Falares da alma

Sabem o que é o «esfrega o pente»? E o «bebe ovos»? E «espetar a choupa», sabem? E se alguém andar por aí «a fazer-se de Lucas» isso é o quê? Bem, este sábado vamos ter oportunidade de saber isso e muito mais à conversa com Alfredo Mendes, o convidado do ciclo «Porto de Partida» da Comunidade de Leitores da Almedina do Arrábida Shopping. A partir das 17 horas e, só desta vez, não aconselhável a menores de 18 anos.

Aqui fica um cheirinho da divulgação da sessão feita pela Almedina…

Mais de 50 expressões ligadas a figuras míticas do Porto e cerca de 2
mil vocábulos estão reunidos no livro “Porto, Naçom de Falares”, de Alfredo Mendes. O autor explica que a obra “Porto, Naçom de Falares” contempla “a mais completa recolha de calões à moda do Porto até hoje reunida em livro. São, na segunda edição, cerca de 2 mil vocábulos que corporizam o admirável falar do Burgo”, explica o jornalista.

A obra, prefaciada pelo escritor e investigador Hélder Pacheco, conta,
ainda, com dez histórias simples, onde são utilizadas as expressões
populares em causa. No final, o livro tem mais de 50 expressões
ligadas a figuras míticas do Porto, desde o “Manel do Laço” ao “Zé do
Boné”. “Ler este livro é revisitar a cidade e assumir um sonante acto de rebeldia contra o cosmopolitismo falsamente progressista. É, enfim, um assomo de autenticidade que vive na rua, no bairro popular, na Baixa, na Boavista e em Cedofeita. Um assomo de autenticidade de novos e velhos, ricos e pobres”, confessa o autor da obra “Porto, Naçom de Falares”.

O livro interage com o tema do Ciclo da Almedina “Porto de Partida”,
porque trata “um precioso património tripeiro que anda nas bocas do mundo e que identifica, em qualquer lugar, o pulsar e a alma da cidade”, refere Alfredo Mendes. “Este glossário é, assim, um código interessante em que os falantes se entendem e entram em cumplicidade”, explica o autor.

Nesta apresentação no Ciclo “Porto de Partida”, Alfredo Mendes indica
que quer comunicar quão importante é “a defesa deste monumento
linguístico, porquanto integra a essência do Burgo, a natureza das
suas gentes, a sua capacidade em ilustrar e caracterizar situações e
pessoas”. O jornalista sublinha que “falar à moda do Porto não é uma atitude que deva constranger o portuense; antes, deve orgulhar-se dessa particularidade, que pontifica na fantástica oralidade herdade e todos os dias enriquecida”.

Alfredo Mendes nasceu em Janeiro de 1956, em Almendra, concelho de Vila Nova de Foz Côa. Colaborador do JN desde os 17 anos e de diversos órgãos de comunicação social de cariz regional. Elaborou peças jornalísticas para algumas estações de rádio e RTP, onde foi comentador dos serviços noticiosos da RTP-N. Assinou reportagens em mais de 20 publicações de variado teor. Textos seus constam em separatas, revistas de etnografia e, ainda, em livros oficiais de língua portuguesa para o 8.º ano de escolaridade.
Profissionalizou-se no DN em 1980, tendo desenvolvido activa participação nas secções de desporto, cultura, informação geral, sociedade, política e em suplementos de regiões. A crónica também o seduziu, a par de um constante andarilhar pelas terras e gentes do Norte. Daí a transcrição de trabalhos em boletins camarários, roteiros, edições de âmbito cultural, científico e turístico, almanaques e numa selecção de textos da então Editorial Notícias. Integrou o núcleo redactorial da obra Notícias do Milénio, responsabilizando-se pela História de Portugal de 1100 a 1699, e o Departamento de Publicações Especiais do JN. Autor do livro Cávado – Rio Lindo, editado pelas Águas do Cávado, do Livro de Ouro do FC do Porto, iniciativa do DN, e do Café Âncora d´Ouro – Piolho, Um Século de Vivências, editado pela Âncora Editora.
Premiado pelo Clube de Jornalistas do Norte e Clube Português de Imprensa. Membro de vários júris, apresentador de livros e orador em múltiplas sessões públicas.
Em Abril de 2009 foi escolhido para integrar um despedimento colectivo, tendo sido considerado “posto de trabalho redundante”.

