Noites Passadas

Querida, encolhi os Mission

Por Miguel Carvalho

Primeiro, a declaração de interesses: a minha adoração pelos Mission teve, além da tralha habitual de vinis, cassetes e «piratices» adjacentes, um saco da tropa com uns gatafunhos sobre a banda, umas roupas pretas a condizer, uma t-shirt comprada em 1989, nos Champs Élysées, em Paris, numa noite com seis graus negativos (tenho, infelizmente, testemunhas) e até um pseudónimo suficientemente enigmático para impressionar as miúdas nos Pregões e Declarações do Blitz: The Mission Boy from Porto era a minha capa para escritos entre a poesia Clerasil e um dark side fictício, totalmente de engate, pois sempre achei a vida mais luminosa do que a indumentária e a banda sonora dos meus dias diziam.
Devo, além disso, ter assistido a quase todos os concertos dos Mission no Porto e arredores. Incluindo o primeiro, no velhinho Pavilhão das Antas, quando os rapazes apareceram ao povo depois de emborcarem garrafas de Vinho do Porto pelo gargalo (um crime sem atenuantes). Em homenagem ao meu próprio passado, sujeitei-me ainda, há meses, a uma sessão underground num bar medonho com o vocalista Wayne Hussey a solo. Noite durante a qual pedi várias vezes que ele tocasse o Kingdom Come e ele ia respondendo que não tocava o Condom King.
E assim cheguei ao concerto comemorativo das bodas de prata da banda. Passaram 25 anos para eles e certamente mais de 25 quilos para mim. A julgar pela assistência, não era o único. Os trajes de negro não mudaram, claro, mas o mix grisalho & barriguinha já dobrou a Boa Esperança. Há quem lhe chame maturidade. A verdade é que íamos numa missão: como continuamos a saber as letrinhas de cor e salteado e o bem-intencionado do Wayne prometia reunir parte da família (Simon Hinkler e Craig Adams) para celebrar o bem bom, dissemos presente. Saiu-nos, porém, algo mais próximo do género «é tão bom, não foi?». Os Mission deste regresso assemelham-se, pois, àqueles casamentos de fachada, presos por fios. Podem viajar pelo mundo, de mão dada, que já não convencem ninguém sobre o prazo de validade do matrimónio. Eu ainda regressei a casa a trautear o Blood Brothers e o Deliverance, mas, a partir de agora, fico-me só pelas memórias, pode ser? A minha missão acabou.

(Crónica publicada na última edição da Visão)