalmente sais, queres é sair dali, rapidamente. Mas tens razão. Ia dizer que da próxima pensarei duas vezes. Mas espero que não haja próxima tão cedo…

EMANUEL, camarada, vou tentar descobrir esse «Rave On», do Andy White. Tu és um pescador de pérolas, pá!

Caro MOEDAS DUARTE, ainda bem que partilhamos «A Criação do Mundo». E outras palavras torguianas, presumo. Sabe, às vezes dá vontade de distribuir textos do homem pelas caixas do correio ou de mão em mão. Porque todas as respostas – pelo menos para mim – estão lá.

Querida PETRA, tenho de descobrir esse cabrito do «Luar de Janeiro». Évora? Conte-me coisas.

A pedra

Está escondidinho na enorme listagem de filmes do videoclube do Meo. Mas é imperdível. Um grupos de jovens, em nome da dignidade e da honra da nação escocesa, decide elaborar um plano para assaltar a Abadia de Westminster e roubar a famosa Pedra do Destino, um dos mais importantes símbolos da Escócia, que vem sendo usada na coroação da realeza britânica (para amuo dos escoceses). Mais do que contar uma história divertida, este é um filme sobre a pureza dos ideais da juventude e os sonhos de uma geração comprometida. Um filme, enfim, sobre valores mais importantes do que a vidinha. Definitivamente inspirador.

Um autarca também pensa. E escreve

A sessão da Comunidade de Leitores da Almedina no próximo sábado, 26, tem um convidado especial: Rui Rio. Porquê o convite ao Presidente da Câmara do Porto para participar numa tertúlia literária? Simples: Rui Rio publicou em 2002 um livro que reúne algumas das suas principais reflexões sobre a política nacional e autárquica, cujas temáticas mantêm enorme actualidade. Nas páginas de «A Política in situ» (Porto Editora) fala-se das grandezas e misérias da actividade política através de temas que continuam na ordem do dia: financiamento partidário, leis eleitorais, o papel do Estado, o poder mediático, a herança do 25 de Abril, o estatuto dos deputados, a Justiça, a noção de interesse colectivo, a crise de valores, Lisboa e o País, entre outros. Podemos concordar ou não com as opiniões e posturas de Rui Rio, mas ninguém negará a importância deste debate numa altura em que o próprio autarca admite estar em risco o regime saído da Revolução dos Cravos, em 1974 (ver notícia de hoje no jornal «I»). Sábado, a partir das 17 horas, no Arrábida Shopping, lá estaremos, na livraria do costume.

Os discos da minha vida – 1

Nunca esquecerei a primeira vez que ouvi Red Army Blues na voz do fantástico Mike Scott. Ainda em cassete, uma daquelas TDK metal (sim, porque a guerra desse tempo era entre TDK metal ou chrome e coisas assim). Creio que não descansei enquanto não escutei o tema dezenas de vezes, agarrado à letra, tentando decorar. O álbum é de 1984 e é um daqueles que motivou longos convívios em casa de amigos. Gosto especialmente dos temas All The Things She Gave Me, Rags e The Thrill is Gone. Hoje não sou propriamente um fã dos Waterboys. O último disco que me cativou foi Fisherman´s Blues, que inúmeras vezes passei na rádio, em longas tardes e noites dentro, em tempos que ainda eram de piratas, claro. Passe o tempo que passar, para mim haverá sempre a canção do Exército Vermelho: «Seventeen years old, never kissed a girl…».

THE WATERBOYS – A Pagan Place (1984)