Gagos

Concordo que O Discurso do Rei poderia passar na televisão, sem grandes sobressaltos. Mas maior do que o fime, é a sua história e os seus actores, nomedamente Colin Firth e Goeffrey Rush, em papéis memoráveis. A parte da gaguez é outra história dentro da história, tão complexa e contraditória como a existência. Sofremos com a gaguez do futuro rei. Na verdade, cada um tem a sua história de vida que explica as palavras em soluços. Um gago, ligeiro ou acentuado, sabe que a voz e o corpo pedem, por vezes, coisas a uma velocidade que só a mente alcança. E as explicações estão todas lá atrás. Quanto mais depressa nos libertarmos delas, melhor. No fundo, podemos habituarmo-nos a viver com a gaguez, amadurecendo e serenando ansiedades. O problema está lá, é verdade, mas, querendo, há sempre vontades mais fortes, indomáveis como os sentimentos. Enfim, agora que as histórias de gagos ganham óscares, lembrei-me disto, escrito aqui há cerca de um ano…

«Teria uns cinco, seis anos. Um dos meus locais de brincadeira preferidos era o cemitério aos sábados de tarde ou domingos de manhã, quando as tias iam enfeitar a campa de familiares. Talvez tenha aprendido a relativizar a morte escondendo-me entre cruzes, flores, rostos de olhar eterno cravados na mármore, regadores de água e velhotas cobertas de viuvez, chorando sozinhas. Por ali vagueava também uma mulher, muda, que guinchava sons desconexos. Apareceu-me um dia de surpresa, num repente. Fiquei momentaneamente esganado de voz e sangue. E o susto ficou para a vida.

Os primeiros anos da minha gaguez duraram uma eternidade. Batia na perna quando uma palavra encravava e revirava o olhar para encontrar a sílaba perfeita que não me obrigasse a soletrar em demasia. Na escola, nas borgas, as outras crianças eram naturalmente cruéis. Como todos fomos, um dia. Nunca me chamaram “o gago”, apesar de me terem chamado coisas piores. De resto, eu tinha sempre algo para a troca, ainda que dito de forma mais…espaçada, digamos. Por vezes, a família e os amigos não continham o riso de tantos gestos que fazia para gaguejar menos. Tentava falar devagar para que não se notasse, para evitar bloqueios. Mas de cada vez que me irritava, as frases desmoronavam. O pensamento era sempre mais rápido do que as palavras que eu tinha disponíveis, ao pé da boca, para não me desmanchar em tremeliques.

Apesar desses momentos, nunca a gaguez foi tormento que me levasse a intimidações ou vergonhas. Passava adiante, sempre. Patinho feio não arrastava namoradas e a gaguez, para o caso, não fazia diferença. Não me lembro de ter deprimido e nem sequer ocorreu aos meus pais que o miúdo pudesse ter problemas de integração na escola, pela vida fora. Fui uma criança feliz, amada, com amigos do peito e família sempre presente. E, por vezes, até me esquecia dessa dificuldade de me dizer e saber feliz…como quem soluça.

Com o tempo, aprendi a irritar-me menos com frases do tipo “vá, fala com calma”. Tentei dominar a gaguez, sem dominar as emoções, que sempre as quis à flor da pele e no peito, batendo. Aprendi a viver com ela, no fundo, até saber lidar com a sua quase leve insignificância. Já não bato na perna quando falo. Já não sussurro as palavras dentro de mim para treinar a forma como vão sair. Hoje, há até quem se admire quando digo que, “por vezes, gaguejo”. E até quem ache essa gaguez sexy…Coisas.

Veio isto a propósito da recente descoberta, por cientistas do Reino Unido, de três genes “deficientes” que são os culpados da gaguez. Ela, dizem, “é provocada por perturbações metabólicas que afectam a função cerebral”. Os investigadores estão a estudar em laboratório a produção de uma enzima que a corrente sanguínea dos gagos não é capaz de produzir. É, sem dúvida, uma boa notícia para quem não consegue enfrentar o problema ou é alvo de chacota. Para mim, vem tarde. Eu e a minha gaguez estamos há tanto tempo juntos que já nos habituamos um ao outro. E nunca isso atrapalhou vontades, emoções, sentimentos e certezas. Límpidas. Inteiras. Sem soluços ou bloqueios. A..a…creditem.»