Diário de um pai em construção – 16

O «Chisco» gosta de Mozart, já aqui se disse. Também já descobriu a Baby TV…mas não a vê, só ouve, que por agora ainda são os pais que mandam. Ao ouvido, para o adormecer, resultam três canções velhinhas da Brigada Victor Jara que também povoaram a minha meninice: Rema, um original dos Açores (“Rema para lá lanchinha…”), Ó Menino Ó, uma doce cantiga de embalar, tradicional de Trás-os-Montes (“O teu pai foi ao eiró/tua mãe à borboleta/logo te vem dar a teta”) e a Charamba, também dos Açores (“Eu para todos vou cantar/e a todos quero saudar/ do fundo do coração”). Às vezes basta-lhe que se sussurre um melódico «Huuum…Hummm…huuum», desde que ritmado e sem perder o balanço. Mas há dias em que nenhuma canção nos salva da perrice. E o resto são cantigas.

Verdades verdadinhas

“Durante muitos anos fomos ouvindo que a incerteza era o maior símbolo da nossa época, que se gabava de ter derrubado todas as seguranças tidas no passado por inquebráveis, e que devíamos assumir alegres e festivamente essa insegurança em vez de nos deixarmos arrastar pelo espírito reacionário da nostalgia das firmezas metafísicas do passado (…) A grande decepção dos nossos dias consistiu em descobrir que os promotores dessa doutrina da incerteza gloriosa, os propagandistas da ilimitada fleixibilidade das nossas vidas, das nossas moradas, dos nossos empregos, das nossas famílias e das nossas propriedades, tinham uma agenda oculta e um ás na manga: com toda essa defesa da inconsistência, da variabilidade, no fundo não procuravam mais do que uma única coisa: segurança absoluta para os seus rendimentos.»
JOSÉ LUIS PARDO, filósofo e ensaísta espanhol no caderno «Babelia» do El Pais

País Basco. O primeiro dia…

Uma canção dos Oskorri para estes dias de Euskadi livres da ETA. E livres, talvez, para um passo de gigante rumo ao sonho de um País Basco finalmente senhor do seu destino.

Guretzat / Nós
Para nosotros son iguales
dia de trabajo o de fiesta,
convertimos el trabajo en tema para cantar.
Cojamos con las manos la llave y la laya,
para con el trigo y el hierro trabajar Bizkaia.

Traemos cantando con la guitarra un aire nuevo,
canto libre y leal,
honrado y noble;
por medio de el sea bien conocido lo que somos,
defendamos al pueblo trabajador y campesino.

Que nuestros deseos no acaben con esta canción,
que las acciones sean hijas de nuestra palabra.
Que un día no digamos “así sea”, sino “así es”,
el cansancio y el trabajo son hijas de la felicidad.

Nuestros deseos nuestras quimeras
nubes de sueños suelen ser
y el tiempo loco se nos escurre
en un querer y no poder.
Si acaso un día ese destino
somos capaces de volver
agua de suerte, agua de vida,
agua de parto va a llover.

Si vamos por este camino,
sepamos por qué,
debemos jurar de buena fe,
cada uno por lo suyo;
los creyentes por su Dios
y los que no creen,
por su honor.

OSKORRI – Guretzat

Hoje é dia de Graça

Graça Morais inaugura esta quinta, às 18 horas, na Cooperativa Árvore, no Porto, a sua mais recente exposição, «A Caminhada do Medo». Conversei uma tarde inteira com ela, uma vez, em Lisboa, e acho que dificilmente voltarei a fazê-lo porque as emoções desse momento foram demasiado fortes para serem repetidas. Passaram cinco anos sobre esta entrevista. E o meu encanto pela mulher e pela pintora permanece. Aqui vos deixo a versão publicada desse encontro…

“Sei pouco, até de pintura”

Por Miguel Carvalho (VISÃO, 19 de Outubro de 2006)

Tem medo que a memória e o tempo lhe faltem. Nas horas muito suas, pinta identidades. A dela, por dentro, a nossa, por fora. Sem que o pincel se renda à indiferença.