Flexi…quê?

O senhor Rasmunssen, antigo primeiro-ministro da Dinamarca e actual líder do Partido Socialista Europeu, foi o «pai» desse conceito curioso chamado «flexissegurança», que os socialistas indígenas tanto idolatraram. Pois bem: o dito senhor lamentou, à Lusa, que o seu «bébé» esteja agora a ser desvirtuado e aproveitado pelo FMI, BCE e União Europeia para demolir as protecções sociais dos trabalhadores. Diz ele: aproveitaram a flexibilidade e esqueceram-se da segurança. A sério?! Daaaaa…
Espanta-me que se espante. Na altura em que ainda se teciam loas à sua invenção, muito se escreveu e falou sobre o assunto. Por cá, aqueles que alertaram para o facto da medida ser perigosa e de se estar a abrir a porta a uma viagem sem regresso na fragilização dos direitos sociais foram apelidados de extremistas, radicais e parados no tempo. O resultado está aí. Por ingenuidade ou falácia, alguns ainda não entenderam que não se pode dar a mão a gente desta. Assim, quando dermos por ela só temos ossos.

Telélé…da cuca

Folhetim à volta de um telemóvel: quando quase 700 números de telefone vão à vidinha, um tipo sente que o mundo acabou…mas é só por umas horas. Passada a neura, até se acha graça voltar a estar dependente de pombos-correios e pouco mais. (Uma pergunta: porque é que as lojas de telemóveis são tão rápidas a vender aparelhos e tão fascistóides a resolver-nos um problema?)

A VISÃO na Islândia

Nos últimos meses, à medida que o FMI se abeirava da pátria, uma pergunta circulava na net: e a Islândia, senhores? Porque não falam da Islândia? Pois bem: as respostas a todas as perguntas – em dez gloriosas páginas! – estão na edição desta quinta-feira da VISÃO. Paulo Pena, querido camarada e amigo, e um dos grandes repórteres portugueses, andou por lá o tempo suficiente para nos contar tudo o que não sabemos sobre a forma como a Islândia está a tentar dar a volta por cima (e ainda teve tempo para dar uma entrevista, como podem ver na imagem acima. Um rebuçado a quem traduzir). Reinventar a democracia, parece ser o lema dos islandeses. E até as camisolas de lã podem ter algo a ver com isso. A ler, sim?

Entre papéis

Nas minhas andanças por bibliotecas, arquivos distritais e instituições do género continuo a deparar-me, na maioria dos casos, com uma dedicação e uma generosidade sem fim por parte dos funcionários públicos, quase sempre insultados e injustiçados. Podem, por vezes, desconhecer as matérias, os autores e as obras que procuramos, mas são de uma disponibilidade e delicadeza que ultrapassa – e muito – as suas competências. Nestas semanas em que ando mergulhado em papéis velhos tenho, porém, a sensação de que uma boa parte disto que vos relato pode estar em risco, a médio ou longo prazo, por falta de recursos. Em instituições onde a falta de pessoal é, por vezes, gritante, as pessoas temem não só pelo seu futuro como também pelo futuro destes espaços onde se guardam vastas memórias e saberes. Posso garantir que, em muitos casos, estes funcionários sentem estas casas como suas. Se pudessem, pagariam do seu bolso para atenuar dificuldades. No meio de tanta desesperança e frustração, têm ainda a noção da irremediável perda que seria se começassem a escassear verbas e apoios para coisas básicas nas nossas bibliotecas e arquivos. Isto não é ainda um manifesto. Mas apenas um alerta sobre uma parte do nosso património que, em tempos de sanha especulativa e depressão financeira, corre o risco de ser votado ao esquecimento e ao abandalhamento. Em nome do futuro, a defesa desta memória é uma urgência.

