Medieval


Não há crise que afaste o povo de Santa Maria da Feira por esta altura do ano. A viagem medieval está viva e recomenda-se. Vi mais gente trajada a rigor e mais carrinhos de bebé, mas posso estar sugestionado. As febras no pão tamanho XL recomendam-se e as papas de sarrabulho idem. Quando virem um café que vende iscas no pão digam que são duas iscas e dois pães, não vão eles meter duas iscas…no mesmo pão. O caldo verde com a couve flor no lugar da batata também se recomenda, já para não falar nos doces de chila. As cenas cómicas em redor da feira e no anfiteatro puxam ao aplauso. Já as idas ao castelo para ver os espetáculos talvez sejam dispensáveis, que a caminhada é longa e as vozes dos atores perdem-se na pedra bruta. Dito isto, bom petisco.

Floco-Notas – 9

O gato foi à clínica veterinária. Protestou um bocado, deu com cães que se babavam, entrou no consultório e, aproveitando uma deixa da doutora, sentou-se ele na cadeira. Pois bem: parece que os seus esbeltos 14 anos escondem, apesar de tudo, maleitas que até já poderiam ter surgido há algum tempo, como insuficiências renais e coisas que tais. Nos últimos dias anda a ser tratado a peso de ouro (não, não é metáfora, é apenas uma maneira de falar da conta da clínica em euros). O gajo merece, pronto. O que tem dado em troca por estas bandas já dava para lhe garantir uma conta bancária nas Ilhas Virgens.

Taxi Driver – 5

Ele diz que foi segurança pessoal de Fraga Iribarne, histórico presidente do governo galego, durante 14 anos e eu acreditei. Eu acredito em todas as histórias de taxistas. Todas. Este, «e já que estamos aqui a falar», disse ser filho de um grande empresário da restauração do Porto. Conhece «três quartos do mundo», mas do que gosta mesmo é da América Latina. Já viveu no Brasil, onde tem família, na Venezuela, na Argentina e, nos últimos anos, no Uruguai, onde vivia refasteladamente. Regressou a Portugal há quase quatro anos «para vir dar uma ajuda ao velho, que estava doente». Mesmo sem precisar, deu-lhe para se meter a conduzir um táxi nas noites do Porto. Mas o Uruguai, que não lhe sai da cabeça, é para onde quer voltar. «Montevideo é um paraíso», diz. Há tempos propuseram-lhe um negócio «fabuloso»: uma fazenda com cabeças de gado, dois lagos e um preço miraculoso: 25 mil euros. O salário mínimo no Uruguai, disse-me ele naquela noite, são 20 euros. Não são. Desde Janeiro que são 6000 pesos, qualquer coisa como 230 euros. Mas o que é que isso interessa? Talvez fosse assim quando ele veio embora, pensei. Fui pesquisar e verifiquei que o homem falhou por pouco. Há uns anos, o salário mínimo uruguaio valia, de facto, pouco mais de 40 euros. Dê lá por onde der, com taxistas há sempre uma regra simples a seguir: nunca deixar que a verdade estrague uma boa história.

Anatomia de um diário

O jornalista João Pedro Fonseca escreveu para o DN, em 2004, a notícia que faz hoje a manchete do JN. Passaram sete anos. O jornal, que tenta ir agora à boleia dos acontecimentos na Noruega, recicla uma matéria ocorrida aquando da realização do Euro-2004. O João Pedro indigna-se – e bem – contra a falta de memória. Compreendo-o, mas nem sequer é o caso. Trata-se, quando muito, de memória selectiva, esperteza saloia e mercearia jornalística. Diga-se, de resto, que o percurso recente do JN tem dado pano para mangas nas redes sociais, por vezes até de forma anedótica. Não é que a versão anterior fosse recomendável, mas o momento actual do diário de referência do Norte de Portugal optou por trilhar caminhos que têm merecido um apurado sentido crítico de leitores atentos, gente do meio jornalístico e até profissionais de gabarito do próprio JN. Com tristeza, diga-se, pois, tal como eu, muitos apreciam e recomendam o trabalho de excelentes profissionais daquela casa.

A nova direcção (pergunto-me o que faz ali a Ana Sousa Dias) começou logo em grande estilo ao dispensar cronistas como Alice Vieira, por exemplo, com argumentos muito afetuosos. Ou, digamos, aconchegantes (a carta é conhecida e pode ser lida em vários poisos da Internet), trocando-os por luminosas bússolas do escrevinhanço nacional. Há dias, o JN juntava ao rol de episódios dos últimas semanas dois títulos de primeira página onde se podia ler o seguinte: «Professor badalhoco aperta o pescoço a funcionária zelosa» e «Tarado de 28 anos seminu tentou violar cinco idosas no cemitério». De resto, e porque é sabido que a nova filosofia do matutino concorre diretamente com o Correio da Manhã (basta ver uma primeira página de qualquer dia da semana), até é muito provável que o registo «droga, sexo, crime, pedofilia» faça subir as vendas, o que, como se sabe, é apenas o que conta para quem decide e manda, sem cuidar de patrimónios erguidos a custo. Um dia, porém, talvez se possa fazer um escrutínio sério e rigoroso sobre as causas da decadência deste jornal popular de referência. Causas que não estão apenas na existência da Internet ou das redes sociais, mas que têm razões mais fundas que se prendem com aquilo que o JN quer, pode ou devia ser. Uma delas, e fiquemos só por aqui nesta fase, talvez esteja na própria evolução da espécies. Da bandeira militante em defesa do Norte popular ao negócio jornalístico de faca e alguidar vai uma vida. E umas tacadas.

Angeiras

Ao fim de largos anos sem voltar, redescobri Angeiras. Duas vezes na mesma semana. Ali, o mar ainda é uma rede de tradições e histórias de homens e mulheres de água salgada, todos gentes bravas. O bairro de pescadores, os barcos no cais, as casas térreas enfileiradas por ruas e vielas onde o cheiro a sardinha e a pimentos grelhados se mistura com a maresia, como deve ser. E depois, os sítios para almoçar e jantar onde não faltam a broa caseira, as azeitonas, o polvo de escabeche, as ameijoas, as sandes de ovo com presunto, a caneca de cerveja gelada, o peixe fresco de uma variedade infinda. Diz-se até – e já se escreveu – que os «chefs» de alguns restaurantes da moda desaguam manhã cedo no mercado de Angeiras para comprar o pescado que hão-de cozinhar e servir à mesa com requintes e exorbitâncias descamados de durezas. Angeiras ainda cheira a comunidade, vizinhança, a povo vestido de camisas grossas ao xadrez e rostos tisnados pelo sol, pelo sal, enrugados pela vida. Hei-de voltar. Uma e mais vezes. Porque este é ainda um lugar com gente dentro.