Santo António, um seu devoto

Regresso de Lisboa – onde fui muito bem tratado, gastronomicamente falando também, sim – e vou desaguar na Casa Santo António, agora tasca gourmet ou lá o que isso quer dizer. Fica ali para os lados da Cadeia da Relação, na mítica freguesia da Vitória, no Porto. A casa só tem petiscos. «Só» é uma forma de dizer. Pataniscas com arroz de feijão, moelas, farinheira com ovos mexidos e mais uns quantos pratinhos, deliciosamente aperaltados e servidos. A sangria também se recomenda vivamente, já para não falar da mousse do chocolate, caseirinha da silva. A música de fundo, alta o suficiente, é um primor retro: José Cid, Carlos do Carmo, Paulo de Carvalho – sim, também tem «E depois do adeus» – Carlos Paião e mais umas cantas figuras de pôr a lágrima no canto do olho. Duas quintas-feiras por mês há fado. O Nelson, que vai às mesas, é daquelas figuras cúmplices que qualquer tasca de brios não dispensa. Noite de mesa farta, conversa boa e companhia perfeita. A felicidade a preços módicos.

Passem a palavra

No velhinho e mítico Ateneu Comercial do Porto foi exibido o documentário «Os Esquecidos», de Pedro Neves. Um momento que serviu para questionar e debater as origens e mecanismos da pobreza, sem pretensões de sociologia barata, mas com reflexões arrancadas às vivências. O Pedro, que já levou o filme à Assembleia da República e à Assembleia Municipal do Porto – causando os necessários desconfortos e alertas – não desiste de carregar este filme às costas na esperança de que os retratos destas inexistências humanas possam trazer alguns sobressaltos. Este é um filme que ele levará a qualquer sítio onde o chamarem. Fala dos novos miseráveis, gente que vive para lá das conveniências e biombos que erguemos nas cidades, para esquecer ou não ver. O Pedro filma famílias, homens e mulheres resignados a uma vida atirada para a desumanidade, dignificando-os aos nossos olhos. Sem julgamentos, sem moralismos. O seu mérito é o nosso murro no estômago: o Pedro deixa-nos a sós diante daqueles rostos, vozes e cenários. Frente a frente. Sem filtros. Questionados como poucas vezes nos nossas próprias distrações e esquecimentos. Passem a palavra, pois! Vamos levar este filme a cada sala, a cada canto, exibi-lo como, num Abril em tempos sonhado, nas paredes brancas das igrejas, numa escola, numa colectividade. Os contactos da RED DESERT, produtora do filme, ficam AQUI. O caminho faz-se caminhando.

Os Esquecidos

Em 2009, Pedro Neves, um repórter de excelência, realizou este documentário já premiado em Cáceres e com passagem pelo Doc-Lisboa. «Os Esquecidos» passa esta segunda-feira, 28, pelas 21.30, no Ateneu Comercial do Porto, ali pertinho da Fnac de Santa Catarina, incluído num ciclo sobre «Arte e Intervenção». Depois do filme, haverá debate, pois claro! Aqui ficam as palavras do Pedro, explicando ao que vem. E venham vocês também.

«Queria realizar um documentário sobre o mundo de hoje. Sobre um mundo de progresso que se esquece das pessoas. Queria mostrar gente que é gente, gente que se esconde e é escondida, gente que não se vê e é esquecida.

Não quis nunca rotular nem limitar-me a expôr a miséria e a pobreza. Preferi sempre tentar compreender causas e consequências, entender como um determinado acontecimento na vida pode provocar mudanças profundas, como de um momento para o outro podemos cair no abismo. E como é difícil sair de lá. São gerações a crescer e viver dentro de um buraco sem fundo, de hábitos marcados pela impotência, muitas vezes pela apatia ou incapacidade de reagir.

Conversei muito com muitas pessoas. Aprendi. Deixei falar muito mais do que falei. Filmei e voltei a filmar. Fui regressando aos locais, às pessoas, às conversas. Fui conhecendo os personagens, aprofundando relações. Deixaram-me entrar um pouco nas suas vidas, no quotidiano difícil da sua condição. É a habitação precária, o trabalho estilhaçado, o amor que se tem, o afecto que não existe. É a prisão sem grades e de muros transparentes.