Naçom de falares na Comunidade

Alfredo Mendes, jornalista, autor de um livro já emblemático sobre o Café Piolho, é o convidado da próxima sessão da Comunidade de Leitores da Almedina, no Arrábida Shopping, a decorrer este sábado (30), a partir das 17 horas. Desta vez, o modo portuense de falar será o tema, a pretexto do livro «Porto – Naçom de Falares» (Âncora), já em segunda edição. Praticante do jornalismo andado e não do Portugal sentado, Alfredo Mendes junta a uma pesquisa apurada do calão portuense – ou adoptado pelas suas gentes – as experiências e memórias de mais de 30 anos de trabalho e convívio com a matéria nobre do jornalismo: as pessoas. Contador de histórias nato, o próximo convidado da Comunidade é um bom motivo para irmos ao reencontro das raízes fundas do dizer – e sentir – portuense.

(Estava previsto que a sessão do próximo sábado tivesse a presença do Bispo do Porto, o que, por motivos inadiáveis por parte do próprio, ficará para outra oportunidade. Por isso mesmo, decidimos antecipar a sessão com Alfredo Mendes, que estava prevista para Junho).

A História e os mitos

Temos História. Com «H» grande, sim. Raquel Varela, historiadora, estudou a fundo o papel do PCP na revolução desde o 25 de Abril de 1974 e até ao 25 de Novembro e junta novos documentos para sustentar a tese de que, ao contrário do que a mitologia reinante deu como adquirido, os comunistas, afinal, nunca tiveram um plano ditatorial para o nosso País. Na verdade, diz a investigadora do ISCTE ao Público, o PCP tinha para Portugal um projecto que previa uma aliança governativa com o PS, uma espécie de capitalismo regulado, a manutenção na NATO e o maior número de direitos para os trabalhadores. Parece simpático, não? De resto, segundo Raquel Varela, foi a postura do PCP que evitou uma guerra civil em Novembro de 1975 e não as ditas forças do bem, com o general Eanes à cabeça e o MRPP a rabiar. «Nunca existiu o risco do PCP tomar o poder em Portugal. Esse argumento é desmentido pela documentação, mas foi utilizado pelo PS para aliar-se aos sectores mais reaccionários da sociedade, nomeadamente a hierarquia da Igreja e das Forças Armadas». Note-se que a investigadora deita mãos a uma matéria sensível, quase tabu, mas munida de documentos recolhidos nos arquivos britânicos, soviéticos e norte-americanos, além de iluminar algumas partes sombrias daqueles tempos. Durante anos, como se sabe, o mito do assalto ao poder comunista serviu para escrever a história – e a democracia – por linhas tortas. Linhas, afinal, que permitiram outro tipo de assaltos ao poder, cuja ressaca estamos agora a pagar à grande…e à alemã. Ainda só passei os olhos por alguns capítulos, mas parece que, de uma vez por todas e sem subterfúgios, fica bem exposto o papel do PS nestes 19 primeiros meses de democracia: podendo optar pela via de um governo de esquerda partilhado e alargado em termos políticos e sociais, o partido de Mário Soares preferiu fazer uso das manipulações mais abjectas e das mais estranhas cumplicidades, tornando-se na verdadeira casa de alterne do processso revolucionário da época. Como diria o outro, cada um é para o que nasce…

Otelo

Nos últimos dias, Otelo Saraiva de Carvalho já disse que, se fosse hoje, talvez não fizesse o 25 de Abril. Não satisfeito, também disse ao Jornal de Negócios que, nesta altura da nossa vida colectiva, talvez nos faça falta um homem «com a honestidade e a inteligência de Salazar». Espantoso, escreveu entretanto alguém por estes dias, não é que Otelo tenha feito o 25 de Abril, mas que o 25 de Abril se tenha feito apesar dele. Estou tentado a concordar. Quem conheça a história daqueles meses loucos da democracia portuguesa, sabe do que falo.

Abril contado

Excelente o trabalho de Susana Moreira Marques sobre o documentário “48” no Ípsilon desta semana. As entrevistas e memórias de pessoas que passaram pelas prisões e torturas da PIDE – o tema do filme – dão à jornalista pretexto para um trabalho soberbo, carregado de «vidas inteiras que contam a história de um País». E há ainda um bónus: o texto intimista da própria Susana, que reproduzo abaixo…e assino por baixo.

