Os discos da minha vida – II

Para mim, isto ainda não era fado. Eram canções que traziam o cheiro dos versos de Abril e davam corpo ao despertar da poesia, do encadear dos sentimentos e da vida. Volto sempre a este disco, que devolve uma Lisboa imaginária e, ao mesmo tempo, tão real. De cacilheiro pelo Tejo ou a cantar o fado da pouca sorte, «a ver se isto vai a jogar». Morei nestas canções anos da minha vida, em noites intermináveis de copos e sonhos substantivos. Na voz de Carlos do Carmo, nas músicas de Fernando Tordo, cabia «o homem da cidade que manhã cedo acorda e canta, e, por amar a liberdade, com a cidade se levanta». Cabiam os namorados de Lisboa, «na cadeira de um cinema, onde as mãos andam à toa à procura de um poema». Tempos, estes, em que se agarravam as madrugadas como se fôssemos crianças. E os discos, as canções, tomavam conta da casa e das partilhas como se o amanhã não fosse, afinal, longe demais.

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