Cada vez tem menos pachorra para exposições. Mas a azáfama rege, de novo, o compasso dos dias.
A colecção de obras de Graça Morais, adquirida ao longo de anos por José Paço d´Arcos, estará à vista no Torreão Nacional, em Lisboa, a partir de dia 26. E ela anda num virote a ver onde encaixa os quadros, alguns dos quais serão expostos pela primeira vez. Aos 58 anos, esta transmontana, de sotaque puro como um doce de aldeia, ainda corre, corre a ver se desenrasca as horas silenciosas de que precisa para, em sossego, desassossegar consciências.

Conta-se que as imagens de choque do Iraque e do Líbano a têm inquietado.
Vivemos momentos de enorme preocupação. Guerras surdas que, de repente, estalam por todo o lado. Não consigo isolar-me nem alhear-me. É tão assustador que só me preocupo com as imagens que vejo.

A minha pintura começa a ser uma reflexão sobre isso.
A pintura corre ao sabor de outro tempo. É preciso recuo e reflexão. Não me interessa ser repórter com a minha pintura, mas apanhar a essência, o humano e ver como isso -se interioriza com o que pinto.

Quer perturbar e inquietar?
A arte é isso. O pintor não pode separarse da sua biografia e do mundo. Mas também perco tempo com coisas comezinhas. Sinto-me agredida. É péssimo.
Nunca recebi tanto correio inútil. Já estive uma tarde a deitar cartas ao lixo. É uma sociedade de excessos e inutilidades.

O campo é o seu território natural?
O campo já não é um espaço pacificado. A sociedade de consumo já lá chegou. Os mais velhos andam desnorteados, não sabem que mundo é este. Ou sabem de mais. Os programas televisivos da manhã fazem companhia, mas são alienantes, dizem-se muitas tolices. As pessoas interessantes são obrigadas a falar depressa, mas dá-se tempo de antena a gente tonta, sem nada na cabeça.

Vieiro ainda é o seu conforto da alma?
Tenho lá um ateliê e gosto de visitar a minha mãe ao pôr-do-Sol. Mas mudei-me para um lugar sossegado a seis quilómetros, não digo qual. No Vieiro havia excesso de ruído. Os carros fazem o desvio para o IP4 pela estrada que passa defronte da casa da minha mãe. Passei a ter mais barulho na aldeia do que em Lisboa.

É a segunda de seis irmãos e nasceu numa época em que os avós ainda contavam histórias à lareira…
As noites, sobretudo no Inverno, eram longas. Escurecia às 5, ceava-se às 6 e a noite que restava era ocupada à lareira a contar histórias. Muitas estavam relacionadas com a Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial. As notícias demoravam a chegar, inventava-se. Mas com fundo de verdade. Depois juntavam-se bruxas e lobisomens. Era um universo que metia medo, mas despertava a imaginação.

Como era a sua terra naquele tempo?
Nasci numa aldeia sem estrada, electricidade e telefone. Quando se adoecia morria-se muito porque os médicos vinham a cavalo de Vila Flor. Nasci em casa.

Família pobre?
Não. O meu avô materno, António Pinto, tinha uma casa de lavoura que dava trabalho a quase toda a aldeia. Estava sempre cheia de gente ele tinha oito filhos e apareciam familiares, trabalhadores. Adorava as conversas à mesa com os obreiros, era assim que lhes chamávamos.

E davam abrigo a ciganos e mendigos…
Sim. Nesse tempo, andavam de terra em terra uns desgraçados sem casa, a pedir esmola. Tinham sempre um tecto para dormir, a solidariedade era natural. O meu avô era bom homem, generoso. Nunca enriqueceu mais porque dava muito. Naquela casa, nunca se matava apenas um porco. No dia em que se fazia o fumeiro, eu corria várias casas a entregar comida. Havia fome, pobreza. As casas melhores alimentavam as outras.

Isso perdeu-se?
Não, mas hoje as pessoas sabem que há uns subsídios e descarregam as consciências no Estado. Quem passa verdadeiras dificuldades, tem vergonha, não diz. Vive em profunda solidão. Soube há tempos que uma família da minha terra passava fome e tive vergonha.

