Diário de um pai em construção – 6

Desde que percebeu que viria aí novidade, o gato tornou-se ainda mais próximo da futura mãe. Desfaz-se em mimos, reivindica atenções suplementares e desatou mesmo a pedir colo, por vezes reclamado estendendo as patas pelas coxas acima. Não adianta tentar evitar ou fazer de conta. E o ronronar, convenhamos, é imperdível e recompensador. Além disso, o senhor «bola de pêlo», como é tratado na intimidade, arranjou maneira de impor ainda mais a sua presença e assenhorar-se dos seus lugares no quarto, sempre com ar de quem ocupa o trono por direito irrevogável. Veremos como reagirá em breve, quando começar a cheirar roupas em miniatura, alcofas e berço. Desconheço se lhe dará mais tarde para ciumeiras. É possível que um gato afectuoso como poucos, habituado a ser rei e senhor da casa, do jardim e arredores, possa sentir-se invadido no seu território e na exclusividade das meiguices. Mas a verdade é que ele nunca faltou nas horas boas e más. E deu a pata ao manifesto. Cá por casa, sabemos ser reconhecidos. E cá estaremos para fazê-lo sentir-se tão pêlo da família como dantes.

À conversa com Alexandra

Breve reencontro com a Alexandra Lucas Coelho, na Feira do Livro do Porto. Uma alegria e uma surpresa, sempre. E sempre, também aquele dom que ela tem de se interessar pelas vidas dos outros, por mais breves que passem por ela. Veio ela do Brasil para apresentar o seu novo livro – «Tahrir – Os Dias da Revolução» (Tinta da China), um diário muito pessoal da revolta que levou à queda de Mubarak. No aeroporto, com regresso ao Rio na agenda, ela sentiu o impulso e uma vontade enorme de se desviar da sua rota. Num ápice, comprou um bilhete para o Cairo. Ela, que diz não acreditar em «processos revolucionários» nem em revoluções com 52 anos (alguém leu Cuba?) nem, já agora, na reescrita politizada que depois se faz daqueles momentos da história, anulando-os, quis perceber se aqueles dias do Egipto eram reais. «Eram». E como se percebe isso? Percebe-se porque «não é fácil engendrar a verdade». A revolução da Praça Tahrir foi feita por gente de vários credos e fés, de várias gerações, «que tomou a decisão de estar lá nos primeiros dias sabendo que isso implicava um risco de vida». As mesmas pessoas que, após a queda de Mubarak, voltaram à praça com pás e vassouras para limpar um espaço que se tinha, por fim, tornado seu. Para a vida. «Não foi o Facebook que fez a revolução, embora tivesse ajudado, porque era o único meio que havia para passar a mensagem. Quem fez a revolução foram aquelas pessoas», disse a Alexandra. E como se vive e escreve sobre isto? Cito o livro: «A minha pergunta não é: e depois? A minha pergunta é: isto é real? Foi. Essa é a inspiração».

Cidade viva

Tertúlias literárias de final de tarde, à semana. A abertura do FITEI, com uma performance acrobática na fachada da Cadeia da Relação. Música ao vivo na Praça dos Poveiros, na Cândido dos Reis e na Praça Filipa de Lencastre. As 40 Horas de Serralves, com portas abertas para exposições, concertos, dança, performances, malabarismos vários e um espectáculo do Teatro de Marionetas do Porto pensado pelo inesquecível João Paulo Seara Cardoso, «Make Love not War», vivido com a mesma intensidade por pequenos e graúdos, por entre carrinhos de bébé, mãos dadas e cumplicidades várias. A Feira do Livro, espraiando-se pela Baixa. E ainda a «Vandoma» improvisada pelo Flea Market na Cooperativa Árvore, à volta dos livros. As Feiras Francas – ainda que prejudicadas pela chuva – a animação a rodos e rios de gente durante dias tomando conta de salas, auditórios, parques, galerias, restaurantes, bares…e ruas. Há opções para todas as bolsas e exigências, mais eruditas ou populares, mas, por certo, inclusivas. Quem diz – e escreve – que o Porto está moribundo e cinzento não sabe o que diz e fala do que não vive.