O cravo também é meu
Por Susana Moreira Marques

1.Nasci um Verão depois do Verão quente, um Verão depois do Verão em que milhares de pessoas chegaram de mala na mão a Portugal vindos das ex-colónias, entre eles os meus pais.
Não fui baptizada e essa foi a primeira liberdade que tive. Não cresci a pensar que, como mulher, teria que casar para sair de casa ou que era obrigatório ter família. E a pátria era uma ideia que até geograficamente era incerta.
Todos os anos no 25 de Abril ia aos ombros do meu pai para a Avenida dos Aliados. Empunhava um cravo, aprendia a Grândola Vila Morena e as palavras de ordem como uma espécie de mnemónica. Eu entendia que tudo aquilo era para não esquecer, antes de entender o que é que era que não podíamos esquecer.

2. A última vez que o meu avô foi ao cinema foi para ver o filme sobre o 25 de Abril da Maria de Medeiros. Ainda hoje fala nisso. A minha avó ainda era viva e ainda estava bem de saúde, e ao ver o filme o meu avô chorou como um adolescente. Quando a minha avó morreu, eu e a minha irmã percorremos várias floristas até encontrarmos um cravo, a pedido do meu avô, para pôr no caixão.
O meu avô não estava em Portugal no 25 de Abril, mas em Luanda. O meu avô não tinha sido resistente antifascista, não tinha tido problemas com a PIDE, mas o 25 de Abril era, para o meu avô, operário de uma aldeia na margem do rio Douro, um momento tão importante como o seu casamento, o nascimento de um filho ou de uma neta, era parte da vida dele.
Quando vi o filme da Maria de Medeiros sobre o 25 de Abril também chorei, e não foi só por ver o meu avô chorar.

3. Durante toda a minha adolescência e ainda nos meus vintes era obcecada por música dos anos 60 e 70. Tinha começado com o primeiro CD que o meu pai comprou junto com o primeiro leitor de CDs que trouxe para casa. Eu tinha 12 anos, o CD era dos The Doors, e a seguir, comprámos Rolling Stones, The Beatles. E eu tinha a certeza que tinha nascido tarde demais. Onde é que eu estava nos anos 60 e 70? Onde é que eu estava no 25 de Abril?

4. Na Avenida da Liberdade, a gritar “o povo unido jamais será vencido”, não sei bem que pessoa é aquela de punho levantado. As palavras saem da minha boca mas parece que não sou eu que as digo.
Durante vários momentos do protesto do passado dia 12 de Março, as pessoas marcharam pela Avenida da Liberdade silenciosamente. De repente, ficavam eufóricas com uma banda de sopro que fizesse barulho ou um grito mais afutebolado que não dissesse nada mas gritasse mais alto do que o nosso silêncio.
Só juntos do carro dos Homens da Luta, que faziam sentir que a “luta é alegria”, é que se podia gritar “povo”, “luta”, “camarada”, descomplexadamente. Os Homens da Luta, com a sua encenação, ajudavam-nos a ser manifestantes pós-modernos.

5. Fui entrevistar alguns dos participantes no “48”, documentário de Susana de Sousa Dias, sobre a tortura pela PIDE, com uma certa reverência. Acabei as entrevistas com a mesma admiração pela generosidade daquelas pessoas, mas a saber que reverência é a última coisa que desejam. Foi por isso que eles passaram pela tortura, não viram os filhos ou os pais durante anos, não estudaram ou dedicaram-se a profissões: para que nós pudéssemos ir para a rua manifestarmo-nos por coisas insignificantes. Um recibo verde, pois.

6. Tenho quase 35 anos e, no 25 de Abril, continuo a sentir-me uma criança. Parece que ainda estou às cavalitas do meu pai. Mas este 25 de Abril vou descer das cavalitas do meu pai e sentir que o cravo que empunho é meu. Vou começar a fazer uma lista de palavras de ordem novas.