Ainda lhe chamam «a assistente social»?
É verdade (risos). Às vezes, trato de assuntos urgentes que se arrastam meses nas secretárias. Se posso, ajudo. Como tenho acesso privilegiado a algumas figuras, falo com elas, chateio.

Tinha medo das trovoadas?
Ai, imenso! As trovoadas eram, sobretudo, no Verão. Havia um quarto quase escuro. Diziam-me que se me embrulhasse num cobertor de papa, os raios não vinham. E eu, no rigor do Verão, lá me embrulhava. Uma sauna! Por vezes, as pessoas abrigavam-se lá em casa, com medo. Rezavam e choravam. Em dez minutos de granizo podiam ficar sem nada.

Como era a sua relação com a religião?
De medo, temor! Se fazia asneiras, Deus castigava. Havia sempre a noção de pecado. Na Páscoa, faziam-se empadas num forno grande. Víamos os tachos cheios de presuntos e salpicões e passávamos o tempo a petiscar. Confessava-me a seguir.

Pacificou os laços com o divino?
Transformei-os através da minha pintura. Vivi num lar de freiras em Bragança e levava aquilo a sério. Mas quando me questionei, optei pelo Deus salvador, do amor.

Como lidou com as proibições?
Tínhamos portas fechadas à chave, não se podia ir à janela. Era a idade das atracções, queríamos namoricos. Quando tive o primeiro amor, ameaçaram-me de expulsão só porque passeei na rua com o rapaz. Tinha 16 anos. Não tenho saudades desses tempos.

Como é que a sexualidade despertou?
Às escondidas, amarfanhada. Com tantas restrições, a personalidade empobrece. Mas hoje há permissividade a mais. Até pareço uma velha a falar. A garotada vê sexo ao vivo nas televisões! Expõe-se muito o corpo. A moda agora é mostrar o umbigo. Na Índia, é normal, tradição. Aqui é feio, vulgar. No sentir é igual: querem sentir tantas coisas e depressa que acabam por não sentir nada. É tudo tão intenso, confuso. Também sou sacudida por vários apelos. Não sobra espaço para pensar. Mesmo para ler um livro já tenho dificuldade de concentração. Queria era estar sossegada a pintar.

Que importância tem a memória para si?
Tenho um medo de a perder que me pelo! Estamos à mercê de imensas doenças e a consciência disso dá medo. A minha pintura está relacionada com a memória. É contra o esquecimento de certas pessoas, do povo que somos. Prezo a identidade do que sou e pinto.

Algum lugar no mundo a tocou fundo?
Paris, aos 28 anos. Um meio cultural rico, civilizado. Não podemos acomodar-nos a ambientes medíocres.

Portugal é um lugar medíocre?
Gosto muito de Portugal, mas há situações de grande mediocridade criadas por pessoas menores. O nosso problema sempre foi a inveja. O País é pequenino. Todos são compadres, cunhados, primos e afilhados.

Sente essa mediocridade na aldeia?
Lá, quem tem de zangar-se, zanga-se! Nos amores e ódios, as pessoas são genuínas. No meio artístico prejudicam-nos a vida de uma forma hipócrita, com uma palmada nas costas. Aceito que não gostem da minha pintura. Mas tenho medo daqueles que dizem que sou boa rapariga e não vêem um quadro meu nem vão às exposições.

Tem medo da morte?
Tenho! Agora tenho. Não me apetece morrer. Se morrer fico chateada. Em miúda, gostava de ver nascer e de olhar a cara dos mortos. Hoje não consigo. A última cara que vi foi a do meu irmão Zeca, que morreu de cancro. Olhei para a cara dele e não era o meu irmão, era outra coisa.

Como eram as mulheres da sua infância?
Pessoas de grande generosidade. A minha mãe é a mulher da minha vida. Tem 82 anos e continua corajosa, forte, decidida. Parte da vida das mulheres como ela, sobretudo na sexualidade, foi abafada pelas convenções. Mas elas mandavam: organizavam a economia doméstica, a vida dos filhos. Aguentaram muito.

