Crónica de uma «manif»

HOJE É O PRIMEIRO DIA…?

O polícia estava à rasca com a geração que aí vinha. “Ó pá, a frente da marcha já está na Avenida dos Aliados e a cauda ainda não saiu da Praça da Batalha!”, dizia ele, passo apressado – e preocupado – ao telemóvel, tentando organizar as tropas.

O protesto vinha engrossando há longo tempo e já transbordando a mais entusiástica das expectativas. A Baixa do Porto, por fim, parecia trazer à memória dos mais velhos tempos longínquos. Afinal, eram cerca de 50 mil desaguando na sala de visitas da cidade, gerações partilhando slogans e as suas vidas…à rasca, tendo hip hop e José Mário Branco como banda sonora. Em anos recentes, não há 25 de Abril, “manif” da Função Pública ou festejos do FC Porto que se comparem. E à mesma hora, note-se, o PCP festejava 90 anos no edifício da Alfândega e na Miguel Bombarda, a rua das galerias, inauguravam-se exposições quase de porta em porta, de cocktail em cocktail. Afinal, de onde vinha, por onde tinha andado esta gente?

Tudo começara na Praça da Batalha.
Com cartões e papelões rabiscados a desabafos, impaciências e ironias. Frases que poderiam encadear-se ou tricotar-se seguidas: “Por nós, pela minha filha, por Portugal; Não temos pasta, estamos à rasca; Não nos mandem embora, este País também é nosso; Quando for grande quero ser uma espécie de Rainha de Inglaterra;”. Não havia bandeiras de partidos e os manifestantes só não eram dos 7 aos 77 anos porque alguns ainda vinham de chucha, às cavalitas dos pais, e outros já passaram pelos 80 a contar “muitas esperanças perdidas”, mas a querer dar força à juventude. Alguns recebiam incentivos por sms, como este vindo de Chaves: “Estou a reviver o PREC pela RTP! Um abraço na luta”.

Do nada…nascera tudo. Foi-se de maré vaza à maré cheia num clique. Sem dinheiro, sem patrocínio. Low cost na vida como na luta. Improvisado, internético, espontâneo, em jeito de passa-palavra, quase sem agenda. Pais vieram atrás dos filhos. Jovens arrastaram avós. Amigos puxaram amigos. Famílias desenrascadas apareceram para dizer que sim, que também estavam ali antes que fosse tarde para todos como no First They Came, de Martin Niemoller. Cada um era a sua palavra de ordem. E havia um microfone, livre, rédea solta para cantar, citar poemas feitos música ou reclamar outras lutas contra a precariedade dos tempos. Ali, ninguém foi mais isto ou menos aquilo. E até Ana Luísa Amaral prescindiu da poesia e foi apenas a professora Ana Luísa, voz solidária com os reformados, precários do fim da linha.

Quando a concentração se fez marcha, juntaram-se todos os narizes de palhaço, cornetas, megafones, cartazes, folhas A4 e…gargantas. Juntaram-se as amas, os bolseiros, os engenheiros atirados para a mesa de café, os cientistas de amanhãs sempre longe demais, velhos com reformas de cento e poucos euros, jovens estagiários de longo curso, licenciados de bilhete pré-comprado para outras paragens, o grupo para quem “o recibo é verde e a luta é rosa” e até casais de bem com a vida, mas de mal com os futuros reservados para os filhos. Contavam-se histórias de crianças e estudantes com fome nas escolas e universidades. De famílias do centro histórico do Porto sem dinheiro sequer para pagar a luz ao fundo do túnel “ao senhor Mexia”. E dizia-se: “É tempo de começar a pensar numa alternativa aos partidos”.

Esta, a “manif” sem excursões, sem catequistas nem catequismos, quase sem cartazes, sem bandas nem estrelas convidadas, sem rebanhos. Vieram de Barcelos, de Braga, da freguesia do lado, da esquina, do quelho e do apartamento junto ao mar, em Matosinhos. De carro, de comboio, de metro, a pé, à boleia. Muitos nunca se aventuraram a tal na tenra idade ainda vivida e se alguma vez votam “é nos pequeninos”. E, no entanto, trazem testemunhos familiares, algumas certezas de Abril e velhas ideias novas: “O povo unido jamais será vencido” ou então “O povo unido não precisa de partido”. Durante horas não arredaram pé da Avenida dos Aliados e da Praça, que era – e é – da Liberdade. “Não somos meninos mimalhos, lutamos por nós”, lia-se. Geração à rasca, Geração Deolinda, Geração Precária? O que lhes chamar se eles próprios, esta tarde, se chamaram tudo isso e muito mais para dizer que, para já, só sabem o que não querem?

