Boletim metereológico

Chego 20 minutos antes das 18 horas ao balcão da CP na Gare do Oriente, em Lisboa. A fila para os bilhetes é uma centopeia gigante e há dois guichets abertos. Penso: «Comboiozinho…já foste!». Há quem barafuste e proteste. Em vão. Os funcionários mantêm-se impávidos e serenos. Há rostos que resumem a história da CP. Desisto. Procuro por autocarros. A Renex tem um para o Porto às seis. Compro o bilhete. Não almocei e engano-me com um chocolate nas maquinetas self-service. Depois tento um pacote de batatas fritas. Fico sem a moeda e sem as batatas. Tenho 5 minutos para entrar no autocarro. Entro afogueado. Os lugares, o costume: vou com as pernas prensadas. Ao fundo, um velhote, suspeito que em estado líquido, insulta motorista e funcionários por causa do atraso. São 18.20 quando saímos e há um casal que discute se o Benfica jogou o que se esperava.

Agora são 19.10, chove desalmadamente e só agora passamos as portagens. Pesquiso as notícias do dia: tsunami e terramotos no Japão, tsunamis e terramotos na economia portuguesa. Parece que os senhores da Europa descobriram um buraco escondido nas nossas finanças públicas. A sério?! O Governo já vai no PEC 3,5 (ou será 4?). Anuncia mais cortes nas pensões e redução nos apoios sociais. Teixeira dos Santos, anunciador-mor das desgraças, admite que contratos recentes e antigos podem levar todos pela mesma tabela, em matéria de indemnizações. Dez dias por cada ano trabalhado, talvez vinte no máximo. E haverá tectos para indemnizações. E o FMI vem?, pergunta-se. E é preciso?, pergunto. O director do El Pais diz que, dentro de uns anos, os jornais em papel serão…História. No rádio, Peter Gabriel e Kate Bush cantam «Don´t Give Up». No autocarro, escrevo este texto de lado, enquanto vou torcendo o lombo o melhor que posso para me encaixar entre lugares. Amanhã, manifs dos precários. Não seremos já todos, mais as nossas vidas?

Os livros da minha vida – 2

Quem me lê por aqui sabe que não sou propriamente um saramaguiano. Houve livros que deixei a meio e aos quais um dia voltarei (As Intermitências da Morte, por exemplo) e outros que li com mais ou menos entusiasmo (Ensaio sobre a Lucidez foi um deles). Não fiquei cliente dos Cadernos de Lanzarote, os quais me pareceram, demasiadas vezes, uma feira de vaidades. Adiante. Um deles, porém, plantou em mim um entusiasmo literário irrepetível: chama-se Levantado do Chão. Já aqui disse e repito: se alguém tiver que escolher um livro para ler o Alentejo através das suas entranhas basta que leia este. Não precisa de outro. Escrito em grande parte em Lavre (Montemor-o-Novo), onde o escritor foi acolhido numa cooperativa, este romance só foi possível porque Saramago viveu o Alentejo, as suas dores e imaginários, as suas lutas e anseios, numa época de transformação. Toda a galeria de personagens ilustra a caminhada de gerações contra a tirania, a indignidade, a miséria e a opressão. Resumindo: este livro é o Alentejo em carne viva. Os tempos não são, obviamente, comparáveis (a acção decorre entre 1900 e 1975), mas a ironia é que estas páginas, 37 anos depois do 25 de Abril, continuam a transmitir-nos a ideia de que algo – para não dizer muito – continua por cumprir. À espera de quem escreva tempos novos.