Herda do seu pai o lado mais aventureiro?
De certeza. O meu pai era bem parecido, boémio, conquistava mulheres com facilidade. Tocava guitarra. Tinha pouca vocação para a vida de casado, não era homem de uma mulher só. Morreu cedo, esgotou-se em pouco tempo. Entendia a minha sensibilidade de artista. Deu-me as aguarelas quando vivíamos em Moçambique.

Como foram esses anos?
O meu pai foi para África por aventura. Estivémos lá dois anos, mas a minha mãe tinha problemas de saúde e regressámos em 1958. Ele ficou. Entre os 10 e os 23 anos não o vi. Passei a adolescência a imaginar a figura masculina. Fez-me falta. Mas nunca o censurei. Ele também não era feliz.

Essa ausência paternal influenciou o facto de só recentemente ter pintado rostos de homens?
Tive sempre uma certa vergonha de pintar homens. A falta de naturalidade e de uma vivência entre pai e filha talvez o explique, não sei. As mulheres é que andavam à minha volta. Casei com 23 anos, tive namorados. Mas os homens foram durante largo tempo sinónimo de proibição.

A família não queria que fosse pintora…
A minha mãe. E com razão! Tinha medo que eu morresse de fome. A pintura estava associada à pobreza. Só filhos de grandes famílias aguentavam. Hoje há gente a tirar cursos artísticos só para ganhar dinheiro. A pintura não é isso. É uma necessidade profunda de ser e estar.

A sua mãe gosta dos seus quadros?
É muito crítica! Às vezes, posa para mim. Não gosta dos desenhos a carvão, acha-os tristes. E diz: «Nem sei como há pessoas que compram a tua pintura» (risos). Não é fácil gostar. A minha pintura não é lambida, decorativa. Durante anos vendi pouco. Mas o que pinto é testemunho de uma época. A pintura é grande reflexão de alguém sobre si próprio.

Oferece muitos quadros aos amigos?
Gosto de trocas. Sou capaz de trocar um desenho por uma peça de roupa. Durante uns tempos fui à mesma cabeleireira porque ela dizia que queria ter um quadro meu, mas não tinha dinheiro para o comprar. E já troquei um quadro por um móvel. Hoje, a pintura vale dez vezes mais e o móvel já se desfez (risos).

Em criança trocava merendas…
Com os meus colegas pretos, em Moçambique. Adoravam o meu pão com compota e eu as espigas de milho cozidas com água da chuva, saborosas! Os meus pais não me puseram na escola só de meninos brancos e ainda bem. Convivíamos com os meninos pretos. Lembro-me de passarem à porta de casa a dançar e a cantar «Gracinhá! Gracinhá!». Sempre gostei de dançar.

Sente-se próxima de África?
É onde sinto mais solidariedade, empatia. Mas as relações que os governos têm com África são hipócritas. O mundo rico não quer saber dos africanos. Teme-os por se reproduzirem aceleradamente. Devem pensar que até é bom que a sida leve muitos.

A política chama muito por si?
A cada passo. Quando gosto das pessoas, envolvo-me. Há artistas que nunca dão a cara por um político, mas na sombra aproveitam-se. Eu apareço. Tomo posição.

Sobretudo quando os amigos precisam…
Refere-se a Mário Soares (risos)? Ele não precisava de mim nas presidenciais, mas sou incapaz de dizer não a um amigo. Mesmo sabendo que vai perder. Mas digo o que penso. Admiro, por exemplo, o esforço e as reformas que o Governo está a fazer. Sócrates é um homem corajoso e há pessoas íntegras a governar. Mas as obrigações do PIB, as inflações, etc, transformam tudo em números. E esquecem-se as pessoas, os seus sentimentos.

É uma mulher de esquerda?
As minhas preocupações são de esquerda. Sou contra a criminalização de mulheres por causa do aborto. Sei de católicas que abortaram e votam contra. São hipócritas. Mas as mulheres que conheço e abortaram sofreram com isso toda a vida. É vergonhoso haver mães adolescentes. Falta educação sexual. Os pais nunca se apercebem das necessidades sexuais dos miúdos, que agora começam cedo. Na TV, já podem ver tudo.