O importante era estar ali, vir de impulso, à cata de uma centelha de sonho, de novo. Contra o Governo, contra Sócrates, contra os políticos, contra um País que se prostitui ao estrangeiro, contra Ferraris e Lamborghinis dos banqueiros e munidos de vassouras ao ombro. Amanhã, a pergunta ainda não será “e agora, o que fazer?”. Será outra, em jeito de desafio, sem retorno nem embaraço: afinal, “onde estavas tu no 12 de Março?”.

MC (para http://www.visao.pt)

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6 thoughts on “Crónica de uma «manif»

  1. Esta enorme manifestação pluri-urbana, que juntou anseios, expectativas, desejos e revoltas distintas, não é para ser analisada na lógica do gosto/não gosto, concordo/não concordo, tem é que ser percebida, meditada e que da mesma sejam retiradas lições. Esta manifestação não é um problema para a classe política…é talvez a melhor oportunidade que lhe foi dada nas últimas décadas.

  2. Caro Miguel,

    Sempre fui cínico em relação a esta manifestação. Nunca, que me lembre, houve um apoio tal dos media a uma manifestação. Mas o apoio dos media foi ultrapassado pela necessidade das pessoas se manifestarem.
    Os organizadores de um protesto de cariz geracional, foram ultrapassados pelos acontecimentos. Aquilo foi um país à rasca que saiu à rua, não uma geração.
    Enganei-me. Há que aceitar quando nos enganamos. Democraticamente.Só espero que este movimento seja mais e mais abrangente e signifique o início de uma participação cívica activa de todos os portugueses, e não se esvazie do que é mais importante. Este sistema não serve. Estes partidos não servem, nem o povo, nem o país.

    Abraço,
    Fernando

  3. Subscrevo o que aqui escreveu Fernando Lopes. Este País está doente. A Doença tem um conjunto de sintomas, onde se destacam a hipocrísia, o oportunismo, o egocentrismo e a parcialidade de postura moral. Os media controlam totalmente a nossa Sociedade, e a mesma, como massa humana que é, segue as suas ordens, como uma vara de porcos numa manga a caminho do matadouro. Há uma total ausência de sentido crítico e de integridade, por parte do povo em geral e dos irresponsáveis em particular. Exigem-se Direitos, direito a trabalhar, direito à habitação, mas os deveres são totalmente ignorados e vistos como fretes, tais como o dever de votar, onde a abstenção tem sido sempre assustadora, o dever de termos consideração e respeito pelo próximo, como saber respeitar uma opinião, o saber respeitar uma idade, o saber respeitar uma simples regra do código da estrada, etc. Em quanto não houver uma mudança de mentalidade e de atitude de este Povo, nada mudará e só caminharemos para pior. Já agora, os media, falaram tanto desta manif, do terramoto do japao e da libia, porque não falaram da Revolução que ocorreu recentemente na Islândia ? Onde a Direita foi escurraçada do Governo e lá se colocaram 25 elementos de esquerda, através de usurpação directa do Parlamento ? Isso os media não falam, pois não ? Porque será ?

  4. Miguel e Filipe,

    Que fique bem claro que sou um democrata. Que sei o suficiente de história para temer os caminhos a que a demagogia e o antipartidarismo tout court, podem levar.
    O poder popular, pode dar em grandes desgraças. Acho é que este sistema, centralizado em Bruxelas, comandado por alemães que se estão nas tintas para todos, precisava de ser renovado. Que os nossos partidos precisavam de renovar o seu ideário e a sua práxis.
    Ou que se criem novos partidos.
    Mas daqui à demagogia que leva ao totalitarismo, pode ser um pequeno passo.
    Não é isso que eu quero, nem vocês, certamente.

    Abraço,
    Fernando

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