Neste filme fui a lugares onde morreu a esperança colectiva, onde há gente viva à beira da morte social. São rostos que encaram a vida como um castigo, actores sociais despidos de qualquer sucesso material. São olhares cansados de tanta falta de sorte, porque não se pode falar de má sorte quando nunca se entendeu o significado da palavra. São mulheres e homens, esquecidos.»
PEDRO NEVES

Porto a dois

Ela estudou em Praga, desenha a olhar a cidade acima do rés-do-chão e por cima das montras e diz que Lisboa é África e o Porto Europa. Ele deu-nos o Porto sentido. Não só a canção, mas tudo o que escreveu sobre a cidade, sua alma e coração, com bairrismo e sem cagança. Carlos Tê e Manuela Bacelar juntaram-se em «Cimo de Vila» (edições Afrontamento) para escrever e ilustrar o Porto como se olhassem para dentro da nossa infância, dos nossos pequenos mundos, das nossas memórias sofridas e abraçadas, da nossa realidade e imaginários, onde continuam a caber todas as nossas melancolias e sonhos. Que tal conversar com eles, hoje, às 17 horas, na Comunidade de Leitores da Almedina do Arrábida Shopping?

Memória de elefante – 8


Há coisas que nunca mudam. Nem os sacrifícios.

«Sacrifícios devem ser distribuídos equitativamente»
MOTA PINTO (PSD)
13 de Agosto de 1983 (depois do acordo com o FMI)

«Nós acreditamos que temos condições para honrar os nossos compromissos, para seguir um caminho com outra justiça, que não tem existido, que possa distribuir os sacrifícios com mais equidade»
PEDRO PASSOS COELHO (PSD)
23 de Março de 2011 (antes da chegada do FMI)

Pensem nisso…

Como sabemos, o Porto é uma zona de perigosos terroristas. Aqui, até pedras caem das árvores e os homens espumam pelos cantos da boca. Nunca repararam nisso? Caramba, basta ler os jornais sérios que se publicam fora destas muralhas, até porque os de dentro não são de confiança. Sinceramente, não sei como é que esta região não foi ainda cercada por uma barreira ou muro higiénico para que o vírus da violência não se propague e infecte as almas cândidas e serenas de outras zonas do País. Podíamos, sei lá, obrigar estes vândalos a circular apenas em territórios vigiados pela NATO ou por capacetes azuis da ONU (capacetes azuis é bem visto, para eles não desconfiarem!). E obrigá-los a identificarem-se sempre que quisessem passar um check-point em Coimbra ou talvez logo em Aveiro, não sei, só para não lhes dar ideias.

Já se percebeu que não há forma de domesticá-los. Nascem em viadutos, circulam em manadas, atacam à porta de restaurantes e outras zonas selectas, falam com pronúncia, quando não grunhem, Santo Deus! Há que pôr cobro a isto, a esta violência endémica, alimentada a tripas, francesinhas e golos, um perigo para a saúde e decência da nação. Pelos vistos, não chegou apertar-lhes os calos, fechar-lhes a torneira, dizer-lhes que trabalho, desenvolvimento e progresso são coisas de difícil acesso para quem mora longe.

Proponho um levantamento dos cidadãos de bem, do País civilizado que só sabe ganhar, governar e liderar limpo, com paz e amor, da administração interna à dívida externa. O País decente e honrado, livre de drogas e vinhaça, que nada sabe de gestos feios, pedras e incêndios de autocarros, que desconhece o calor da noite e o elefante branco e usa a corrupção apenas como objecto de estudo ou filme saído de obra de investigação (desde que salgado e com pinhão). Proponho, pois, uma «manif» à grande, uma dessas coisas saídas das redes sociais ou marcadas por sms, para combater esta intifada nortenha, que arrasta o País para a decadência e a insubmissão. A hora é grave! Se não actuarmos agora, rápidos, mobilizados e eficientes, e com menos «ais», de nada adiantarão as lamúrias, pois já sabemos que…«pró ano há mais».