Como olha para a homossexualidade?
Naturalmente. Tive um tio-avô paterno homossexual. Sofreu muito e num meio difícil. Tal como ele, outros só não sofreram mais porque tinham dinheiro, defesas. Os pobres sofrem sempre mais. Até nisso. Vivem escondidos. Tenho amigos homossexuais encantadores, gente de grande dádiva. Há uma dimensão feminina nos homossexuais que se aproxima da minha.

Tem algum lado mais conservador?
Talvez. Mas no aborto, sou de esquerda. Nunca fiz nenhum, mas já perdi um filho.

Em que circunstâncias?
Por causa da interioridade. Agora fala-se do fecho das maternidades, mas há 24 anos estava na aldeia e entrei em trabalho de parto com sete meses de gravidez. Em Bragança, o hospital não estava preparado para receber um prematuro. Fui para o Porto numa ambulância sem condições, durante cinco horas. A criança e eu sofremos. O menino morreu poucas horas depois de ter nascido. Se tivesse vivido seria uma criança deficiente. Senti na pele o que é não ter condições para ser atendida rapidamente.

O Porto está ligado a momentos tristes da sua vida. Sentiu-se hostilizada na Escola de Belas-Artes, não foi?
Vinha de Bragança, senti-me um peixe fora de água. O ambiente da escola era duro, de grande concorrência, havia um certo pedantismo. Tive de trabalhar imenso. Não senti carinho nem estímulos. Mas fiz o curso com notas muito altas. Dei aulas no Soares dos Reis, no Porto. E em Guimarães, onde adorei viver. Tive alunos criativos. Aquela gente tem alma de artista. É um pequeno mundo de criadores.

À primeira, viver em Lisboa correu mal…
Sem dinheiro e sem casa, como é que queria que fizesse?! Vim de Paris em 1980, tinha uma filha com cinco anos [Joana, 32, trabalha em videoarte] e cá nem sequer havia casas para alugar! Não tinha dinheiro para viver em Paris.

Nunca se sentiu exilada em Lisboa?
Sempre fui bem tratada. Na primeira exposição, em 1980, alguém disse ao Fernando Assis Pacheco que havia uma rapariga a fazer umas coisas engraçadas e ele foi ver. Não sabia quem ele era. Fez-me uma série de perguntas e ia rabiscando notas à toa no bloco. Numa sexta-feira, vejo n´O Jornal um artigo enorme. Foi a pedra de toque para a exposição ser visitada. O Assis Pacheco deu-me sorte.

Mas houve transmontanos estigmatizados…
Senti isso a primeira vez que expus na Culturgest. Os quadros eram da série As Escolhidas, retratos das cabeças de mulheres transmontanas. Houve filas enormes. Os transmontanos vinham falar comigo, emocionados. Homens agarraram-se a mim a chorar porque, pela primeira vez, deixaram de ter vergonha das origens. Reconheceram-se nas pessoas retratadas. Era gente do passado deles: avós, amigos, conhecidos. Alguns diziam: «Sabe, o meu avô era cavador e até hoje tive vergonha de o dizer».

A sua pintura é também um manifesto contra a perda de referências?
Sabe que nunca as vi assim e agora sinto que a palavra manifesto faz todo o sentido?! Às vezes visito jovens artistas, mas a maioria dos trabalhos é banal, superficial, feita apenas com a intenção de piscar o olho ao comissário, percebe? Fazem umas piruetas. Pantomineiros, portanto. Esses ainda têm algum trabalho. Aprecio pessoas exigentes consigo próprias: o Júlio Pomar, a Paula Rego.

Entre a ética e a estética nunca duvidou?
Nunca. Sofro muito com a minha pintura. Às vezes sinto-me injustiçada, incompreendida. Mas passo à frente através do meu trabalho. Quando estou em baixo, vou ver arte e penso em como a vida de outros artistas nunca foi fácil. A arte é uma grande insatisfação. Quando começo um quadro entro numa luta comigo própria, sou exigente. Não posso mentir, enganar-me. Mas a sociedade não suporta o enriquecimento dos artistas. Anda toda a gente a negociar os nossos quadros, mas quando o artista também ganha com o seu trabalho é logo apelidado de «comercial». Não pensam sequer na verdade com que o artista pintou.