Felino

Já imaginaram um retrato do Irão e do lado underground da sua capital, Teerão, em jeito de videoclip? Então agarrem «Os Gatos Persas» antes que fujam. E preparem-se para um filme simplesmente so-ber-bo e desconcertante sobre a luta urbana pela liberdade de criação e o rasgar de horizontes da jovem geração iraniana. Premiado em Cannes há dois anos (!) «No one knows about persian cats» – título original, bem mais desafiador – anda por aí meio escondido nas salas portuguesas. Aproveitem e descubram as fantásticas canções dos Take it Easy Hospital (dupla iraniana radicada em Londres, cujos músicos são dois dos protagonistas do filme), o rap subversivo dos Hichkas e a voz arrepiante de Darkoob. Tomem lá e digam que vão daqui…

Os portugueses e os portugueses

Quando chega a campanha eleitoral, os portugueses dividem-se entre portugueses e portugueses. Os portugueses dizem que os portugueses não fazem nenhum, que querem é vadiar ou ir para o poleiro. Os portugueses respondem que os portugueses querem o poleiro ou andar a vadiar e que não fazem nenhum.

Nas campanhas eleitorais – e fora delas, já agora – os portugueses olham para os portugueses com desdém. O português está sempre disposto a apontar o português aldrabão, irresponsável e malandro enquanto o português olha desconfiado do outro lado do balcão e aponta para o português malandro, irresponsável e aldrabão.

Os portugueses acusam normalmente os portugueses de serem preguiçosos, pouco produtivos e incapazes de pensar no futuro do País. Indignados, os portugueses respondem que o futuro do País não se constrói com portugueses pouco produtivos e preguiçosos.

A poucos dias das eleições, os portugueses acusam os portugueses de não apresentarem ideias, de não debater as grandes questões que interessam ao País e de só estarem preocupados com o tacho. Prova de que o confronto de posições e programas, afinal, até existe, é o facto de os portugueses logo responderem que os portugueses só estão preocupados com o tacho e não querem debater as grandes questões do País e apresentar ideias.

Que isto está mal, qualquer português sabe. É por isso que qualquer português que se preze só pode indignar-se ao ver e ouvir os portugueses dizerem mal de tudo e todos. Quem o faz só pode mesmo ser português.

MC (publicado em http://www.visao.pt)

País em estado de fórum

Retirado do blogue Vai e Vem, de Estrela Serrano e Azeredo Lopes

«Esta campanha eleitoral está a ser quase caricata. Hoje um dos temas foram “os fantasmas”, melhor , “os eleitores-fantasma”.
Na SICN um fórum sobre a notícia de capa da revisão Visão – Os fantasmas que favorecem a direita – fornece “retratos” pitorescos.
No estúdio, além do moderador, estão um dos autores do estudo em que se baseia o artigo da Visão e o director-geral do Administração Eleitoral.
– Um telespectador telefona e identifica-se como “eleitor fantasma”.
– Outro diz que a Mãe “morreu o ano passado” mas vai “ver se ela está nos cadernos eleitorais”.
– Outro não gosta de ver o director-geral (presente no estúdio e com pouca experiência de televisão) a “olhar para o autor do estudo (ao seu lado), a abanar com a cabeça e a fazer sorrisinhos” quando algum telespectador pergunta “porque é que agora se está a levantar este problema”.
– Outro, irritado com a discussão, pergunta se “somos todos umas bestas” ao que o moderador responde que “essas expressões não são aceites neste programa“. A conversa ficou por ali.
– Outro pergunta como é que vão resolver o problema dos fantasmas porque “não é suposto os mortos dirigirem-se às juntas de freguesia a anular a inscrição”.
– Uma emigrante diz que onde ela está “alguns morreram mas como os mortos não vêm cá continuam inscritos”.
– Outro diz que a “culpa é da Comissão Nacional de Eleições”.

Isto aconteceu no mesmo dia em que Passos Coelho levantou o fantasma da “reavaliação da lei do aborto”.
É caso para dizer que andam fantasmas à solta na campanha …»

Já cá mora…

Declaração de interesses: a Patrícia, para mim, não se discute. E o livro tem um poema meu. Esclarecidos? Desconfiados? Azarito. Durmo muito bem para esse lado e para os outros também, já agora. O livro, aquela capa e aquele título, a trazer-me memórias de um dos mais belos discos que ouvi. O livro. Talvez o pudesse ter lido antes, se calhar até pude, mas estou agora a abraçá-lo como novo. Acontece que mergulhei nele e fiquei. Quando acabar, depois de pesar todas as palavras e frases que vou sublinhando (os livros são para rabiscar, têm de ter as nossas rugas) digo-vos, escrevo. Agora estou a ser levado por mãos sábias entre os escombros de um tempo e a quinquilharia dos dias. Uma certeza, já: este livro não é para descobrir. Este livro descobre-nos. A partir do nada. Ou talvez até a partir do tudo que não sabíamos que mora dentro de nós. Quando acabar, digo-vos. Até já…