Ainda pinta descalça?
Às vezes (risos). Pensa-se melhor.

Pinta sobretudo nos momentos maus?
As depressões são pouco criativas. A não ser que fosse tolinha, mas isso seria terapia. Pinto sozinha. Em silêncio. Sou casada com um músico e admiro-o muito mas a música não é feita para servir de fundo. O Pedro [Caldeira Cabral] faz tanto esforço com a música como eu quando pinto. É enciclopédico, sabe muito de muita coisa. Dá mais achegas à minha pintura do que eu à música dele.

E a literatura, que papel tem na sua vida?
Enorme. Sinto mais cumplicidade com os escritores do que com pintores. A Agustina Bessa-Luís é uma sábia!

É viciada em livrarias…
Ui, adoro! Sobe-me a adrenalina.

Ainda é a melhor coleccionadora de si própria?~
Sou. Tenho alguns quadros porque não se venderam e ninguém quis. E outros porque preciso muito deles.

Em duas frases suas, retiradas de um diário, diz: «Sei tão pouco e comecei tão tarde»; «Quase nos 60 e tão analfabeta»… Sente-se mesmo assim?
Sei pouco, até de pintura. Não é modéstia. Em Belas-Artes aprendi pouco. Tenho feito um esforço, toda a vida, para aprender mais.

That´s what friends are for

Primeiro veio o BPN, mas como não tinha conta no banco, não me preocupei.
Depois, veio o BPP, mas como não era amigo do Rendeiro, olhei para o lado.
Depois, vieram as PPP´s, mas como já eram siglas a mais, ignorei.
Depois, vieram os precários, mas como não era precário, não me misturei.
Depois veio a troika, mas como era para nos salvar, desliguei.
Depois, vieram as eleições, mas como tinha uma viagem marcada, faltei.
Depois, mandaram-me apertar o cinto, mas como já era normal, apertei.
Agora, disseram-me para baixar as calcinhas e já era tarde quando reparei.

(A partir de First they came, de Martin Niemoller)

O Lobo

O Expresso do último fim-de-semana decidiu sair da morrinha habitual de entrevistas a António Lobo Antunes sempre que o escritor lança um livro e experimentou pedir a cinco críticos um texto sobre o novo livro «Comissão das Lágrimas». Todos os anos era a mesma coisa: Lobo Antunes editava um novo romance (ou que lhe quiserem chamar) e tínhamos garantidas resmas de páginas sobre as reflexões do autor, com aquela cara de enjoo que se lhe conhece. Estamos, neste caso, livres de explicaçôes arrastadas sobre vozes, polifonias literárias e até imunes aos efeitos da tal «mão invisível» que, na versão do próprio Lobo Antunes, lhe «escreve» os romances. Dito isto, deixo algumas citações interessantes retiradas das críticas publicadas pelo semanário. Prova de que ainda há vida para lá das convenções.

«Ninguém dirá a verdade a Lobo Antunes: alguns livros são ilegíveis, puro contorcionismo e acrobacia palavrosa, discursos e vozes sem rumo nem identificação, narrativa sem estrtutura, personagens apenas nomeadas que nunca chegam a formar-se, muito menos a identificar-se fora da cabeça do escritor. Ele sabe do que está a falar e quem está a falar, os leitores não. O escritor deixa os leitores à porta».
CLARA FERREIRA ALVES

«O leitor avança por um terreno liso, sem paragens nem curvas nem encruzilhadas, e o perigo a que está exposto é o de sentir um enorme tédio, porque a paisagem é sempre igual (…) O que aumenta, isso sim, é a impaciência do leitor perante a redundância. Aquilo que é prometido como polifonia não passa de uma algazarra de vozes indistintas (…) E ainda que seja justo reconhecer que conseguimos isolar frases, excertos, páginas que têm uma grande força e densidade, logo somos obrigados a verificar que eles são submetidos a um dispositivo que os esvazia e tudo devolve, transformado no artifício gratuito de uma hiperliteratura deslumbrada consigo mesma».
ANTÓNIO GUERREIRO